Alessandro Lucchetti/Estadão
Alessandro Lucchetti/Estadão

Grupo abre loja de escolas de samba cariocas no centro de SP

Em frente à Galeria do Rock, em pleno centro paulistano, é possível adquirir chapéus, camisetas, bonecos e vários outros produtos com logos das escolas de samba do Rio de Janeiro

Alessandro Lucchetti, Estadão PME

01 de maio de 2017 | 05h00

Agora já é possível sair da Galeria do Rock e visitar uma loja com produtos ligados ao samba. Na mesma Rua 24 de Maio, defronte ao endereço tão frequentado por cabeludos, punks, rappers e skatistas, há um estabelecimento chamado Boutique do Carnaval. Estão à venda bonecas de baianinhas e de portas-bandeiras, camisetas, chapéus, bonés, canecas e até roupinhas para sambistas mirins. As mercadorias são licenciados pelas escolas de samba do Rio. A abertura da loja no centro de São Paulo é uma iniciativa da entidade carioca Amebras (Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil) em parceria com o Conselho do Samba de São Paulo.

Sem apoio financeiro de qualquer órgão público, a Amebras, que completa 19 anos em maio, oferece oficinas de capacitação para jovens a partir de 16 anos de idade que queiram atuar como aderecistas, figurinistas e artesãos. Com o tempo, Célia Domingues, presidente da entidade, percebeu que essa mão de obra poderia trabalhar o ano inteiro, confeccionando souvenirs, e que seria interessante o escoamento dessa produção em pontos comerciais para refinanciar o sistema, dando oportunidade de inclusão social a jovens com baixo nível de instrução formal. No Rio há dois quiosques da Amebras, no Sambódromo e no Porto Maravilha. A comercialização dá retorno às escolas em royalties. 

Célia começou a empreender no segmento da economia criativa quando era a primeira-dama da Estação Primeira de Mangueira, na gestão presidencial de Elmo José dos Santos. Ela anuncia planos de recrutar jovens de São Paulo por intermédio das agremiações locais de sambistas. "Já conversamos com o pessoal da Vila Maria, Nenê e Mocidade Alegre. Muitas das escolas de samba paulistas têm suas lojas, mas queremos incrementar o licenciamento e trabalhar com esse pensamento de confeccionar e vender produtos ao longo de todo o ano".

O barracão de informações está fechado. Célia evita divulgar os números sobre vendas. O contrato de aluguel da loja 12-A da Galeria R. Monteiro, que liga a 24 de Maio à Barão de Itapetininga expira no início de 2018. "Estamos na segunda fase experimental. A primeira foi no período do Carnaval, e vendemos bem. Vamos observar o desempenho no pós-Carnaval. Estamos fazendo uma pesquisa para apurar quais são as demandas do consumidor de São Paulo, ver qual é a avaliação deles sobre nossos produtos. De posse desses números, queremos avançar com melhor ritmo nas nossas conversas com as escolas paulistas. Por ora, esses entendimentos estão em passo de tartaruga", diz Célia. O aluguel da loja sai por R$ 3 mil mensais. A sambista sonha com lojas em todas as capitais brasileiras que têm "Carnaval ativo". O passo seguinte nessa expansão desejada seria em Salvador.

Célia estima que, por ocasião do Carnaval, cada barracão de escola de samba envolva o trabalho de 200 pessoas. "Nós já capacitamos 20 mil pessoas nas nossas oficinas, mas não temos o retorno, não recebemos informação sobre suas atividades. Sabemos que muitos vão trabalhar em ateliês, em empresas de produção de eventos, produção teatral de TV".

Antes da abertura da loja no centro, houve uma experiência-piloto no Mercadão da Rua Cantareira. Um quiosque da Amebras funcionou lá por 90 dias. Segundo Damasio Soares do Nascimento, representante do Conselho do Samba de São Paulo, a aceitação dos produtos, num local de frequente circulação de turistas, foi interessante. "Existe uma demanda por esses produtos em São Paulo. Vendemos pra japonês, pra francês, foi muito bom", diz o sambista, que trabalha como vendedor voluntário na loja da Galeria R. Monteiro. "Vem muita gente do samba de São Paulo aqui, porque às quintas e sextas-feiras tem um sambão na Galeria Boulevard, também na 24 de Maio".

Damasio e seus amigos montam operações de comercialização com alvos específicos, erguendo tendas abrigadas em eventos como o Folia na Luz e o Show de Verão da Mangueira (em fevereiro, no Tom Brasil, na Chácara Santo Antônio). "No show da Mangueira a gente vendeu todo o nosso estoque de produtos da verde-rosa, incluindo uma camiseta com estampa da Maria Bethânia que eu vestia na hora", conta o lojista.

Segundo Damasio, a fabricação de produtos de escolas do samba paulista é intermitente, e a organização ainda engatinha. As entidades do outro lado da Dutra desfrutam de um estágio bem mais avançado em termos de licenciamento e produção. "É muito difícil encontrar produtos de escolas paulistas", diz o professor de tai chi chuan e jiu jitsu, compositor nas horas vagas. "Mas queremos deixar claro que nossas vitrines estão abertas para os produtos deles". De acordo com o dirigente do Conselho do Samba, a Unidos de Vila Maria, Rosas de Ouro e Mocidade Alegre têm lojas, mas elas não ultrapassam os limites de suas respectivas quadras, e o comércio on line não é efetivo.

As vendas estão bastante irregulares. Há dias em compasso de choro, em que entram R$ 20 no caixa; em outros, de samba-exaltação, ingressa até R$ 1 mil. 

Damasio acredita que, se a Boutique do Carnaval alcançar boa divulgação, vai alcançar um público que existe. "A gente fica olhando nos olhos do pessoal que gosta de samba e descobre nossas vitrines. Tenho certeza que eles têm a impressão de estarem na pista, por causa do colorido e da força que o Carnaval tem".

 

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