Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Iniciativa de doações leva fôlego a pequenos negócios rurais na borda de SP

Campanha Anticorpos Agroecológicos arrecada dinheiro para manter fluxo de caixa de produtores que tiveram renda afetada; programa de aceleração da Prefeitura de São Paulo mira iniciativas agroecológicas

Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 14h00

Desde o início da quarentena imposta pelo novo coronavírus, o ativista ambiental e técnico em agricultura orgânica Lucas Ciola, de 35 anos, intensificou o consumo responsável que há tempos pratica, comprando verduras, legumes e frutas de uma cadeia de pequenos agricultores da Grande São Paulo. Agora, ao lado de outros ativistas, começou uma campanha para arrecadar dinheiro, comprar alimentos, gerar fluxo de caixa para esses produtores e, com os itens adquiridos, movimentar a cadeia de doações a comunidades vulneráveis.

Espalhada nas redes sociais e em grupos de WhatsApp, a campanha ganhou o nome de “Anticorpos Agroecológicos - Frente de segurança alimentar para a pandemia”. Desde o início da iniciativa, no final de março, já foram arrecadados cerca de R$ 12 mil, que foram parar nas mãos de cerca de 160 famílias de produtores, majoritariamente de orgânicos. Ao longo dessas semanas, mais de 3 toneladas e meia de alimentos foram distribuídas a terceiros.

Para participar da frente, além da arrecadação de dinheiro, os voluntários também buscam os alimentos, organizam redes de doadores e mapeiam comunidades em situação de vulnerabilidade social.

“Muitos pequenos agricultores estavam com dificuldades para escoar a produção, pois as feiras onde trabalhavam, como a de orgânicos do Parque da Água Branca, foram interrompidas. Com essa ação, procuramos fortalecer as duas pontas, tanto quem ficou com problemas de escoar sua produção como os que precisam receber esses alimentos.”

Além do parque do Água Branca, outros parques estaduais e também municipais estão fechados desde o fim de março. De 60% a 70% dos produtores do Água Branca migraram para uma rua vizinha, mas, segundo contam participantes da feira, o movimento não é o mesmo porque os clientes têm medo de ir às ruas.

“No meu caso, as vendas caíram uns 40%, quase 50%”, conta Ariane Santos, produtora de hortaliças de Cotia. Outros produtores do Estado também registraram, entre março e abril, queda brusca nas vendas por conta da falta de demanda de restaurantes e outros estabelecimentos.

Na campanha Anticorpos, os alimentos vêm de cidades como Jandira, Guararema, Salesópolis e bairros como Parelheiros e Jaçanã, produzidos sempre por pequenos produtores. Um grupo de WhatsApp informa os voluntários dos carretos que precisam ser feitos e locais de retirada e entrega das frutas e verduras.

A lista das comunidades que já foram beneficiadas é extensa e compreende muitas regiões da Grande São Paulo. Os primeiros que foram auxiliados, segundo Lucas Ciola, foi a população em situação de rua que é assistida pelo padre Julio Lancellotti, seguido por imigrantes bolivianos da região da Armênia, refugiados do Haiti, Casa de Acolhida Especial para Mulheres Transexuais, aldeias do Território Indígena do Jaraguá, entre outras.

Unindo as pontas da cadeia

No último final de semana, o ativista Lucas Ciola enfrentou a queda brusca de temperatura em São Paulo, levantou cedo e, munido de bastante álcool em gel, foi buscar com seu carro caixas de laranja, limão, abacate e mandioca no município de Franco da Rocha.

O agricultor visitado foi Mauro Evangelista da Silva, do assentamento do MST Comuna da Terra Dom Tomás Balduíno. Ele produz cerca de 300 kg de alimentos por mês, vendidos sobretudo na feirinha que fazia com outros agricultores no estacionamento do Presídio Mario Moura Albuquerque, a chamada P1, visitada por parentes de presos. Desde o início da pandemia, porém, as visitas estão suspensas.

Tio Mauro, como é conhecido na região, tem um pequeno pomar de mangas e limões, além de algumas bananeiras. Hoje, seu pequeno sítio funciona como entreposto onde os demais agricultores do assentamento deixam alimentos, buscados pelos ativistas.

No trajeto acompanhado pelo Estadão, Lucas seguiu de Franco da Rocha para o Território Indígena do Jaraguá. Levou as frutas para a Itakupe, uma das seis aldeias indígenas da região. Quando chegou, antes de se encontrar com as lideranças, repetiu os mesmos gestos que havia feito antes de encontrar o agricultor: saiu do carro e limpou suas mãos com álcool em gel e as maçanetas do carro, protegido com máscara.

Quando descarregou as frutas do carro, era esperado por mulheres com crianças de colo, que fizeram a distribuição dos alimentos. Um dos indígenas que fazem parte da aldeia, Daniel Wera reconhece a importância da ação para levar alimento saudável e orgânico para as crianças da aldeia.

Segundo ele, com a expansão da cidade pelas bordas do território indígena, restou pouco espaço para o plantio de hortas e culturas próprias da aldeia. “Temos uma pequena horta onde plantamos nosso milho sagrado guarani, batata doce, mandioca, mas ela não atende a todos. Então uma ajuda dessas, de alimentos produzidos com carinho e amor, é muito bem vinda”, diz ele.

Para Lucas Ciola, o principal legado dessa iniciativa pode ser o aumento do consumo local e o estímulo à produção de hortas urbanas. “Acredito que os países passarão a consumir mais alimentos locais e menos importados. Porque precisamos consumir pão com farinha de trigo vinda da Argentina, se temos batata doce e tapioca?”, indaga. “Estimular o comércio local, de pequenas distâncias, ajudará na diminuição da queima de combustíveis fósseis, na diminuição de caminhões rodando grandes distâncias, uma série de atitudes que podem melhorar a qualidade dos alimentos.”

Programa da Prefeitura investe em iniciativas agroecológicas

Para desenvolver as regiões de Capela do Socorro e Parelheiros, localizadas no extremo sul da cidade de São Paulo e conhecidas pela concentração de pequenos produtores, a Prefeitura de São Paulo, com o apoio da Bloomberg Philanthropies, capacita atualmente oito empreendedores por meio do projeto Ligue os Pontos.

O programa tem como objetivo fortalecer os negócios, dando suporte para a criação de soluções que aumentem a produtividade e contribuam para o desenvolvimento socioeconômico da região. Cada empreendedor recebeu R$ 35 mil como aporte.

Produção de orgânicos, introdução ao sistema agroflorestal, aplicativo que conecta os produtores com os consumidores e produção de adubo orgânico por meio de composteiras são alguns dos tipos de modelos de negócios selecionados para o programa. 

Mesmo com a pandemia, o projeto continua com o cronograma de capacitação. No início de maio, os selecionados receberam a primeira mentoria, feita de forma online. Os assuntos abordados foram pautados pelas necessidades de cada negócio, entre eles finanças, marketing, vendas, logística, recursos humanos, turismo, legislação e precificação.

* Colaborou Letícia Ginak

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