Nilton Fukuda|Estadão
  Nilton Fukuda|Estadão

Jovens deixam o Google para empreender com o dinheiro dos outros

Estudantes de cursos de MBAs, um tipo de mestrado em administração, convencem investidores a apostar milhões de dólares em seus talentos para gerir pequenas e médias empresas

Josette Goulart, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2017 | 07h00

A rua Tatini, 42, fincada no meio do bairro do Ipiranga, em São Paulo, abriga desde janeiro deste ano dois novos empresários do ramo da logística. André Freire e Marcelo Novaes saíram de um MBA em Stanford, uma universidade americana considerada uma das melhores do mundo, e com alguns milhões de dólares de 16 investidores compraram a IS Log Services, que presta serviços de malote. O valor ao certo eles não revelam, mas eles  já estreiam no mundo dos negócios com uma empresa dona de uma frota de 160 veículos e filiais em 24 Estados brasileiros.

Os dois que agora se aventuram pelo bairro do Ipiranga deixaram para trás carreiras em imponentes prédios da Avenida Faria Lima em São Paulo, um dos endereços paulistanos mais caros do País e que abriga as maiores instituições financeiras do país e do mundo especializadas em investimentos e fusões e aquisições. Se você não conhece a rua Tatini no Ipiranga ou a Faria Lima, é só clicar para ter a visualização do Google Street View feita nos dois endereços consegue mostrar claramente a diferença das duas  vidas de Freire e Novaes. Como o próprio Freire diz a vida agora é outra coisa, basta ver que saíram da Faria Lima para a Tatini. Ambos começaram suas carreiras justamente no Google, que fica na altura do 3.744 da Faria Lima.

No Google, Freire ficou por sete anos, mas quando viu que se especializou demais em publicidade online quis mudar. Já Novaes ficou apenas um ano e depois se lançou como gestor de fundos em instituições como a XP Investimentos e a Guepardo Investimentos, mas que também mantém seus endereços na Faria Lima. Foi, no entanto, no MBA em Stanford que se encontraram para montar um Search Fund, um fundo buscador de empresas.


MAS COMO FUNCIONA UM SEARCH FUND?

A proposta do Search Fund é de que jovens promissores egressos de MBAs de renome busquem investidores de todo mundo interessados a apostar dinheiro em seus talentos individuais como empreendedores. Quando os encontram, começam a busca por negócios. No Brasil, já são cinco os Search Fund que vasculham o País todo em busca de pequenas empresas de sucesso para que possam comprar e transformá-las em empreendimentos capazes de dar um retorno de 30% ao ano aos seus investidores quando finalmente daqui uns anos for vendida.

A busca por uma empresa não é tarefa fácil porque estes novos empreendedores só podem dar um tiro e precisa ser certeiro. Paulo Landim, um ex-aluno de um MBA em Harvard, também montou um search fund, de nome Colibri Investimentos, e em um ano tentou contato com mais de 400 empresas, falou efetivamente com mais de 150 empresários, viajou por 19 estados e fechou um contrato de confidencialidade, em que estuda a empresa que vai comprar, com 60 delas.

A professora Andrea Minardi, do Insper, explica que o fundo buscador funciona da seguinte forma: em média, nos primeiros dois anos, os investidores colocam cerca de US$ 450 mil dólares no fundo que servirá para manter o salário desse empreendedor e seus custos para buscar uma empresa ideal. Quando ele encontra essa empresa, os investidores precisam concordar com o investimento e daí colocam mais dinheiro no fundo, algo em torno de US$ 3 milhões a US$ 15 milhões para que então seja feita a aquisição. É comum que muitos desses investidores acabem atuando como mentores desses novos empreendedores. Uma das formas de se fazer isso é constituindo um conselho de administração para essas pequenas e médias empresas que vão ser adquiridas, algo totalmente inusual para empresas deste porte.

