Tiago Queiroz/Estadão
Felipe Iszlaji criou o primeiro corretor de estilo para língua portuguesa, batizado de Clarice.ai. O recurso tecnológico ajuda a escrever melhor. Tiago Queiroz/Estadão

Inteligência artificial e plataforma de áudio fortalecem ramo editorial

Ferramenta Clarice.ai usa inteligência artificial para ajudar a aperfeiçoar a escrita; já audiobook como alternativa a livro impresso faz negócio quadruplicar na pandemia

Nathalia Molina, Especial para o Estado

24 de fevereiro de 2021 | 05h00

Doutor em Linguística Computacional pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pós-doutor em Computação Criativa pela Universidade de Coimbra (Portugal), Felipe Iszlaji lançou em dezembro de 2020 o primeiro corretor de estilo em português, o Clarice.ai. Batizada em homenagem à escritora Clarice Lispector, a ferramenta combina inteligência artificial e machine learning para aperfeiçoar a escrita.

“Sempre atuei na interface do digital com a linguagem. Quando trabalhei com marketing para a internet, lia textos e vi excesso de advérbio, palavras gramaticais mais do que semânticas. Não existia uma tecnologia que ajudasse redatores e editores”, conta.

Redores e editores são, aliás, o maior público do Clarice.ai, somando hoje 1,3 mil usuários; em seguida vêm os novos escritores. A assinatura custa R$ 15 por mês no plano anual (ou R$ 19,90 no mensal), e a integração com Google Docs está em teste. Um plano para empresas será lançado em breve; para uma equipe de dez pessoas, o valor mesal será equivalente a R$ 16,90 por membro.

Iszlaji atuou como consultor do Museu da Língua Portuguesa e do Google para a ferramenta que converte voz em escrita e vice-versa. Também já tinha feito o Dicionário Criativo, para ajudar escritores, jornalistas, publicitários, roteiristas e compositores. 

Com Lucas Spreng, especialista em sistemas para internet, lançou o Clarice.ai, com investimento inicial de cerca de R$ 250 mil, entre recursos de Love Money e do programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Pipe/ Fapesp). 

Agora tem mais R$ 700 mil do mesmo programa para usar até 2022. “Linguistas e computeiros estão trabalhando juntos para tornar o processamento de linguagem cada vez mais natural”, diz.

Livro por voz

Outro serviço pouco conhecido pelos autores independentes é a possibilidade de alcançar as pessoas com audiolivros. “Temos acordos com editoras e também recebemos obras na página autores.tocalivros.com”, diz Ricardo Camps, sócio da Tocalivros. Criada no fim de 2014, a plataforma tem quase 2,4 mil audiobooks e, desde dezembro, cerca de 15 mil ebooks.

Formado em administração pública, Camps conta que passou a ouvir muito audiolivro uns três anos antes, por indicação do irmão e atual sócio, Marcelo, que é engenheiro de produção.

“Comecei com livros técnicos, sobre negócios e carreira.” Depois experimentou outros conteúdos. “Escutei Crime e Castigo em 20 horas. Devo ter ouvido em três semanas, fiquei fascinado. É um autor que eu não leria. É muito grande, uma literatura muito densa.”

No fim de janeiro, a empresa se mudou para uma nova sede em São Paulo, com seis estúdios em um escritório de 211 metros quadrados. A Tocalivros não abre o valor, mas revela que quadruplicou o faturamento anual durante a pandemia. Para 2021, a expectativa é continuar em expansão. 

“O audiolivro é acessível, barato em comparação com outras coisas. É vantajoso tanto financeiramente quanto se a pessoa é analfabeta ou tem dificuldade na leitura ou alto grau de dislexia.” A assinatura custa R$ 14,90 – alguns títulos são pagos à parte, caso de A Guerra dos Tronos.

