Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Mapeamento de negócios de impacto social revela desafios financeiros

Segundo estudo da Pipe.Social, pequenos empreendedores sofrem com pouco capital e falta de aceleração

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 06h00

A segunda edição do Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental do Brasil, que será divulgado na próxima terça-feira (19), faz uma radiografia do ecossistema e mostra que a captação de recursos e o acesso a programas de aceleração (leia mais aqui) fora do eixo Sudeste-Sul estão entre as principais demandas dos empreendedores desse nicho.

O estudo, realizado pela Pipe.Social – plataforma de conexões para fomentar o impacto social –, mostra os principais desafios e oportunidades para esse tipo de empreendedorismo que busca o lucro e, ao mesmo tempo, quer solucionar problemas sociais e ambientais. A primeira versão do mapa, de 2017, contou com 579 empresas. Agora, foram 1.002 das áreas de educação, saúde, serviços financeiros, cidadania, cidades e tecnologias verdes.

:: Aceleração é demanda principal de negócios de impacto no País :: 

Um dos destaques do mapeamento, a que o Estadão PME teve acesso com exclusividade, aponta que oito entre 10 empreendedores de impacto estão em busca de recursos financeiros. Pelo menos um terço deles procura no mercado valores até R$ 100 mil, e outro terço busca entre R$ 101 mil e R$ 500 mil. Os índices mostram que a demanda por investimentos mais baixos continua sendo a maior entre os pesquisados.

O destaque é para a alta procura por investimentos de até R$ 100 mil para as áreas de cidadania e educação no Nordeste entre negócios em fase inicial fundados por mulheres. Outro índice que chama a atenção é a demanda por captação acima de R$ 501 mil para negócios de tecnologia verde em fase de escala.

“Para você criar uma empresa que vai fazer rastreamento de vazamento de água na rede de saneamento básico do País, o investimento é grande. Para começar, às vezes é preciso R$ 1 milhão”, explica Mariana Fonseca, fundadora da Pipe.Social.

Sobre as fontes de capital, dos 85% da base pesquisada que detalhou seus investimentos (849 negócios), 42% investiu apenas capital próprio, 24% captou só recursos de terceiros e 34% obteve as duas formas de investimento. De 1.002 negócios, 22% já captou via doação.

“A paixão do empreendedor de impacto faz com que recursos via ‘family, friends e fools’ (família, amigos e fundadores) sejam uma constante. Percebemos que captação de valores menores, como capital semente e investidores-anjo, são mais restritos e incipientes. Temos uma conjunção financeira em que é mais seguro investir em um CDB ou na Bolsa do que correr risco com uma empresa”, diz Mariana. Uma saída, segundo ela, é fomentar o smart money. “É o dinheiro do investidor que também tem paixão pela causa. Ele ainda vai contribuir com conhecimento, tornando a jornada menos solitária.”

Ainda de acordo com Mariana, tem crescido no País a modalidade de investimentos via crowdequity. "A CVM proporcionou algumas mudanças messa modalidade, que são investidores aportando dinheito de forma coletiva. Os empreendedores conseguem acessar esse dinheiro por empréstimo ou equity."

O engenheiro elétrico William Lima vive os desafios do empreendedorismo de impacto desde 2013. Ainda na faculdade estagiou em uma usina de reciclagem e, tempos depois, já formado, foi fisgado pelos encantos da tecnologia de impressão em 3D. Para começar, comprou o equipamento e um kit fora do País. No processo de aprendizado, muitas impressões eram descartadas.

“Foi então que juntei minha experiência e a reciclagem e comecei a pensar em uma forma de reaproveitar o material”, conta Lima. Os primeiros testes para reciclar o plástico foram feitos na garagem de casa. “Os testes deram certo, vi que era possível reciclar esse plástico, mas faltava algo para ser produto comercial.”

Foi em um edital de inovação do Senai em 2016 que ele conseguiu suporte para reciclar o material da melhor forma e desenvolver o filamento sustentável (com as mesmas características de um material virgem) para impressoras 3D da PrintGreen3D, sua empresa. A experiência mostra como o suporte ao empreendedor é, muitas vezes, fundamental.

“Foi com eles (Senai) que eu consegui chegar na formulação. Hoje consigo reciclar carcaça de eletrônicos, peças de automóveis e impressões que não dão certo.” Buscou suporte no Sebrae e na Fapesp, mas ainda não conseguiu participar de programas de aceleração (quer captar R$ 500 mil).

Agora, vai participar de um programa para desenvolver filamentos com cores. “No Brasil, existe apenas o cinza e o preto. Até o meio do ano quero colocar no mercado seis cores.” Hoje a empresa tem 70 clientes.

Sobre o ecossistema para o empreendedor de impacto ambiental no País, Lima acredita que ainda é preciso virar a chave do consumidor e de grandes empresas para a sustentabilidade. “As empresas maiores, em geral, buscam soluções do tipo ou por conta de alguma lei ou quando aparece na mídia, porque aí os clientes exigem deles. Existe ainda as empresas que buscam apenas marketing. E o usuário final ainda torce o nariz para o reciclado, acha que não tem qualidade.”

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