Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Lojas para nerds resistem à crise do comércio

Estabelecimentos que vendem produtos ligados ao universo geek, como cards Pokémon e bonecos de personagens de outros games, beneficiam-se da fidelidade de clientes que não abrem mão de suas paixões

Alessandro Lucchetti, Especial para o Estado de S. Paulo

14 de março de 2017 | 05h00

A importância do universo Pokémon, criado em 1995, cresceu bastante ao longo do tempo. Mas nem todos conhecem a origem do nome dessa franquia de mídia - trata-se de uma contração da expressão Pocket Monsters. Esses monstros de bolso, por assim dizer, têm exercido a função de verdadeiros anjos da guarda dos bolsos de  parte dos investidores e apaixonados por cards, animes, mangás e bonecos que decidiram montar lojas com essa temática, voltadas para um segmento do público geek e nerd.

Esses personagens são a alegria do empresário René Salvador Pool, e têm o poder, que não deixa de ser mágico, sobretudo em períodos de crise, de ajudar-lhe a pagar suas contas. René, apaixonado não só por Pokémon, mas também por outros seres criados para games, como Sonic, montou, no final de 2014, uma loja on line para transacionar esses produtos. O comércio lhe proporcionava, em seu início, um complemento de renda, e ele manteve seu emprego numa loja de motocicletas no centro da cidade.  Mas a demanda cresceu e hoje é a única ocupação do comerciante de 33 anos, que alugou uma pequena loja no Shopping Moto & Aventura, na Alameda Barão de Limeira, por R$ 1,5 mil. A Suika é um estabelecimento único naquele centro de compras, frequentado por motoqueiros apaixonados pelas marcas Harley Davidson e Triumph. 

"É muito comum um motociclista entrar na minha loja durante a semana, dar uma olhada e trazer os filhos no final de semana", comenta René, que nem tem noção sobre o impacto da crise em seu negócio. "Esta loja nasceu bem no olho desse furacão".

Para o empresário, esse segmento resiste à crise por estar atrelado a uma paixão. "Digo por mim. Gastava todo o meu salário com videogames. Fiz uma viagem ao exterior e gastei uma fortuna num boné do Sonic. E não me arrependo. Esses produtos remetem à nossa infância, e nos ligam a esse prazer".

Consultor do Ibmec do Rio de Janeiro, o professor de economia Gilberto Braga acredita que haja mercado para os investidores que apostaram nesse tipo de loja, embora elas tenham se tornado relativamente comuns em grandes centros urbanos. "Não há nenhum estudo específico publicado sobre esse mercado, mas, na minha avaliação pessoal, acho que há espaço para todos que saibam trabalhar nele".

A crise não é suficientemente forte para levar esse segmento à bancarrota, na avaliação de Gilberto. "Não se trata de um consumidor passivo, e o empreendedor não fica esperando que entrem em sua loja. É uma tribo que se fala em redes sociais, faz eventos. Trata-se de um grupo permanentemente ativo, que descobre produtos, cria demandas e admite novos ingressantes constantemente".

As variações do dólar são um desafio. Quando está muito alto, compram-se pequenas quantidades de mercadoria, que se esgotam rapidamente, o que frusta os consumidores mais ávidos.

 Denis Souza, hoje gerente da Mangekyou Animes e Games, diz que a loja, localizada na Avenida Paulista, pratica uma margem mais baixa de lucro no momento, de 30% a 50% do valor de compra dos produtos importados, para não assustar os clientes.

Boa parte das mercadorias importadas é adquirida de fornecedores, em reais. Por vezes, são encomendadas a amigos que viajam ao exterior. Um dos carros-chefe, os cards Pokémon, procurados por uma faixa etária dos 6 a mais de 40 anos de idade, são fabricados no Brasil pela Copag há três anos. O advento da fabricação nacional representou um alívio para os proprietários de lojas.

A Mangekyou pretende criar um vínculo ainda maior com seus clientes, criando um espaço com mesas para que eles disputem campeonatos no interior da loja.

Daniel Sodao, gerente da Shinozaki, localizada no coração do bairro da Liberdade, a Rua Galvão Bueno, não está tão empolgado. "O dólar é um complicador. Em seis meses, o preço de uma mercadoria que comprávamos por R$ 50 dobra. Isso dá uma detonada no nosso negócio. Se tivesse capital, eu não montaria uma loja como esta neste momento, iria segurar um pouco".

Cristhiano Saud, dono da loja Otaku, de Belo Horizonte, deu um passo na direção contrária à seguida por René Salvador. Em 2015, fechou a loja física, que abrira em 2009, e mantém apenas a operação virtual. Sente-se aliviado por não mais pagar o aluguel de R$ 3 mil mensais. 

Boa parte das mercadorias que comercializa - canecas, buttons, posteres, arcos com orelhas de gatinhos - ele manda fabricar. Com o comércio eletrônico, lucra uns R$ 5 mil mensais, e até "exporta" mercadorias para Amazonas e Acre. "São clientes que têm contato com essa cultura e sentem dificuldades para adquirir os produtos na Região Norte. Eu lhes envio as mercadorias pelo correio".

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