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Editoras de autopublicação crescem em meio à crise no mercado de livros

Plataforma Clube dos Autores fechou 2020 com aumento de 40% no faturamento e espera crescer até 70% neste ano; para criadora de curso, chegada da Amazon ajudou autopublicadores

Nathalia Molina, Especial para o Estado

24 de fevereiro de 2021 | 05h00

Era uma vez um tempo em que, para publicar um livro, o autor tinha de enviar um exemplar impresso e passar no crivo de uma editora. Hoje, no reino das possibilidades digitais, um aspirante a escritor até pode contar com o serviço de profissionais do meio editorial, ou fazer tudo por conta própria, com a ajuda de um corretor de estilo. Pode também decidir que quer ser ouvido no formato de audiolivro. Assim, abrem-se oportunidades para empreendedores e negócios variados, que crescem enquanto o mercado editorial brasileiro encolheu 20% em 14 anos.

“A gente vê o livro como um tripé: editorial, divulgação e distribuição”, conta Daniel Pinsky, fundador da Labrador, editora de autopublicação criada em 2016. “O controle do processo é total. Todas as editoras usam profissionais terceirizados, mas tudo o que volta é sempre lido pela gente. Diagramação e capa são feitas aqui dentro.”

Dos 170 títulos já publicados pela editora, 56 saíram no ano passado. Em 2019, o livro 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo, de Marcus Nakagawa, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria economia criativa. “Eu não sou a editora mais barata do mercado. Ofereço serviços de nível premium. O cara tem de investir mais. Recebo muito original bom”, diz Pinsky. O custo do autor é definido caso a caso.

Ele explica que a equipe faz intervenções no texto e propõe mudanças de estilo, mas sem análise do conteúdo, como ocorre em uma editora tradicional como a Contexto, criada em 1987 por seu pai, Jaime Pinsky.

“Esse trabalho não cabe para uma editora de autopublicação. A gente não faz leitura crítica. Indica alguém de fora que não tem nada a ver com a gente. Não acho ético. Ganho dinheiro publicando, não posso ser o juiz”, afirma o fundador da Labrador, que já publicou os mais diversos temas. “A gente só rejeita apologia a crimes, pedofilia, nazismo.”

A distribuição, segundo Pinsky, é a mais próxima possível de uma editora comercial. “Ela chega aos pontos físicos, e no online a gente faz uma distribuição especialmente boa. Além de todas as lojas, estamos na BV (biblioteca virtual) da Pearson. Na Itália, vários dos nossos livros podem ser impressos no sistema on demanda.”

A equipe busca novidades para melhorar o processo constantemente, de acordo com ele. “A gente é muito indicado pelo mercado. Eles sabem que a gente não vai enganar o autor”, diz. “Muitas editoras são caça-níqueis sim, estão preocupadas com o bolso delas.” 

A Labrador tem controle de todo o processo de produção do livro, o que também ocorre na Edite, do Rio de Janeiro. O núcleo de projetos elabora o cronograma, e o escritor aprova revisões, diagramação e capa. “Nosso objetivo é que o autor tenha um bom livro no fim da linha. A equipe tem um envolvimento editorial, para entender a mensagem e ajudar a lapidar aquilo”, diz Silvia Rebello, fundadora e diretora da BR 75, que desde 2017 mantém o selo Edite para autores independentes.

Produtora editorial especializada em planejamento e gestão de projetos editoriais, a BR75 trabalha com conteúdo em qualquer formato – por exemplo, livro, gibi e revista. Com clientes pelo Brasil e parceria com uma gráfica em São Paulo, o negócio existe há dez anos. A Edite tem em torno de dez títulos de escritores, e a BR75 participou de centenas de projetos. “Escolas também são nossos clientes, para a publicação de conteúdo gerado ali”, conta. “Uma empresa pode fazer 30 exemplares de um livro para dar para consumidores ou um brinde que conte a história da companhia em 2020, por exemplo.”

O tempo de produção pode levar de dois meses a um ano, dependendo da extensão da empreitada. “Em um livro pequeno, de poesias ou crônicas, as intervenções são menores. Enquanto ocorre a revisão, a equipe de design já está montando o miolo. Mas tudo depende muito do estado bruto do conteúdo.”

