Mônica Zarattini - 03/11/2005
Mônica Zarattini - 03/11/2005

Loja sobrevivente de discos tem 9 unidades só para guardar acervo

Prestes a completar 39 anos, Baratos Afins é uma das lojas mais conhecidas da Galeria do Rock, na 24 de Maio

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2017 | 05h00

24 de Maio não é apenas um dos endereços da Galeria do Rock. É também a data de aniversário da Baratos Afins, uma das mais antigas entre as 22 lojas de discos daquele prédio com passagem para a Avenida São João, no centro de São Paulo: completará 39 outonos antes de junho chegar. A galeria, que já foi mais digna do nome, chegou a ter 84 lojas de discos. Hoje lá predominam estúdios de tatuagem, lojas de camisetas e de silk screen. Luiz Calanca, proprietário da Baratos, utiliza outras oito unidades daquele prédio comercial como depósitos de vinis e CDs.

Mosca branca entre vendedores de discos, Calanca conseguiu não apenas sobreviver num ambiente de negócios inóspito para a cadeia que envolve a indústria fonográfica, mas formar um grande acervo e criar um selo independente. A empresa não vive o auge de seu negócio, é bem verdade: a Baratos chegou a dar emprego a 17 trabalhadores; hoje lá labutam sete, incluindo Calanca e a mulher dele. E seu depósito se espalhava em 13 unidades da Galeria.

Nascido na Flórida (Flórida Paulista, quase na fronteira com Matro Grosso do Sul), Calanca formou um respeitável acervo de oito mil títulos de vinis para discotecar bailinhos nos tempos em que era farmacêutico. "Eu tinha os 13 álbuns do Roberto Carlos, por exemplo, faltando só o primeiro", recorda, cheio de orgulho.  A ideia de vender discos tomou forma quando um amigo lhe deu a dica: uma loja de material fotográfico, então abrigada no endereço que a Baratos tornaria famoso um dia, estava fechando as portas, e o aluguel "tava de graça", nas palavras do empresário, hoje com raros e curtos cabelos brancos.

"Tive que conviver um tempo com um cara que morava na loja. Um cunhado meu estava fechando uma loja de discos na Vila Carrão, e achou que eu era maluco de entrar nesse ramo". Nos arredores da Baratos, havia ampla oferta de bolachões: duas lojas da Brenno Rossi, igual número da Bruno Blois, três unidades do Museu do Disco, além de lojas de departamento, como Lojas Isnard, Mappin e Mesbla. Calanca chegou causando nessa meca do vinil: forrou a loja com capas de disco do gênero musical que abominava na época, disco music. Era inevitável pisar na face de Donna Summer para chegar aos mostruários de vinis. 

O pulo do gato do comerciante ocorreu em meados dos anos 80, quando muita gente se livrou de suas coleções particulares, atraída pela modernidade dos CDs. Calanca não ouviu qualidade no som produzido pela leitura do laser. "Os Beatles soavam como Monkeys", diz o empresário, referindo-se à banda criada pela rede de televisão norte-americana NBC para faturar uns dólares, no embalo da Beatlemania. 

Naquela época, Calanca multiplicou seu acervo com trocas. "Tocava uns dois CDs do Frank Zappa por uma coleção inteira dos LPs dele. Eu me dei muito bem naquela época".

Quem não ficou satisfeita com aquela multiplicação de mercadorias foi a mulher de Calanca, que viu atulhado de discos o apartamento do casal, na Liberdade. "Tive que comprar o imóvel do andar de baixo, porque os discos parecem atrair pó, e eu levava bronca".

Irrequieto, Calanca percebeu que poderia criar outro braço da Baratos, um selo independente. Na década de 80, produziu "Não São Paulo", a versão paulistana de "No New York", compilação de bandas obscuras da cena de Manhattan, e lançou discos de Arnaldo Baptista (Singin' Alone, de 81, e Disco Voador, de 87). 

A antiga loja de material fotográfico revelou para o mundo o talento de Tom Zé. Ao relançar álbuns dele, Calanca tornou possível que David Byrne o ouvisse. O fundador dos Talking Heads foi fundamental para a nova decolagem da carreira do músico baiano. Pelo mesmo chão em que se pisava a face de Donna Summer passaram Jello Biafra (Dead Kennedys), Thurston Moore (Sonic Youth) e Eric Burdon (The Animals), entre outros.

O farmacêutico que tocava clarinete e tinha mais interesse em MPB, jazz e música caipira (gosto cultivado em Flórida Paulista) acha que jamais se lançaria na aventura em que se enredou em 78, caso tivesse essa opção de caminho hoje. "Para se ter uma loja assim, é importante entender de música. Naquela época, achava que entendia. Hoje percebo que não entendo nada".

A Baratos não se chama Museu do Disco, mas cumpre a função. Como gosta de dizer Calanca, "é mais fácil vender um disco por R$ 2 mil do que dois mil discos a R$ 1". Dono de raridades que formam seu acervo, o comerciante percebe que se deu bem ao apostar num negócio que se tornou raro.

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