Rafael Arbex| Estadão
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Lógica do 'e' impulsiona crescimento de negócios de impacto social

Panorama sobre o empreendedorismo social abre a #SemanaProPME; evento discutirá o tema no próximo dia 27

Felipe Tringoni, especial para, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2017 | 08h00

Ganhar dinheiro e mudar o mundo. Unir motivações profissionais e pessoais. A lógica do “e” cada vez mais guia o crescimento dos negócios de impacto social no Brasil. Num país com 85% da população formada pelas classes C, D e E, com acesso a educação, saúde habitação e lazer defasados, empresas que buscam agregar valor à sociedade encontram espaços para inovação em um mercado cada vez mais interessado em tais temas.

“Mais do que pinçar as classes econômicas e como se define isso, é preciso pensar como se tem acesso a esses serviços básicos. Nesse sentido, o empreendedorismo de impacto é muito relevante”, diz Edgard Barki, pesquisador do tema na Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Falamos de empresas que resolvam gaps de necessidades que nem governo, nem terceiro setor dão conta”.

Mapeamento divulgado no último mês de junho pela plataforma Pipe.Social mostra que boa parte dos negócios ainda é nova – 40% têm menos de três anos de atuação – e está concentrada nas regiões Sudeste (63%), Sul (20%) e Nordeste (9%) do País. O mapa aponta para um setor que tem se estruturado – 70% das empresas está formalizada, 90% tem equipe própria acima de dois funcionários e 19% delas trabalha com mais de dez funcionários.

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“Países como Reino Unido e Estados Unidos têm o empreendedorismo de impacto social bastante forte. Emergentes como Índia, Quênia e México também têm se destacado nos últimos anos. O Brasil caminha bem, esse crescimento dos últimos anos foi intenso. Mas infelizmente – porque as mazelas sociais persistem – ainda há muito para caminhar”, coloca o professor.

Trabalhar com um propósito

Segundo Barki, além da disputa por uma fatia de mercado, o crescimento do número de empreendedores apostando em negócios de impacto é justificado por uma busca de propósito na vida como um todo. “Hoje não se pensa apenas de forma dicotômica, separando trabalho da vida pessoal, mas em como se pode ter tudo numa mesma lógica e como o trabalho pode ser diferenciado. A nova geração está entrando no mercado procurando trabalhar com um propósito”.

Como observa Ricardo Mastroti, sócio-fundador da Bemtevi, fundo de investimento em negócios sociais, o perfil dos empreendedores é variado. Em comum, existe uma conexão emocional com a causa. “Une-se que há de melhor do segundo e do terceiro setor, no chamado ‘setor 2 e meio’. São empresas que nascem para resolver um problema social com gestão e profissionalismo”.

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Ecossistema em desenvolvimento

Nesse cenário, organizações como a Bemtevi se posicionam como intermediários entre a oferta e a demanda de capital. “Estamos entre o investidor que quer causar impacto e o empreendedor que precisa do recurso para causar impacto”, segundo Mastroti.

Para Fernando Assad, sócio do Programa Vivenda – startup que oferece soluções de baixo custo para reformas em moradias nas zonas Sul e Leste de São Paulo –, “a promessa de ‘ganhar dinheiro e mudar o mundo’ é encantadora. Mas falta base. Muitas vezes, o empreendedor acaba tendo que arcar com o ônus de desenvolver estruturas, algo que caberia a quem apoia o ecossistema – desenvolvedoras, governo, tudo isso. O lado fraco é o do empreendedor. Os elos fortes deveriam ser os que mais fomentam o campo para o empreendedor semear”.

Dos 579 participantes do mapeamento dos negócios de impacto da Pipe.Social, 46% citaram dinheiro e busca por investidores entre as ajudas mais necessárias. Apoio na comunicação (18%), mentoria (16%), busca por clientes e vendas (11%) e gestão e governança do negócio (11%) completam a lista dos principais desejos.

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“É um cenário ainda incipiente, porém com andamento muito positivo”, opina Danielle Brants, fundadora da Guten, que fornece uma plataforma digital de leitura e compreensão de texto a escolas. “Hoje acontece muita coisa que, há dois ou mais anos atrás, muita gente não pensava. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) nunca havia feito uma chamada para apoiar startups de impacto social [a Chamada ICE-BID 2017, programa de aporte financeiro]. Temos investidores internacionais e instituições grandes olhando para isso”.

Brants vê na instabilidade econômica dos últimos anos uma oportunidade. “O empreendedorismo acaba solucionando lacunas que o Estado não dá conta. Isso acontece em diversos segmentos, não só a educação. Temos que fazer.” Assad complementa a ideia: “Não é nada para suprir o que o governo não faz, muito pelo contrário. Tenho convicção do papel fundamental do Estado nisso tudo. Agora, os governos dão conta de fazer sozinhos? Essas ações devem ser articuladas entre os componentes do ecossistema”.

Como mensurar o impacto de uma empresa?

Ainda segundo o levantamento da Pipe.Social, embora 43% dos negócios pesquisados sinalizem seu propósito de impacto social em sua comunicação externa, 31% ainda não definiram indicadores para medição e 28% não acham necessário acompanhar as mudanças geradas por seu trabalho. Além disso, 73% nunca calcularam a análise do legado socioambiental deixado pelo negócio em oposição ao valor econômico extraído.

“Se é apenas para mostrar aos outros que se está fazendo o bem, essa medição não é relevante. Mas se é parte de uma busca para impactar mais e melhor a sociedade ou o meio ambiente, essa avaliação é muito válida”, diz Edgard Barki. “Mas como gosto de dizer, nem tudo que conta pode ser contado, e nem tudo que pode ser contado conta. Por vezes, o impacto está em como isso é percebido na vida das pessoas, não necessariamente em números frios”.

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