Silvia explica que o preço é analisado, caso a caso, tanto para autores independentes quanto em publicações para negócios. “A gente tem um foco grande na redução de custo e desperdício. Sempre tenta desenhar algo viável para o cliente”, afirma.

A impressão é uma das partes significativas do custo. Quando Ricardo Almeida fundou o Clube dos Autores em 2009, com Indio Brasileiro Guerra Neto e Anderson de Andrade, conta que sofreu pela falta de opções, o que tornava o livro muito caro para o escritor independente. 

“Fomos pioneiros nesse serviço, mas não falo como autoelogio. Sofremos muito por isso. Uma impressão sob demanda para gráfica era de 100 em 100. A gente precisava convencê-las para ter valores acessíveis”, conta o CEO da plataforma de autopublicação.

“Hoje a gente acaba tendo altíssima escala, com dezenas de milhares, porque o clube tem um número grande de autores. Mas 11 anos atrás a realidade não era essa. O preço do livro era quase o dobro.” 

Sem considerar o valor que o escritor pode acrescentar por direitos autorais, Almeida conta que uma publicação de 150 páginas (tamanho médio no Clube dos Autores) sai por R$ 31 a unidade, para impressão no formato A5 com orelha, em gramatura 75g no miolo e papel cartão na capa. Segundo Almeida, em uma tiragem de 500 exemplares, o valor unitário despenca para R$ 11.

A plataforma, que encerrou o primeiro ano de atividade com cerca de 200 autores, atualmente conta com 72 mil títulos. “Hoje a gente tem alguma coisa na casa de 1 mil novos livros por mês.” Fechou 2020 com R$ 8,5 milhões de faturamento, um aumento de 40% em relação ao ano anterior. “Em janeiro, o ritmo de crescimento foi 40% a mais que em dezembro. Por mais que seja difícil, na era de incertezas que a gente vive hoje, temos a expectativa de crescer de 50% a 70% em 2021.”

Para publicar em PDF, o escritor não paga nada. “A nossa receita vem da venda dos livros”, explica Almeida. Se comprar os serviços disponíveis na plataforma, o autor pode pagar entre R$ 1,5 mil e R$ 7 mil. 

O mais comum, segundo Almeida, é contratar capa e revisão. “Um livro é um produto. Se tiver um português sofrível, não vai vender. A revisão de português é um serviço muito barato. Em 125 laudas, por exemplo, tem um custo de R$ 500.”

Curso para ajudar autopublicadores

Em busca de melhorar a qualidade das publicações e orientar quem quer fazer carreira na área, Lilian Cardoso, proprietária da LC, agência de comunicação especializada no mercado de livros, lançou o curso Escritores Admiráveis em março do ano passado.

“Em 2020, com a pandemia, as editoras começaram a me ligar dizendo que iam suspender lançamentos.” Embora elas não tenham cancelado o seu serviço de agência de comunicação, Lilian resolveu tirar o antigo projeto da gaveta. “Eu tinha o curso escrito, mas por conta da rotina da agência sempre falava ‘no mês que vem, eu faço’. Fiquei cinco meses gravando toda quinta-feira.”

Os seis módulos do curso abrangem da criação ao produto, passando por dicas de publicação e marketing. Com 60 horas de aula, custa R$ 1.680. O programa tem 300 alunos, e a meta para 2021 é chegar a 700 ou 1 mil.

Quando criou a agência, em 2010, Lilian tinha a expectativa de trabalhar com a divulgação de pequenos autores. “Mas eles não tinham grana. Comecei a atender editoras, que eram 90% dos nossos clientes. A virada de chave foi quando a Amazon chegou ao Brasil, em 2012. Os autores começaram a me procurar e cresceu o número de editoras que fazem a autopublicação.”

Atualmente 60% dos seus clientes são escritores independentes. O pacote Press LC inclui seis campanhas do mesmo release, que dura até dois meses de divulgação. Só tem vaga para abril. “A gente começou com dez autores por mês e agora limita a 20, para não competir com a gente mesmo.”

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