Helvio Romero/Estadão
Cleusa Maria, criadora da Sodiê, vê espaço para crescer ainda no Sul e no Nordeste. Helvio Romero/Estadão

‘Levei 20 anos para dar virada no negócio’, diz doceira retratada em novela

Ex-boia-fria que inspirou personagem da Globo se prepara para abrir a primeira loja da Sodiê Doces nos EUA; no Brasil, são 314 lojas em 13 Estados

Letícia Ginak, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 06h05

Histórias de sucesso muitas vezes se confundem com trajetórias de superação e resiliência. Não por acaso muitas delas já se tornaram filmes e conquistaram crítica e público. No caso de Cleusa Maria da Silva, fundadora da Sodiê Doces, sua história rendeu uma novela em horário nobre na Globo. A confeiteira e empresária Maria da Paz, personagem da atriz Juliana Paes em “A Dona do Pedaço”, folhetim das 21h, tem forte inspiração em Cleusa.

“Uma equipe da Globo nos procurou há dois anos dizendo que estava buscando material para uma personagem. Eles conheceram uma das lojas da Sodiê no Rio de Janeiro e nós autorizamos a referência.”

Ex-boia-fria natural de Salto (SP), Cleusa também foi empregada doméstica e começou de forma simples, vendendo fatias de bolo, como a personagem Maria da Paz. Depois de um intervalo de 20 anos, surge a empresária bem sucedida. “Eu também levei 20 anos para dar essa virada. Começar do nada e chegar aonde eu cheguei, nem em sonho pensei que isso fosse acontecer.”

Foram dez anos com apenas uma loja, a matriz em Salto, até abrir a primeira franquia, em São Paulo. Daí, em dois anos, Cleusa já tinha 50 franqueados. E a vida real superou a ficção. A marca Bolos da Paz, da novela, está prestes a abrir a 23ª confeitaria. Já a Sodiê acumula 314 lojas em 13 Estados. 

Destes endereços, quatro tem Cleusa na sociedade, o resto é franquia. Para abrir uma franquia Sodiê, marca que faturou R$ 290 milhões em 2018, é necessário investimento de R$ 450 mil (sendo R$ 60 mil de taxa de franquia).

A próxima inauguração de Cleusa, com previsão para 4 de julho, será a da primeira loja internacional, em Orlando (EUA), que custou a ela e a um sócio o investimento de cerca de R$ 2,8 milhões (US$ 600 mil). A ideia é abrir, 90 dias depois dessa inauguração, o franchising também nos EUA.

“Se dependesse apenas de mim, levaria mais 10 anos (para abrir fora). Ainda temos espaço para crescer aqui, principalmente no Sul e no Nordeste”, diz ela, que analisa também o mercado em Portugal, em cidades como Lisboa e Porto.

Para quem pretende empreender fora do País, a empresária alerta. “A gente gosta de falar da nossa burocracia. Mas alguém já foi empreender lá fora para saber? Você pode abrir uma empresa em oito horas, mas leva oito meses ou mais para levantar as portas. Aqui eu abro uma loja em 45 dias.” 

Além de se preparar para receber todas as inspeções, Cleusa diz que o empreendedor precisa seguir as normas à risca. “Se o agente acha que uma simples tomada não está de acordo, sua loja não vai abrir.”

Em busca de conhecimento

O início, em 1997, não foi fácil. Cleusa não tinha conhecimento sobre o mercado, o público-alvo, como organizar o financeiro, o que era o franchising. “A primeira vez que me entendi como empreendedora foi na fila do banco, quando me chamaram dessa forma”, lembra ela, que aconselha futuros empreendedores a irem atrás de conhecimento.

“Hoje tem muito conteúdo na internet. E com um celular na mão, você pode divulgar e vender o seu produto de casa. Além disso, há vários projetos voltados ao empreendedorismo e empresas que investem em quem quer começar. Na minha época, isso não existia.”

Após conquistar certa calmaria após 20 anos de trajetória, Cleusa conta ter dado um passo ousado (ou “quase errado”, em suas palavras) em 2017. Em um terreno próprio em Boituva (SP), ela abriu uma fábrica de salgados com 1,3 mil m², para produzir cerca de 50 mil itens por dia. A ideia era criar uma linha com 30 sabores para abastecer todas as lojas Sodiê do País. 

