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Lágrimas empreendedoras: o fim de uma confeitaria após 55 anos

Empresário encontrou o momento certo de parar para cuidar da própria saúde

Luiz Alexandre Souza Ventura, Especial para o Estado,

12 de fevereiro de 2015 | 07h00

O empresário Carlos Ernesto Campos Witt, de 70 anos, precisa interromper a conversa por alguns segundos para controlar as lágrimas. Pede desculpas. E afirma que pode haver mais uma ou duas paradas pelo mesmo motivo. Mas não se trata de tristeza. Na verdade, a emoção toma conta do comerciante, agora aposentado, quando ele busca palavras para explicar porque decidiu fechar sua doceria, a Confeitaria Viena, uma das mais tradicionais de Santos, no litoral sul de São Paulo, após 55 anos ininterruptos de funcionamento.

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“Desde 1999, quando comprei a parte do meu sócio e me tornei o único proprietário, chego todos os dias às 7h para a abrir as portas e vou embora às 23h, após fechá-las. Gosto de ler, de velejar, de viajar, mas não consigo mais fazer nada disso”, diz Witt.

A decisão foi tomada no último sábado e comunicada aos 12 funcionários na terça-feira. “Pedi um tempo para fazer o acerto final. E, então, todos me abraçaram”, comenta, fazendo mais uma pausa para se recompor e controlar novamente as lágrimas. “Meus filhos já estão encaminhados e eu preciso cuidar da saúde. É hora de viver”, afirma.

Sobre o "segredo" para manter o pequeno negócio com sucesso desde a fundação, ele reflete: “Essa é uma pergunta difícil. Sou partidário do atendimento pessoal nas pequenas lojas. Temos fregueses que se tornaram clientes. E depois, amigos. Todos sabem que sou o 'Ernesto, da Viena'. Ando pela cidade e todos me cumprimentam”.

Para as novas gerações que apostam no empreendedorismo, ele sugere a perseverança. “Você precisa acreditar no planejamento da empresa. O mundo é dos jovens. São eles que precisam abrir os caminhos, quebrar as pedras, dar o primeiro passo.”

O fundamental para manter a clientela e garantir o avanço da confeitaria, na avaliação do empresário, foi manter as receitas do doces intocáveis. “Muitos querem atualizar, mas isso afasta o cliente que gosta do produto original. Há clientes que comeram nosso bolo de frutas (um dos maiores sucessos da história da Viena) em todos os eventos importantes da família, passando por batizados, primeira comunhão, casamentos e aniversários.”

Fundada em 10 de janeiro de 1960 por dois alemães, Helmuth Witt (pai de Ernesto) e Frederico Jobst, e pelo austríaco Hans Korfeliners, a Confeitaria Viena nunca fez parte de nenhuma rede (apesar de muitos pensarem o contrário ao ver o nome) e passou com louvor por todas as crises do País em mais de cinco décadas, sempre no mesmo endereço, na Avenida Ana Costa, nº 514, no bairro do Gonzaga. “Durante 25 anos, mantivemos fábrica e armazém em outro bairro, no Campo Grande. Na época da inflação galopante, quando havia anúncio de aumento do preço do açúcar, eu pegava a Kombi e corria nos mercados para comprar quanto fosse possível. Cheguei a manter duas toneladas guardadas no estoque. Hoje não é necessário fazer isso, você compra somente o que vai usar na semana”, diz Witt.

Sua estreia na empresa foi aos 14 anos, três dias após a abertura. “Meu pai e os dois sócios abriram as portas pela primeira vez em uma sexta-feira. Cortaram a fita na entrada e celebraram. Quando chegou em casa, ele passou mal, ficou na cama, e morreu na segunda-feira, por causa de um aneurisma abdominal. Tinha 54 anos. Eu fiquei 55 anos com a confeitaria, um a mais do que ele teve de vida. Então, para mim, é o encerramento de um ciclo”, conclui Carlos Ernesto Witt, chorando mais uma vez.

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