Renato Jakitas/Estadão
Renato Jakitas/Estadão

Inseto estoura na boca como pipoca e até lembra um pouco a erva-doce, mas o gosto é de formiga

Provei a içá de todos os jeito: crua, frita na banha e disfarçada entre pedaços de linguiça e de mandioca

Renato Jakitas, Estadão PME,

25 de setembro de 2013 | 07h28

Uma formigona tanajura desenhada na porta de entrada do restaurante dá a dica sobre a peculiaridade da casa. Ali, há dez anos, o cozinheiro Ocílio Ferraz serve o inseto como estrela de um cardápio especializado em culinária tropeira, cozinha típica do interior de São Paulo e de Minas Gerais.

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No Restaurante do Ocílio, em Silveiras (SP), uma porção com mais ou menos uns 30 gramas de abdômen de içá, outro dos nomes dados à fêmea da formiga saúva, é frita em banha de porco com uma porção generosa de farinha de mandioca crua. Em cinco minutos de frigideira, se tanto, a mistura enche a cozinha - e também o salão do restaurante - com um aroma forte de carne quente. Cheiro peculiar e que mais espanta do que atrai a clientela.

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Estive em Silveiras, vi o desenho da formiga na entrada do sítio onde funciona o restaurante e senti - em pé, na cozinha e, depois, sentado em uma mesa do salão - o tal aroma forte e bastante característico exalado pelo bicho frito. Assim como, mais tarde, provei pela primeira vez da tal da iça, fazendo isso de todos os jeitos possíveis: crua, frita com farinha e banha, no meio do arroz e do feijão e disfarçada entre pedaços de mandioca e de linguiça de porco. E em todas as vezes fiquei com uma impressão: estava comendo formiga. 

Explico. Chefs de cozinha como Alex Atala e Renato Callefi, estudiosos em alimentação alternativa e entomologistas, todos falam sobre o gosto de erva-doce da tanajura e destacam a textura crocante que estoura na boca como se fosse pipoca. Isso tudo é verdade, aconteceu comigo. Mas a tanajura, é bom que se diga, embora ultra crocante não tem na boca a inocência da pipoca. E sua 'nota de saída de erva-doce' é tão discreta que, o simples rolar do abdômen na língua já é suficiente para a lembrança da planta famosa pelo chá te abandonar por completo. No fim, o que fica é o gosto de formiga, o que necessariamente não é uma coisa ruim.

Que o diga o próprio Ocílio Ferraz, que diz receber caravanas de interessados provenientes de todos os lados do Brasil - e do mundo. Que o diga também Ana Maria da Silva Follador, dona de um restaurante por quilo no centro de Silveiras, que vende cerca de 24 potes de farofa de iça todo sábado para o povo da região. "Eu gosto (de comer), mas prefiro catar (o inseto)."

Pelo mundo. Se parece estranho o hábito de comer formigas em Silveiras, o leitor deve se atentar para um movimento que começa a despertar pelo mundo em torno dos insetos comestíveis. Acredita-se que 2 bilhões de pessoas fazem ingestão regular de grilos, larvas de moscas e besouros no planeta, segundo um relatório da ONU (que, aliás, recomenda o uso dos invertebrados de exoesqueleto na alimentação).

Para ficar com um exemplo recente desse novo mercado, um grupo de estudantes de negócios recebeu no dia 23 de setembro US$ 1 milhão das mãos de Bill Clinton por seu trabalho na startup Aspire Foods, que processa de larvas a insetos e têm planos de, assim, diminuir a fome em lugares no continente asiático e africano.

Os jovens são estudantes da Universidade McGill, no Canadá. E o prêmio, o Hult, é uma parceria entre o Hult International Business School e o Clinton Global Initiative, lançado pelo ex-presidente norte-americano. A história foi noticiada pelo diário britânico Telegraph.

Veja abaixo uma galeria de imagens com as formigas de Silveiras.

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