A ideia deu certo, mas só há seis meses não dá prejuízo. “Eu montei uma estrutura de indústria e coloquei nela um processo artesanal porque quero que esse produto chegue na Sodiê com a mesma qualidade dos bolos. Mas eu não tinha nenhuma experiência com indústria”, revela.

Depois de se arrepender várias vezes, Cleusa acha que o passo foi necessário para fortalecer seu maior projeto atualmente: a sucessão da presidência para seu filho, Diego Rabaneda. “Deixei toda a gestão da fábrica de salgados na mão dele. É um processo de sucessão que ele quer que leve dez anos e eu cinco. Já se passaram dois.”

A sustentabilidade de uma empresa familiar para além do criador é algo comum no empreendedorismo, mas não é nada simples. “Às vezes temos herdeiros que não gostam e não querem participar. O conselho que eu dou é que, quando você tiver um filho, leve-o para a empresa muitos anos antes, décadas. É um processo demorado.”

Cleusa ainda ressalta que é preciso delegar e acreditar que a empresa pode sobreviver sem o criador. “Os próprios franqueados cobram essa sucessão. Quem investe em um negócio pensa nele a longo prazo. Qual credibilidade seu negócio terá se os franqueados não veem a continuidade dele lá na frente, sem você?”

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Aceleradoras ajudam empreendedores negros a driblar gargalo de investimentos

Além de canalizar dinheiro e dar capacitação, entidades como Afrohub e BlackRocks dão mais visibilidade a negócios e fazem a ponte com o mercado tradicional

Julliana Martins e Pablo Santana, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 06h08

ESPECIAL PARA O ESTADO

Na tentativa de alavancar os seus negócios, empreendedores negros têm esbarrado na burocracia para captar investimentos e ter acesso ao crédito pelo sistema financeiro tradicional. Para preencher essa lacuna, instituições voltadas ao chamado black business e a empreendimentos de impacto social – como Afrohub e Anip, fundadas no ano passado, além de BlackRocks, de 2017, e Vale do Dendê, de 2016 – têm programas de aceleração que fomentam o crescimento desses negócios.

A pesquisa Empreendedorismo Negro divulgada pelo Itaú Unibanco em fevereiro revela que a baixa familiaridade com finanças e o tempo escasso para a realização de cursos de formação são problemas comuns a micro e pequenos empreendedores em geral. No caso dos negros, alguns obstáculos são particulares, como dificuldades maiores para se conseguir linha de crédito. As desigualdades no País fazem com que o negro já largue em desvantagem: enquanto a renda média mensal da população negra é de R$ 1.686, brancos recebem R$ 2.982, de acordo com o IBGE.

O dono da produtora audiovisual Terra Preta Produções, Rodrigo Portela, é um retrato das portas fechadas ao nicho. Mesmo sendo cliente de uma instituição bancária há mais de cinco anos e comprovando um plano de negócios e o histórico de faturamento de sua empresa, ele diz ter tido pedido de crédito negado em outubro de 2018.

“A ideia era fazer um upgrade nos equipamentos, mas dos R$ 18 mil solicitados só liberaram R$ 3 mil. Assim, a gente não consegue acompanhar as atualizações dos equipamentos e isso atrapalha na hora de competir com as outras produtoras.”

Diante desse cenário, instituições criadas por empreendedores negros investem no fortalecimento do ambiente de negócios para os afroempreendedores. É o caso do Afrohub, uma aceleradora criada pelos empreendimentos Feira Preta, Diáspora.Black, PretaHub e Afro Business, com o apoio do Facebook, e que desde junho de 2018 oferece capacitação técnica e networking para a população negra que está empreendendo.

Em um ano, o programa já acelerou 10 negócios, entre eles Makeda Cosméticos, Levinho Fit e Conta Pra Ela, e capacitou mais de 1.200 afroempreendedores em cinco Estados. Em sua segunda edição, que teve início neste mês de junho, a expectativa é alcançar mais de 3.000 empresários em oito Estados, a quem serão destinados R$ 300 mil, investimento fruto da parceria com o Facebook.

