Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Literatura feminista puxa negócios na contramão do mercado editorial

Editoras e selos ganham leitores e veem faturamento crescer com onda de redescoberta do feminismo; Primavera Editorial vê salto de 30% no primeiro ano de reposicionamento

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2020 | 18h46

Especial para o Estado

Apesar de o mercado editorial estar em crescente retração no Brasil e no mundo, algumas iniciativas ainda brotam e florescem. A literatura feminista - sejam obras escritas por mulheres ou que abordem temáticas feministas sob diferentes prismas - vem ganhando espaço no País com onda de redescoberta do feminismo e rema contra a maré dos números.

Quando abriu as portas oficialmente em 2014, a Pólen Livros tinha um faturamento que ainda dependia em grande parte da prestação de serviços. “Começamos tímidos, com poucos títulos no catálogo”, relembra Lizandra Magon de Almeida, diretora editorial. “Até 2017, praticamente 70% do faturamento ainda vinha da produção de livros encomendados por outras editoras, jornais, traduções.”

A virada chegou após o lançamento de Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, de Jarid Arraes. Foram três tiragens do livro só no ano de lançamento. A situação se inverteu de vez com a coleção Feminismos Plurais, parceria com a filósofa e escritora feminista Djamila Ribeiro. “Hoje 80% do faturamento vem da venda de livros”, comemora Lizandra. 

O resultado tem muito a ver com a relevância das discussões levantadas pelo feminismo. De acordo com uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília, mais de 70% dos livros publicados entre 2005 e 2014 no Brasil foram escritos por homens - e em torno de 90% por brancos.

“As pessoas começaram a querer outros sujeitos que escrevem essa história”, analisa Djamila, ela mesma autora best-seller de diversos livros sobre feminismo negro. Os títulos da coleção Feminismos Plurais, que está no guarda-chuva do selo Sueli Carneiro, incluem autoras e autores negros. “Nós trazemos também a temática do racismo porque essa é uma questão estruturante da sociedade brasileira”, afirma a curadora. “Na nossa perspectiva, não tem como pensar questão de gênero sem pensar em raça.

Esta diversidade de pensamento atrai olhares não só por aqui, mas no mundo todo. Os livros da coleção agora estão sendo traduzidos para outras línguas, como francês, espanhol e italiano. “Penso esse movimento até como uma ressignifcação da rota transatlântica”, observa Djamila. “Viemos pra cá como escravizados e agora conseguimos exportar os nossos saberes, mostrando que o feminismo não é um movimento só feminino, mas sim um movimento social e antirracista.” (leia mais do papo com Djamila abaixo)

Outro ponto reforçado pela proposta da filósofa com a Pólen é o acesso ao livro. Títulos como Lugar de Fala (Djamila Ribeiro) e Racismo Recreativo (Adilson Moreira) são vendidos ao preço fixo de R$ 24,90. Hoje a editora tem parceria com distribuidoras que chegam às grandes lojas, mas a maioria da distribuição é feita diretamente para 100 lojas menores Brasil afora. É o caso de um pequeno estabelecimento chamado Sertão, em Jacobina (BA), que tem um clube de leitura de mulheres. “Bancamos o frete e fazemos o que for preciso porque queremos estar lá”, diz Lizandra.

Foi também a percepção do movimento na sociedade que levou a matemática Lu Magalhães, fundadora da Primavera Editorial há 12 anos, a redirecionar seu negócio cerca de três anos atrás. Desde que nasceu, a editora foi criando um catálogo com obras de ficção, não-ficção, livros voltados a desenvolvimento, negócios, psicologia. Chegou a publicar 90 títulos.

Há cerca de três anos, com a contratação de uma consultoria, entendeu onde o negócio estava mais consolidado. “Descobrimos que nosso público era composto de mulheres que gostam de se desenvolver e estão ávidas para discutir e contribuir para o mundo em que vivem.” Naquele momento, o foco do catálogo passou a ser o que essas mulheres, que têm entre 20 e 65 anos, querem ler.

