Indústria já deu sinais claros de desaquecimento do setor

Segundo trimestre de 2011 mostra queda na demanda por produtos industriais domésticos

Célia Froufe,

22 de julho de 2011 | 15h31

A indústria deu sinais claros em junho de que perdeu o fôlego, segundo analistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). "Estamos com praticamente todos os indicadores apontando para a mesma direção: a do desaquecimento do setor", avaliou o economista da entidade, Renato Fonseca. "No mês anterior, ainda estávamos na dúvida, mas agora estamos certos", acrescentou.

A produção industrial recuou em junho em relação a maio deste ano, conforme Sondagem Industrial divulgada nessa sexta-feira pela CNI. Em uma escala na qual valores acima de 50 pontos significam crescimento e, abaixo disso, retração, o indicador de produção do mês passado registrou 48,1 pontos. Em maio, estava em 52 pontos e, em abril, em 47,6 pontos.

O economista Marcelo Azevedo, também da entidade, salientou que, além da avaliação dos industriais de que o uso da capacidade instalada está baixo para o mês em questão há sete meses, a indústria acumulou estoques indesejados no último trimestre. "O cenário ficou mais grave do que apontava no início do trimestre", considerou. "Fica evidente a diferença em relação a 2010", continuou.

Azevedo acrescentou que as questões financeiras das companhias também continuaram piorando e que as perspectivas para as exportações se deterioraram no mês passado. A expectativa para admissão de novos funcionários ainda segue positiva, de acordo com o economista, porque a indústria avalia que é custoso treinar profissionais para depois demiti-los.

"Vemos que as exportações brasileiras, na maioria, é composta por produtos básicos", considerou Fonseca, citando que setores como mineração e alimentos (ambos commodities) estão em alta. "O resto é mais negativo e as exportações de manufaturados não vão tão bem", pontuou. Segundo ele, além da valorização do real, prejudica as vendas externas da indústria a competição com os produtos asiáticos, que tem sido muito forte, principalmente da China. "A indústria brasileira está perdendo mercado na Europa e no Mercosul", salientou.

A CNI avalia que o segundo trimestre de 2011 mostra uma "evidente queda" na demanda por produtos industriais domésticos, impactando fortemente a indústria brasileira. "A queda na atividade industrial é evidente e contrasta com o desempenho do varejo. O cenário segue negativo, apesar do efeito sazonal positivo do fim do ano: o acúmulo indesejado de estoques e a maior dificuldade no acesso ao crédito sinalizam um cenário desfavorável para os próximos meses", trouxe o documento da entidade.

Em junho do ano passado, o nível de atividade marcou 51,8 pontos. "A atividade industrial está perdendo a força", resumiu o documento.

Utilização da indústria

O Índice de Utilização da Capacidade Instalada (UCI) passou de 46,1 pontos em maio para 44,7 em junho, ficando ainda mais distante da linha divisória dos 50 pontos. A CNI revelou que o porcentual médio da utilização da capacidade instalada se manteve em 74% em junho, como estava em maio. A Sondagem foi realizada entre os dias 1 e 15 de julho com 1.692 empresas, das quais 915 pequenas, 535 médias e 242 de grande porte.

Capacidade

A Utilização da Capacidade Instalada da indústria está abaixo do usual há sete meses, segundo a pesquisa. Os industriais consultados alegaram que no mês passado, a produção de suas empresas estava abaixo do que é considerado normal para aquele período específico. As exceções ficaram apenas por conta dos setores farmacêutico e de veículos automotivos.

Pelo dado, o indicador apresenta valores abaixo de 50 pontos desde dezembro do ano passado, quando estava em 48,2 pontos. Em junho, registrou 44,7 pontos. "Após sete meses de baixa, o sentimento está mais disseminado", avaliou o economista da entidade, Renato da Fonseca.

De acordo com o profissional, essa percepção vem sendo verificada nas companhias de todos os portes e de todas as regiões consultadas. Também foi identificado nos 24 dos 26 setores da indústria da transformação consultados pela CNI, além da indústria extrativa. As exceções são o segmento farmacêutico (50,9 pontos) e de veículos automotores (50,5 pontos). Fonseca salientou que este indicador é formado por meio de avaliações subjetivas de cada empresários de acordo com o setor de atividade. "Mas este é um indicador de antecedentes", avaliou o economista.

Estoques

Os estoques da indústria brasileira cresceram em junho, passando de 51,4 pontos para 52,3 pontos. Esta é a maior variação desde o primeiro trimestre de 2009. A entidade começou a realizar o levantamento mensal em janeiro do ano passado. Até então, a sondagem para todos indicadores era realizada trimestralmente, por isso não há uma base de comparação idêntica. Na ocasião, o indicador de acúmulo de estoques estava em 53,3 pontos.

De acordo com economistas da entidade, as respostas dos empresários consultados levam em conta a quantidade de produtos armazenados em relação ao que gostariam de ter em determinado momento. O excesso de estoques foi verificado em 17 setores dos 26 da indústria de transformação que são avaliados mensalmente pela CNI. Os que registraram o maior volume de produtos encalhados foram "outros equipamentos de transporte" (que reúne desde motocicletas até elevadores e helicópteros), cm 65,9 pontos no mês passado; têxteis (59, pontos), calçados (58,1 pontos) e máquinas e equipamentos (56,6 pontos).

"O desaquecimento da indústria foi confirmada em junho. No mês passado, houve redução dos estoques indesejados, mas agora eles voltaram a crescer novamente", comentou Fonseca.

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