“Muitas vezes os negócios são voltados para identidade e cultura, e o responsável por aprovar o crédito financeiro não consegue enxergar potencialidade. O pensamento é que o negócio pode não ter escala. Mas, na verdade, se a gente considerar a movimentação financeira da população negra, esse argumento cai por terra”, pontua a cofundadora e presidente da Afro Business, Fernanda Ribeiro.

Foi na primeira turma do Afrohub que Rodrigo Portela viu a chance de alavancar seu negócio. “Eu fiz uma primeira tentativa de aceleração em 2016 no Sebrae e, das 18 pessoas que tinham lá, eu era o único negro. Os conflitos que eu tinha eles não tinham. Enquanto todos podiam se ausentar do empreendimento por uma semana, eu não podia porque, apesar de ser o dono, ainda sou mão de obra”, conta ele. “Quando você é negro e da periferia, você não começa do zero. Começa do negativo.”

Além do dinheiro da aceleração, fazer a ponte entre o empreendedor e potenciais clientes também está na agenda. Para Maitê Lourenço, fundadora e CEO da BlackRocks, as soluções das lideranças negras precisam ter mais visibilidade para ajudar a mudar o paradigma.

“Nós encaminhamos os empreendimentos tanto para serem fornecedores das grandes empresas como também para participar de alguma atividade. Já fizemos eventos na Oracle, na Microsoft e no Facebook. A ideia é trazer essa população para ocupar os espaços e começar a pertencer a eles também”, diz Maitê, que fundou a entidade em 2017 para ajudar a fomentar o ecossistema negro em torno dos temas de inovação e tecnologia. Agora, a empresa se prepara para criar um fundo de investimento, com dinheiro que deve vir de investidores e que deve ser lançado no próximo ano.

Além da cor da pele

Além das entidades focadas no afroempreendedorismo, iniciativas voltadas para negócios de impacto social e nas periferias também têm peso no ecossistema, caso da Vale do Dendê e da Artemisia.

A holding baiana Vale do Dendê foi criada em 2016 para impulsionar projetos de inovação com foco na economia criativa em Salvador - capital mais negra do País. Para fazer uma ponte com o capital financeiro, a aceleradora adaptou a metodologia aplicada por empresas do Vale do Silício (EUA).

“A cultura de investimento anjo ainda é incipiente no Brasil e, na comunidade negra, é inexistente. A gente tenta furar essa bolha e promover encontros entre pessoas que investem nesse ecossistema. Enquanto esse segmento for negligenciado no País, vamos permanecer estagnados porque só é possível crescer através da inclusão”, diz o cofundador Paulo Rogério.

O primeiro edital da Vale do Dendê, de 2017, beneficiou 30 startups que desenvolvem produtos e soluções tecnológicas de baixo custo e alto impacto socioeconômico. O projeto conta com o patrocínio da Fundação Itaú Social e da Fundação Alphaville e funciona oferecendo ferramentas para que os empreendedores reconheçam seu próprio potencial e possam crescer enquanto negócio.

Atuando nesse segmento há 15 anos, a Artemisia ajuda a criar ou impulsionar negócios que possam solucionar problemas sociais por meio de três programas de incentivo, entre eles a Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a produtora A Banca, fundada por Marcelo Rocha, morador do Capão Redondo.

Foi por meio da Anip que Michelle Fernandes, também moradora do Capão, conseguiu apoio para o seu negócio, a Boutique de Krioula. O negócio começou informalmente em 2012, quando Michelle começou a dar dicas para amigas sobre como usar turbantes no cabelo. Cinco anos depois, a Anip potencializou o negócio.

“A Anip foi a única a reconhecer que na periferia há empreendedores com potencial. A gente quer participar desses programas, mas às vezes não é possível se afastar do negócio porque cada minuto fora é um minuto que a gente deixa de ganhar dinheiro”, diz ela.

Segundo o gerente de seleção e apoio a negócios da Artemisia, Felipe Alves, o papel deles é identificar esses gargalos e apostar na criação de pontes. “Empreender nesse ecossistema de startups ainda é um privilégio, mas a gente tem criado iniciativas e buscado trazer cada vez mais a diversidade para os nossos programas, envolvendo lugares socialmente excluídos do universo de negócios.”

