Valéria Gonçalvez|Estadão
Valéria Gonçalvez|Estadão

Mais que café, Trampolim é como hub para empreendedor

Restaurante do hotel Ibis Consolação prioriza negócios com microfornecedores e estimula empresa de seus funcionários

Ana Paula Boni, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2018 | 06h50

Um trampolim que ajuda o salto de empreendedores está na gênese do Trampolim Startup Café, restaurante do Ibis Consolação inaugurado em 2017 com porta voltada para a rua, independente do hotel.

Espécie de hub de empreendedorismo, que conecta várias partes e privilegia o impacto social, o Trampolim é impulso para gente de fora que quer usar o espaço como coworking, para nanofornecedores que vendem seus produtos no cardápio da casa e ainda para funcionários que, oriundos de ONGs, têm estímulo para dar um salto maior na carreira e abrir seu próprio negócio.

O espaço, que antes só funcionava no café da manhã para hóspedes e agora fica aberto até 22h30, estimula pequenos empreendedores que passam horas trabalhando nas mesas individualizadas por biombos, com televisores que podem ser conectados com apresentações comerciais, internet gratuita e uma espécie de palco para gravação de vídeos.

Mas o foco maior do negócio está voltado para dentro, tanto para quem fornece os itens do menu quanto para quem trabalha na casa. Mais de 70% das receitas oferecidas vêm de nanoprodutores, gente que não circula pelas feirinhas hipsters e de altos custos da cidade.

Dois exemplos são Josiane Macedo Dias e Márcia Paula e Silva, ambas cozinheiras colaboradoras da ONG Afrobusiness, que também é parceira do Trampolim para fornecimento de mão de obra.

Josi, como é chamada, tem seu nome estampado no cardápio ao lado do seu brownie. Márcia, também gravada nas páginas do menu, já ficou famosa por seu bolo indiano, feito com especiarias. Por conta do trabalho com o Trampolim, apareceu em programas de TV e está sobrecarregada de pedidos.

Para apoiar esse tipo de empreendedorismo com impacto social, o Trampolim aciona o setor financeiro do hotel quando precisa. “Às vezes, o financeiro paga o fornecedor em dinheiro se a pessoa jurídica não tiver conta em banco. Nunca deu problema. Além disso, a nossa margem de lucro é menor, pensando nos custos do pequeno empreendedor”, conta João Clímaco, gerente do restaurante, que participou da criação do conceito ao lado da então gerente do hotel Juliana Valença e da subgerente Ana Carolina Lisboa. No plano de negócio, a previsão é de retorno do investimento de R$ 450 mil em dois anos, mas o café estima recuperar o valor antes do prazo.

Contratações

Desde o começo do projeto, conta João, a ideia era trabalhar com mão de obra oriunda de ONGs, algumas que já eram parceiras da Accor, dona da rede de hotéis Ibis. Hoje o restaurante tem 12 funcionários, todos provenientes de entidades como Afrobusiness, Unibes, Centro Social Menino Jesus e Estou Refugiado.

Uma delas é Fabiana Caitano de Lima, 37 anos, cozinheira que veio pelo Menino Jesus. Após 15 anos trabalhando em um restaurante mineiro, passou a fazer cursos na entidade, quando teve contato com um chef da rede Accor. Foi por meio dele que incluiu seu pudim de paçoca no restaurante do hotel Pullman e hoje faz sucesso no Trampolim com o quitute. Fabiana continua vendendo doces e salgados sob encomenda ao lado do marido, negócio que tocava antes do Trampolim. Agora, com o emprego fixo, conseguiu dobrar sua renda.

Mônica Lemos, 50 anos, é outra funcionária que veio do mundo dos restaurantes. Contratada por meio do Afrobusiness, já teve cozinha industrial ao lado do então marido, com quem vendia receitas sob encomenda. Com o fim do casamento e do negócio, passou a fazer eventos com a ONG e cursou parte de uma faculdade de gestão de eventos, que quer retomar. Agora, ela aproveita a segurança do emprego fixo para estudar nas horas vagas. “Futuramente, vou ter de volta minha cozinha.”

Outros funcionários ali já deram o salto para realizar o negócio próprio. Na semana retrasada, o jornalista venezuelano Carlos Daniel Escalona, 32 anos, deixou o Trampolim para se dedicar integralmente a um catering que montou com outros refugiados. “A saída deles é um tristeza e também uma felicidade. Porque o intuito do projeto é que as pessoas saiam daqui”, conta João.

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