Vanessa Villalta
Vanessa Villalta

Isopor de delivery e fralda com defeito ilustram potência da economia circular

Parcerias entre empresas ajudam a reduzir impacto socioambiental e promovem crescimento de quem investe em circularidade; livro reúne 11 cases brasileiros de sustentabilidade

Bruna Klingspiegel, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2022 | 05h03

Com a sustentabilidade sendo cada vez mais valorizada nas agendas corporativas, as parcerias têm se tornado facilitadoras na implementação da circularidade nas empresas. As relações B2B (business-to-business) impulsionam a transição para um novo modelo econômico e possibilitam o desenvolvimento sustentável

A premissa da economia circular é simples. Os resíduos se transformam em matéria-prima e o descarte não é mais o destino final dos produtos. Ao optar por esse modelo, as empresas podem se reposicionar no mercado e explorar novos nichos.

“A economia circular traz um grande diferencial competitivo para as empresas. O diferencial de custo e qualidade não é mais ganho de competitividade, hoje a gente tem que trabalhar uma proposta de valor. Ser eficiente não é mais suficiente”, afirma Beatriz Luz, líder da Exchange 4 Change Brasil, organização especializada em impulsionar a economia circular nas empresas.

Beatriz também é a organizadora do livro Economia Circular: Debate Global, Aprendizado Brasileiro, que será lançado pela Bambual Editora em São Paulo no próximo dia 17 (leia mais abaixo). A obra reúne artigos de 32 especialistas, incluindo autoridades globais no tema, e elenca 11 negócios brasileiros da economia circular.

Os modelos que já nascem com esse DNA circular costumam ter uma certa vantagem em comparação aos demais empreendimentos. Sair da economia linear e ingressar nesse novo mundo exige uma mudança sistêmica na forma como a empresa pensa, produz, consome e se comporta, explica Luz.

Um dos exemplos é a Santa Luzia, indústria de acabamentos fundada há 60 anos, que utilizou por muito tempo a madeira como principal matéria-prima. Na década de 1990, enquanto o mercado externo demandava madeira certificada, a cadeia produtiva brasileira não estava preparada para atender às necessidades do comércio internacional. 

“A gente chegou à conclusão de que o poliestireno era a resina ideal para fabricar as molduras de plástico e fazer essa substituição”, conta Francisco Pizzetti May, gerente da Santa Luzia, que hoje fatura em torno de R$ 200 milhões por ano.

A empresa começou comprando o material virgem, direto do distribuidor, mas a equação econômica não fechava. O valor de produção era maior do que o seu valor de venda. Em uma segunda tentativa, a empresa decidiu trabalhar com o produto reciclado. Ele tinha um custo menor, mas a qualidade da matéria-prima da época era ruim e a quantidade de material que eles poderiam ofertar era muito baixa.

Para solucionar o problema, a empresa decidiu verticalizar o processo. Desenvolveram uma tecnologia que substituiu quase integralmente a madeira pelo isopor reciclado no seu processo de produção. Um dos principais obstáculos na utilização do poliestireno expandido é a logística de transporte do material, já que ele é composto por 98% de ar e apenas 2% de matéria-prima.

As parcerias com as cooperativas de reciclagem surgiram como facilitadoras do processo de obtenção do produto compactado. Os parceiros recebem máquinas desgaseificadoras e prensas e transformam todo o material recolhido em uma massa densa com bastante peso, o que viabiliza transportá-lo por longas distâncias.

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Socioambiental de Plásticos, apenas 34,5% do isopor consumido no Brasil é reciclado, ante uma produção de aproximadamente 100 mil toneladas por ano.

“O isopor existe em abundância nas cooperativas, seja de bandejas de presunto ou embalagens de delivery, por exemplo. Isso se tornou uma oportunidade para eles como uma nova fonte de renda e também para nós que tínhamos a necessidade desse material”, conclui Pizzetti.

Um novo olhar para a fralda rejeitada

O objetivo da RCR Ambiental, também citada no livro, era o mesmo: buscar um destino mais sustentável para uma quantidade enorme de resíduos - fraldas pré-consumo com defeitos de fabricação. O processo produtivo dessas fraldas gera uma quantidade enorme de sobras de produção que, até então, eram aterradas.

As formas de descarte precisavam evoluir e, para isso, a empresa foi em busca de uma solução para reaproveitar os produtos e evitar a extração de outros recursos da natureza ou produzir novas matérias-primas.