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Empreendedores apontam barreiras a negócios negros além do dinheiro

Na área da capacitação, iniciativas buscam criar um ambiente de permanência sustentável dos profissionais negros no mercado de trabalho e diminuir a desigualdade racial

Julliana Martins e Pablo Santana, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 06h07

ESPECIAL PARA O ESTADO

A visibilidade do ecossistema negro ajuda na autoestima dos empreendedores negros e, a partir do momento em que eles começam a se ver como empresários, conseguem alavancar os resultados de maneira mais efetiva, analisa o cofundador da Diáspora.Black, Antonio Pita.

Foi esse empoderamento que fez com que a Diáspora.Black, plataforma de hospedagens para negros similar ao Airbnb, saísse da posição de acelerada e passasse a apoiar outros empreendimentos, como parte do Afrohub.

“Entendemos que o próximo passo da Diáspora é o fortalecimento do espírito financeiro dentro da comunidade e esse é o mote do black money, que traz diferentes iniciativas atuando para potencializar essa troca econômica”, diz Pita, segundo quem criar ambições nos empreendedores faz com que eles entendam a potência dos seus negócios e busquem novos mercados.

Fundadora e CEO da BlackRocks, Maitê Lourenço concorda que iniciativas como essas ajudam a quebrar uma barreira de desigualdade que vai além do dinheiro. “O acesso ao financiamento esbarra no racismo. Esse crédito está disponível, ele existe e é oferecido para qualquer pessoa, mas a população negra passa pelo crivo do racismo. Como consequência, sempre vão ver os nossos negócios como pequenos, sendo que a gente tem um potencial muito grande.”

Na área da capacitação, iniciativas buscam criar um ambiente de permanência sustentável dos profissionais negros no mercado de trabalho e diminuir a desigualdade racial. O Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) desenvolve o programa “Sim à Igualdade Racial” oferecendo bolsas de estudos de inglês em parceria com a Cultura Inglesa, no Rio de Janeiro, e com o CelLep, em São Paulo, e ainda bolsas de MBA e especialização em parceria com a Fundação Dom Cabral.

“A educação é peça-chave na transformação da sociedade, mas precisa estar conectada com o mercado de trabalho. Para tornar o sistema mais saudável e gerir melhor os recursos, a população negra precisa ser considerada enquanto potência de mercado”, afirma a diretora executiva, Luana Génot. “Não queremos deixar mais talentos negros no esquecimento porque todos saímos perdendo.”

Inscrições abertas

A BlackRocks realiza inscrições até 30 de junho para o IdeiAção Tech, workshop gratuito voltado a afroempreendedores que visa agregar valor aos negócios com o uso de tecnologias como chatbot e inteligência artificial. Será realizado nos dias 13 e 27 de julho, na sede da IBM em São Paulo.

Estão abertas também as inscrições para a primeira edição do “Afrolab para Elas” em Belo Horizonte (MG), realizado de 5 a 10 de julho pelo Instituto Feira Preta.

Em Salvador, a segunda edição do programa de aceleração da Vale do Dendê está com inscrições abertas até 15 de julho. Com foco no mercado de gastronomia, o edital é destinado a bares e restaurantes que atuam na capital baiana.

Já a Afrohub realiza até dezembro 20 workshops gratuitos voltados ao afroempreendedorismo, sendo quatro em São Paulo e 16 distribuídos entre Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Belém.

Os inscritos participarão de painéis voltados para a decodificação de ferramentas e estratégias para o crescimento dos negócios e networking.

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Falta de incentivos vão na contramão da potência da comunidade negra

Em artigo, a fundadora do Movimento Black Money, Nina Silva, fala sobre como a sociedade pode subverter a lógica de barreiras ao empreendedorismo negro

Nina Silva, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 06h06

ESPECIAL PARA O ESTADO *

Negros, vocês estão por sua própria conta, já dizia o sulafricano Steve Biko em meados do século 20. É de conhecimento de todos que o Brasil é o segundo país no mundo em população afrodescendente (cerca de 54%, segundo o IBGE) e também tem entre os negros a maioria microempreendedora (56%). Negros são os que mais abrem negócios em um país que marginaliza há 400 anos essa parcela da população, que hoje corresponde a 66% dos desempregados e vê no empreendedorismo a única maneira de sustentabilidade. 