Desde o reposicionamento, 75% das obras são sobre feminismo e universo feminino. O faturamento subiu em torno de 30% no primeiro ano, 20% no segundo e 18% em 2019. “Isso mostra que estamos no caminho certo, sem estouros no faturamento, mas crescendo em uma curva constante”, sintetiza a empresária. A editora também passou a ser referência no mercado. “Nossa comunidade de leitoras hoje é 45% maior.” A Primavera Editorial já lançou 14 livros nesta nova fase e prevê a publicação de 8 a 10 títulos em 2020. 

Grandes editoras

Editoras maiores também identificaram o potencial de vendas do feminismo. Com a ebulição da temática, o Grupo Editorial Record resgatou, no final de 2017, o selo Rosa dos Tempos, idealizado por Rose Marie Muraro e Ruth Escobar e lançado originalmente em 1990. O título inaugural da retomada foi Feminismo em comum - Para Todas, Todes e Todos, de Marcia Tiburi.

“O livro até hoje segue forte em vendas, já na 13ª reimpressão”, conta Livia Vianna, editora do Rosa dos Tempos. O foco é lançar livros que sirvam de suporte para que as mulheres pensem seus lugares e suas forças. “Temos publicado um a cada dois meses, resultando em pouco mais de 10 títulos desde a retomada”, diz.

Ainda segundo a editora, a média de assertividade de venda do selo é alta por falar com um público-alvo bem nichado e fiel. “Se compararmos as vendas da primeira fase do selo com a fase atual, o crescimento é vertiginoso”, afirma ela, sem revelar números. 

Em tempos de quarentena contra o novo coronavírus, as editoras apostam as fichas no mercado online. O Grupo Editorial Record, além de venda direta pelo site, oferece e-books de todos os livros do selo Rosa dos Tempos, audiolivros e lives temáticas. A Primavera Editorial, além de vender os livros pelo site e e-books em todas as plataformas digitais, está disponibilizando a obra O Livro dos Negros, de Lawrence Hill, para download gratuito.

A Pólen deve colocar no ar audiolivros infantis gratuitos nos próximos dias e estuda a possibilidade de antecipar o lançamento dos novos títulos já em formato de e-book. A produção de conteúdo não para, no entanto, dizem as editoras.

Aprofundamentos e reflexões com Djamila Ribeiro

O que diz a filósofa feminista, autora de livros como Pequeno Manual Antirracista e Quem Tem Medo do Feminismo Negro?

Novos autores feministas

“As pessoas começaram a querer outros sujeitos que escrevem essa história. Eu sinto que o mercado editorial entrar em crise talvez seja uma crise desse sujeito, considerado legitimado para escrever e falar. A Conceição Evaristo diz uma coisa muito interessante: “A questão da mulher negra não é só escrever, é escrever e publicar.” Eu acho que nós, ao evidenciarmos as produções de autores e autoras negras, pensando assuntos tão relevantes e fundamentais para o Brasil, lidamos com a demanda reprimida de pessoas que querem se ver representadas nessas obras, mas também de pessoas que pensam o Brasil e veem nossa elaboração de saber como algo importante. É fundamental que esses saberes também estejam visibilizados.”

Acesso ao livro

“Com a coleção Feminismos Plurais (da editora Pólen), os livros são acessíveis no preço. Fora isso, têm a linguagem didática e acessível, que não é obrigatoriamente palatável, muito pelo contrário. Tem também os lançamentos que a gente faz fora das livrarias. Para a gente que já tem uma coleção independente em que o livro custa barato, é importante também fazer lançamentos em equipamentos públicos que democratizam o acesso das pessoas. O lançamento só em livrarias pode afastar um público que, muitas vezes, sequer pisou em uma livraria. Porque aí tem uma questão de classe muito forte. Estamos nas livrarias porque achamos importante. Mas também estamos nos coletivos de periferia, bibliotecas de presídios, bibliotecas públicas, projetos sociais. Essa é a diferenciação do selo, é querer de fato ser democrático e fazer com que as pessoas se sintam representadas dentro dessas produções. Mostrar para as pessoas que livros são para elas e não só um produto restrito à academia.”