Depois de adquirida a empresa, os donos dos fundos passam a se dedicar integralmente a administrar a nova companhia. Nos Estados Unidos, onde o modelo se consolidou é comum que entre e cinco e sete anos o negócio seja vendido para que os investidores possam realizar seus ganhos com o investimento. Neste momento, a depender do grau de sucesso da empresa, o dono do fundo pode ganhar até 25% da empresa e se tornar ele mesmo um milionário.

Freire e Novaes, do início da reportagem, são um dos cinco donos de search fund no Brasil e os únicos até agora que já compraram uma empresa. Prospectaram mais de mil negócios pelo País, segundo contam, sempre com foco no setor de serviços. Encontraram a empresa ideal por meio de uma boutique de fusões e aquisições. Ao sair da Faria Lima e chegarem ao “mundo real” do bairro do Ipiranga, ou seja, o mundo de empreendedor, se depararam já com uma das tarefas mais difíceis: o de priorizar as decisões a tomar. Novaes conta que neste novo mundo todo tipo de demanda chega para os donos da empresa e a grande dificuldade é saber priorizar o tempo.

ESTÁ INTERESSADO EM VENDER SUA EMRPESA PARA UM SEARCH FUND?

Não é fácil se encaixar no perfil traçado por estes buscadores de empresas. Uma empresa preferencialmente do setor de serviços que tenha como cliente outras empresas, que sejam de pequeno a médio porte com faturamentos anuais que variem de R$ 10 milhões a R$ 120 milhões, que tenham boa margem de retorno, forte geração de caixa, lucro nos últimos anos, mercado consolidado e com potencial de crescimento. Ou seja, a empresa que os Search funds buscam é uma companhia estável. O nível de complexidade do negócio tem que ser o menor possível. 

::: Conheça a história do empreendedor milionário que vendeu sua empresa para um Fundo Buscador

 

Para os investidores, em sua maioria internacionais, essas características são essenciais para que topem colocar dinheiro no negócio. E para os search funds essa estabilidade facilita a transição para o mundo do empreendedorismo, em que basicamente estreiam ao comprar uma empresa. Resumindo: eles nunca foram donos de empresas. O professor Newton Campos, da FGV, diz que normalmente as empresas que possuem esse perfil são as familiares que não têm um plano de sucessão definido ou aquelas empresas que não têm condições de crescer por falta de capital. 

 

João Lima junto com  Rene Almeida é hoje um dos cinco search funds em atuação no Brasil. Eles se conheceram em um MBA na Espanha, pela IE Business School onde cursaram uma disciplina sobre o tema e resolveram buscar investidores para iniciar sua empreitada. Juntos eles fundaram a 220 Capital e recém começaram a sua busca por empresas no Brasil. De acordo com Lima, os setores mais procurados são os de logística, educação, saúde, segurança e monitoramento. O setor de indústria e varejo são deixados totalmente de lado em função de serem mais complexos. Não há limite de geografia e as empresas podem estar em qualquer parte do País, mas o eixo Sudeste ainda é o que mais interessa aos buscadores de empresas. 

 

A busca começa de forma simples por meio da internet ou de softwares de busca de empresas. Paulo Landim, que fundou a Colibri Investimentos, e já está na reta final para comprar sua empresa, diz que o Google é uma excelente ferramenta para começar o trabalho. A partir daí, a pesquisa avança com milhares de ligações, conversas com associações de setor, contato com as empresas e busca de dados públicos. Outra parte do trabalho também se dá com a ajuda de parceiros, normalmente boutiques que assessoram fusões e aquisições ou advogados e bancos de pequeno porte que estruturam este tipo de operação.  

 

Como dito anteriormente, são cinco hoje os fundos buscadores no Brasil. Se você está interessado em vender sua empresa, os dois fundos que estão ainda em fase inicial e portanto mais interessados em novos contatos são o 220 Capital  e a Garos Capital.  Os outros dois fundos que ainda não fecharam a compra de empresas, mas já estão em fases avançadas de negociação, são o Colibri Investimentos  e a Meissa Capital. Tem ainda o Taqia Investimentos, mas este já está fechado para novos negócios. 

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