Mas como essa parcela majoritária conseguirá subverter a falta de acesso a crédito, educação financeira e ao mercado de investimentos? Como transgredir a barreira da subsistência e alavancar receita com melhor amparo para a gestão de seus negócios?

Precisaríamos de artistas e empresários como JayZ, que no último mês investiu US$ 1 milhão em uma empresa de biscoitos veganos de donos negros, a Partake Foods. Na lista dos atuais bilionários dos Estados Unidos, JayZ investe em negócios de grande potencialidade, fomentando o black money, ou seja, a circulação de riquezas dentro da comunidade negra de maneira autônoma.

No Brasil, negócios visam otimizar o ecossistema empreendedor negro, como a aceleradora do Vale do Dendê, que atua no eixo Salvador-São Paulo e é focada em aceleração de empreendimentos de impactos social e econômico, não sendo exclusiva para a população afrodescendente, mas atendendo uma maioria de negócios geridos por pessoas negras. 

Já a BlackRocks é uma pré-aceleradora que estimula empreendimentos em estágio inicial a se tornarem startups, concedendo acesso a ferramentas de mercado para a aceleração de seus processos. Com isso, vem trazendo empresas de tecnologia para o ecossistema. 

O Movimento Black Money, que eu presido, foi fundado com o objetivo de otimizar o desenvolvimento do ecossistema afroempreendedor a partir de comunicação, networking, educação e plataformas digitais. O objetivo são trocas comerciais e financeiras entre empresários e empreendedores afrodescendentes e consumidores negros e não negros.

Além disso, o hub produz conteúdos e cursos para a população negra nas áreas de marketing, vendas, gestão, finanças e tecnologia, com cerca de 100 mil pessoas impactadas direta e indiretamente em dois anos.

O que essas iniciativas têm em comum? Não possuem capital de investidor anjo e mantêm seus negócios a partir de propósito que permeia oportunidades. Negros movimentaram R$ 1,7 trilhão na economia em 2017 e 29% deles têm um empreendimento, mas na contramão desses números eles possuem o crédito três vezes mais negado que empreendimentos não negros. A maioria das startups no mundo que recebem aporte são de homens brancos ou asiáticos. 

Não é coincidência que empresas africanas sofrem hoje com a falta de investimentos a nível global. Epic Games, Juul Labs e Uber atraíram US$ 1,2 bilhão no ano passado e o que possuem em comum? Têm base nos Estados Unidos, são chefiadas por homens brancos e juntas atraíram mais do que o dobro do montante de capital de risco investido na África em 2017. 

Mesmo que as venture capital com sede ou foco na África tenham tido um crescimento substancial nos últimos três anos, estes fundos não chegam para startups locais, negócios em estágios menos maduros. Empreendimentos negros no Brasil e na África precisam de investidores anjos e de investimentos próprios da comunidade negra. 

Cada vez mais o consumo intencional intracomunidade e o equity crowdfunding, que oferece oportunidades inéditas de investimento online, são saídas para a autonomia desses novos negócios. Há uma demanda não suportada pelos mecanismos atuais de fomento à economia, que deixam à mercê do mercado a maioria da população empreendedora. Isso é prejudicial também para os consumidores que não se reconhecem no mercado tradicional, além de manter o sistema privilegiado para pessoas não negras fortalecendo as desigualdades que tanto atrasam a economia brasileira e a de outros países.

É preciso dar visibilidade e instrumentalizar essas empresas ou teremos que aguardar outros JayZs nascerem em toda a diáspora africana e na África para tentarmos mudar a regulação marginal do sistema. Não é por acaso que as aceleradoras que assistem negócios pretos são de donos pretos, e quem as apoiam? Precisamos quebrar o ciclo de escassez direcionando nossos próprios investimentos, por nossa própria conta! Ubuntu.

* Nina Silva é executiva de TI e CEO do Movimento Black Money. Foi eleita em 2018 um dos 100 afrodescendentes mais influentes do mundo com menos de 40 anos pelo Mipad (Most Influential People of African Descent) e reconhecida pela Forbes como uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil em 2019.

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