“De aterrar nós fomos atrás de uma solução para utilizar o valor energético dessa fralda para fazer cimento. Foi um passo muito importante, mas, com a evolução do conceito de economia circular, nossa equipe de pesquisa continuou fazendo diversas tentativas com máquinas e investindo um caminhão de dinheiro até a gente chegar a uma solução para segregar os componentes”, conta André Navarro, diretor da RCR Ambiental e integrante do HUB Brasil de Economia Circular.

Com os elementos separados, o passo seguinte foi buscar alianças estratégicas. O  reprocessamento dessas sobras possibilitou a obtenção de um gel superabsorvente e começou a ser utilizado pela Petix na produção de tapetes higiênicos para pets.

“A gente começou a desenvolver juntos as melhorias que precisavam ser feitas, como as novas gerações de máquinas para fazer tudo isso em larga escala”, explica Navarro. O produto com tecnologia exclusiva virou referência nacional e é exportado para países da América Latina e da Europa, além de possuir operações nos Estados Unidos, por meio da marca WizSmart.

Da casca do arroz para sílica sustentável

O Rio Grande do Sul é o maior produtor de arroz do Brasil e responde por cerca de 70% dos grãos processados no País. Proporcionalmente, o Estado é também responsável pelos resíduos que o beneficiamento do grão gera - só a casca do arroz, que é descartada, corresponde a cerca de 20% do volume total.

Como a decomposição da casca é ambientalmente nociva por emitir grande quantidade de metano e dióxido de carbono, uma das alternativas é a geração de energia por meio da queima das cascas. Mas o que fazer com as cinzas?

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Para atender a essa demanda, a Oryzasil foi pensada para ter uma matriz limpa e gerar a primeira sílica natural do País com os resíduos da queima. Esse modelo de negócio nasceu para ser 100% circular. A casca do arroz é queimada para gerar energia, as cinzas são convertidas em sílica e todos os subprodutos do processo são reutilizados, explica Paulo Garbellotto, diretor da Oryzasil.

A sílica é uma matéria-prima utilizada em diversas produções. A indústria de pneus, por exemplo, utiliza o componente para dar mais eficiência e diminuir o consumo de energia e combustível dos veículos. Outro exemplo é o mercado de calçados. No começo de 2019, a Veja Shoes, marca francesa de tênis sustentáveis, propôs uma parceria com a produtora de sílica verde. Da atuação colaborativa nasceu uma sola de tênis produzida com 96,25% de insumos vegetais.

“Com as parcerias, a gente consegue enxergar o futuro. Estamos migrando para uma química de menor impacto ambiental. Acreditamos que esse nosso conceito, quando associado a empresas que pensam da mesma forma que nós, possibilita uma longa jornada de relação comercial adiante”, conclui Garbellotto.

Como fazer em sua empresa

O maior desafio para colocar a economia circular em prática e encontrar soluções sustentáveis é estar aberto ao novo, diz Beatriz Luz. Essa é a diferença, pontua ela, entre uma construção de solução circular para uma solução linear. 

“Eu tenho um problema. Eu chamo o fornecedor e ele tenta resolver. Isso não é uma parceria. Para fazer a economia circular funcionar, você precisa que os dois ou três elos da cadeia pensem em conjunto na solução e tenham abertura para poder falar.”

Para as empresas que querem apostar em modelos de negócios de economia circular, a especialista sugere expandir as fronteiras de análise das soluções para trazer impactos significativos e criar um diferencial competitivo.

“Aquela solução de economia simples não pode ser um ativo de marketing. Então, saiba fazer perguntas além da fronteira do problema, tenha visão sistêmica e seja sempre crítico. Existem muitas coisas por trás da primeira resposta”, completa.

Livro: Economia Circular: Debate Global, Aprendizado Brasileiro

Organizadora: Beatriz Luz 

Editora: Bambual Editora (368 págs.)

Valor: R$ 95

  • Lançamento em São Paulo

Data: 17/2 (quinta-feira), a partir das 18h na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509)

  • Lançamento no Rio de Janeiro

Data: 23/2 (quarta-feira), a partir das 19h na Livraria da Travessa - Shopping Leblon (Av. Afrânio de Melo Franco, 290)

* Estagiária sob a supervisão da editora de Carreira e Empreendedorismo, Ana Paula Boni

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