Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

Luz, câmera e oportunidades para os pequenos

Empreendedor do setor de audiovisual ganha espaço ao poder criar produções para cinema, YouTube, TV e plataformas de streaming

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2018 | 07h00

A variedade de produções que hoje podem ser feitas para cinema, TV (aberta e fechada), YouTube, plataformas de streaming e vídeos on demand, além da publicidade, cria um cenário atraente para empreendedores do setor, impulsionados por leis de incentivo e mudanças de comportamento na era da internet. A coordenadora de pós-graduação em Gestão e Produção de Negócios Audiovisuais da Faap, Luciana Rodrigues, dá a dimensão do potencial de mercado: “As pessoas, hoje, consomem produções audiovisuais o tempo inteiro”. 

Somente no Estado de São Paulo existem 92 produtoras, distribuidoras e demais empresas independentes de audiovisual registradas no Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo (Siaesp). Ainda no mercado paulista, a Spcine, empresa de cinema e audiovisual criada pela Prefeitura de São Paulo em 2015, investiu o total de R$ 43,1 milhões em projetos conjuntos com a Agência Nacional de Cinem (Ancine) nos últimos três anos. 

Para fomentar ainda mais o setor, a própria Spcine acaba de criar o Sampa Criativa, programa com previsão de ser lançamdo até o fim do semestre e que pretende qualificar profissionais do segmento de audiovisual da economia criativa. 

Fora de São Paulo e Rio, um dos polos que proporcionam a integração entre o audiovisual, o empreendedorismo e a tecnologia no País é o Porto Digital, no Recife, cuja produção cinematográfica ganhou respeito em todo País. O Portomídia, espaço dedicado à economia criativa do centro, oferece estrutura para realizadores de obras audiovisuais principalmente nas etapas de pós-produção, oferecendo laboratórios com alta tecnologia no País. Também funcionamos como incubadora e coworking”, diz o coordenador de economia criativa do Porto Digital, Leonardo Medeiros.

No País, há mais de cinco mil produtoras independentes registradas, segundo os últimos dados disponíveis na Ancine. Sobre a força das novas plataformas e interações possíveis, a Netflix, por exemplo, investe cada vez mais em produções nacionais, como a recém-anunciada série que está sendo feita em parceria com o dono do maior canal do YouTube no Brasil, KondZilla. 

“Vivemos uma revolução de mercado. Hoje, uma produtora independente pode muito bem fazer uma série e ser descoberta por um sistema de streaming atuante no mundo todo”, diz Medeiros, coordenador do Porto Digital, no Recife. Ele destaca que agora também é possível pensar em conteúdo além do mercado local. “A questão da distribuição e exibição, que antes não conseguiam ser desmembradas da cadeia do audiovisual, hoje estão atuando separadas e todos nós precisamos entender a melhor forma de explorar este negócio.”

A cineasta e sócia-fundadora da produtora paulistana Coração da Selva Transmídia, Geórgia Araújo, se espelha na maneira de atuar das startups para consolidar e expandir as possibilidade de negócios da empresa, em atividade há 15 anos. 

“No começo dos anos 2000, já percebíamos a vocação da produção independente para várias telas. E, em 2006, por exemplo, fizemos um longa-metragem que rendeu duas temporadas de uma série e pílulas em um programa de televisão.” 

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Geórgia criou no centro de São Paulo o que chama de cluster, alugando um prédio de oito andares para ter um espaço totalmente dedicado às várias frentes de atuação dentro do setor. “A produtora ocupa dois andares e atua como empresa âncora. Montamos um coworking, onde trabalham produtoras menores e advogados especializados em audiovisual. Também oferecemos atividades de formação e proporcionamos ambiente de aceleração para empresas que estão em estágios anteriores ao nosso”, diz

Fundada em 2016, a Cazumbá já nasceu com três frentes de atuação. “Trabalhamos com a produção de conteúdos autorais para cinema e TV, distribuição e coprodução nacionais e internacionais. Tentei não engessar a empresa”, conta a fundadora e cineasta Larissa Figueiredo. Ela diz que atualmente o principal foco da empresa é viabilizar séries e produtos para a televisão, sempre com viés autoral. No dia 23 de março, a produtora estreou um episódio da série O sonho e o tempo, exibida no Canal Brasil, por exemplo.

Mesmo com formação adquirida na Suíça, que, segundo ela, aborda de forma profunda à produção executiva, Larissa procurou se aprimorar com um curso em gestão e empreendedorismo no setor audiovisual. E para expandir ainda mais as conexões com o mercado, a cineasta se divide entre São Paulo, Brasília e Curitiba. Sobre a estrutura da empresa, diz que ainda não tem uma equipe fixa e contrata profissionais de acordo com os projetos.

Coprodução é possibilidade para começar no segmento. Para quem pretende investir no setor audiovisual, um dos caminhos para começar a captar projetos é participar de coproduções. A diretora do Siaesp e fundadora da Bossa Nova Films, Denise Machado, destaca que foi dessa forma que teve entrada em produções para o cinema. “Isso permite adquirir pontuação na Ancine, ser reconhecido no mercado, montar um portfólio e ainda fazer conexões”, afirma. 

Por constatar que a parceria entre empresas maiores e menores contribui para o mercado, a cineasta conta que dentro da produtora foi criado o Bossa Lab, um coletivo criativo que busca alunos ou iniciantes no segmento para desenvolver conteúdo com a equipe experiente da produtora. “Eles nos trazem frescor, um olhar renovado”, diz. Outro nicho importante do mercado e que, na visão de Denise, merece atenção dos novos profissionais é o setor de games. 

Profissões. Geórgia Araújo, da Coração da Selva, destaca que a indústria do audiovisual emprega diversos tipos de profissionais. “Precisamos de eletricista, maquiador, cenógrafo, roteirista, figurinista e diretor, por exemplo. Cabe pessoas formadas em cursos mais amplos, mais focados, superior e técnico, por exemplo.”

Para a professora da Faap Luciana Rodrigues, o profissional que ainda falta no setor é o produtor executivo, responsável por pensar na obra e no mercado. 

“Precisamos formar profissionais que consigam enxergar o audiovisual não de um jeito setorizado. O ideal é ter noção de economia, direito e administração. Cada vez mais temos políticas públicas e a chance de coprodução internacional. É preciso ter um profissional que dê conta disso, para que as produtoras não existam apenas para emitir nota fiscal”, afirma. 

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