O livro em papel

“Com certeza há uma diferença entre o livro e o conteúdo online. Um dos motivos pelos quais idealizei a coleção Feminismos Plurais foi o meu incômodo em observar como os conceitos pensados por pessoas negras e mulheres eram esvaziados nas redes sociais sem o mínimo critério. Ninguém vai na internet dizer “eu acho que o conceito de má fé do Sartre é bobo”, mas eu via gente dizendo que acha que feminismo negro é bobagem, que empoderamento não serve para nada, sendo que a primeira pessoa que falou de empoderamento no Brasil foi Paulo Freire e essa é uma ferramenta analítica fundamental para feministas negras, feministas estadunidenses, indianas, latinas… Muitas vezes as pessoas querem rebater um conceito fazendo um vídeo na internet. O vídeo pode trazer algumas elucidações, mas não vai trazer a profundidade da discussão que a gente traz em um livro. Acho que é fundamental que as pessoas saibam basear seus argumentos. Para o Feminismos Plurais, tivemos uma estratégia e fizemos um trabalho muito forte nas redes sociais, isso difundiu a coleção, o que é ótimo. Mas muitas vezes as pessoas falam coisas sem sentido ou acham que podem falar sem saber, sem ler. Nossa intenção com a coleção é, sim, divulgar pela internet, mas aprofundar no livro. Para se aprofundar de fato precisa estudar, precisa ler. O livro é insuperável nesse sentido.”

Feminismo e racismo: indissociáveis

“Para nós, feministas negras, o feminismo precisa necessariamente ser antirracista. Existem várias vertentes e correntes no feminismo. O feminismo não é um movimento e pensamento heterogêneo, as feministas não vão necessariamente concordar entre si. Pelo contrário, há vários pontos em que as feministas não concordam. Nós trazemos a questão do racismo porque essa é uma questão estruturante da sociedade brasileira. Na nossa perspectiva, não tem como pensar questão de gênero sem pensar raça. Existem mulheres negras e homens negros que, na pirâmide social, ainda estão abaixo da mulher branca porque o racismo é estrutural. Feminismo, para nós, não é um movimento feminino. É um movimento social que visa pensar um outro projeto de sociedade, necessariamente antimachista, anticapitalista e antirracista. Isso de forma alguma é negar o machismo que as mulheres brancas sofrem, muito pelo contrário. Mas quando a gente traz a questão do racismo é porque essa foi uma discussão historicamente negligenciada. Muitas vezes o feminismo hegemônico tratou a questão como um clube da luluzinha ou com mulheres privilegiadas ainda reproduzindo lógicas de opressão a outras mulheres, pensando o feminismo só sob a perspectiva da mulher branca. Só que o racismo é um elemento fundamental para a discussão da nossa sociedade. Acho que foi por isso que o Feminismos Plurais impactou tanto no mercado editorial. Por trazer essa relevância da discussão racial dentro da discussão feminista, como algo fundamental e indissociável.”

Comunidade de leitores

“Meu primeiro público foram as mulheres negras, que apoiaram, divulgaram e foram multiplicadoras desses saberes que eu produzo. Tenho também um público muito grande de mulheres brancas. Homens negros também, principalmente gays, mas nos últimos tempos houve uma procura maior de homens brancos, o que acho interessante. Todo mundo tem que ler esses livros, não só pessoas negras têm que ler o que foi produzido por pessoas negras. Até porque historicamente fomos forçados e ler tudo o que foi produzido pela Europa e por pessoas brancas, então por que não ler também o que pessoas negras estão escrevendo, se também produzimos saberes e pensamos a sociedade? Eu penso que meus livros são para todo mundo. Têm que ser lidos por todos que se interessam por esses temas. São temas transversais. A questão do racismo é também da população branca, a questão do machismo é também da população masculina.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.