Alessandro Lucchetti/Estadão
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Grego vende azeite feito pela família no Bom Retiro

Spyros Patseas enfrenta burocracia, câmbio desfavorável e desconhecimento do consumidor brasileiro para vender produto de alta qualidade num mercado dominado por marcas de Portugal, Espanha e Itália

Alessandro Lucchetti, Especial para O Estado de S. Paulo

15 de abril de 2017 | 05h00

Não é fácil trabalhar com azeite importado no Brasil. O câmbio está desfavorável, a burocacia alfandegária atrapalha e a mercadoria fica na prateleira do consumidor por cerca de um mês, em média, até a embalagem esvaziar. As dificuldades se tornam ainda maiores se esse azeite não for português, espanhol ou italiano, campeões de venda em território nacional. Mas o ateniense Spyros Patseas, que está no Brasil desde a década de 60, fincou sua bandeira na Rua Anhaia, no Bom Retiro, onde estabeleceu o Empório Grego, e lá trava a sua luta para conquistar mercado, com disciplina e espírito combativo espartanos. 

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A cultura grega atribui poderes divinos à oliveira, que está ligada à representação da própria deusa Palas Atena. Patseas não desacredita essa noção. O arquiteto, enfronhado no ramo de confecções do Bom Retiro por décadas, entendia pouco sobre o produto e jamais passara por sua cabeça a ideia de comercializá-lo. Segundo seu relato, o azeite de certa forma o "perseguiu". Eis a história: em 2010, quando a mãe do comerciante morreu, Spyros decidiu enterrá-la em solo grego. Como na Igreja Ortodoxa o equivalente à missa de sétimo dia é celebrada no 45º dia, ele teve seis semanas para conhecer parentes do ramo paterno e conversar com eles.

Empolgados com a prosperidade brasileira no segundo mandato de Lula, produtores de azeite extraído das consagradas olivas Koroneiki, da região de Kalamata, viram no parente fixado em São Paulo a oportunidade de penetrar num mercado aparentemente promissor, e lhe perguntaram se não estaria interessado em importá-lo. "Como nunca mexera com azeite, não aceitei a proposta de imediato, mas me comprometi a apresentar pessoas da colônia que poderiam importar o produto deles. Ia ficando nisso". Insistentes, os mercadores mandaram entregar na casa da irmã de Spyros, em Atenas, um carregamento de pequenos vidros de azeite. "A minha irmã me disse que seria uma desfeita não levar aquilo para o Brasil. Tive que comprar outra mala para carregar", diz Patseas, fazendo careta enquanto recorda.

Os vidros ficaram empoeirando por dois meses na casa do arquiteto, até que um de seus filhos, convidado para uma festa na casa da namorada, viu no azeite ali largado a oportunidade de dar um presente diferente sem ter que desembolsar um único real por isso. Ocorre que um dos convidados era um chef francês, que provou o produto e, impressionado com sua qualidade, quis comprá-lo. A notícia chegou a um degustador de vinhos e azeites da Bela Vista, que também aprovou o azeite com louvor.

"Eu estava desativando todos os meus negócios de confecção e, como não poderia mesmo ficar parado, resolvi entrar em contato com esses parentes do meu pai e importar o azeite. Quando tem que ser, tem que ser".

A cada seis meses, chega ao Emporio Grego um carregamento de 15 toneladas, após viagem de 30 dias pelos mares Egeu e Mediterrâneo e pelo Oceano Atlântico. Acompanhando o azeite, são descarregados azeitonas, geleias, vinhos e Ouzo, destilado feito com anis: tudo para aproveitar o espaço do contêiner.

A Grécia é o terceiro maior produtor de azeite do mundo, atrás de Espanha e Itália. Na Competição Internacional de Óleo de Oliva de Nova York de 2014, 19 marcas gregas foram premiadas. Na pauta de exportações helênicas, o azeite ocupa a nona colocação. A Grécia, no entanto, não tem uma presença muito forte na exportação, mesmo porque grande parte de sua produção é consumida internamente - o consumo per capita grego é de 20 litros por ano.

No Brasil, o azeite grego ainda tem pequena penetração. O consumidor comum brasileiro ainda não é um grande conhecedor desse universo. "O brasileiro comum ainda não sabe distinguir o joio do trigo. Há alguns anos, chegava ao Brasil um produto grego não filtrado, que era opaco e tinha que ser consumido mais rapidamente, porque poderia ficar rançoso. Os azeites gregos de qualidade têm poucos importadores. A Grécia, bem como outros países produtores, como Tunísia, Marrocos e Egito, já fez vários movimentos para entrar no nosso mercado, mas a tributação, a burocracia e a legislação são obstáculos", diz Rita Bassi, presidente da Oliva, Associação Brasileira de Produtores, Importadores e Comerciantes de Azeite de Oliva.

O consumo no Brasil é muito baixo. Segundo Rita Bassi, está na casa dos 400 mililitros per capita ao ano. O país chegou a ser um dos três maiores importadores de azeite do mundo entre os países com produção insignificante ou nula. Porém, após seis anos de crescimento do volume importado, os números de 2016 despencaram e repetem os de 2010, quando a escalada se iniciou - 50 mil toneladas importadas. A crise, o câmbio desfavorável e a valorização do produto no mercado internacional formam a tríade de fatores que explicam a queda.

Spyros tenta fomentar a venda on line. A família Stavros, que exporta o produto, já não vê o mercado brasileiro com tão bons olhos e concentra seus esforços em outros quatro mercados: Canadá, Austrália, França e Suíça. Mas nem tudo são más notícias para o importador. O aluguel de sua loja/depósito caiu de R$ 5 mil para R$ 3,5 mil, por conta da crise.

A culinária grega poderia ser mais conhecida no Brasil. Apenas na Rua da Graça, no Bom Retiro, havia três restaurantes gregos nos anos 60. Ainda resiste por lá o Acrópolis e um novo estabelecimento, o Creta, foi aberto na Brigadeiro Luiz Antônio. Boa parte da colônia no Brasil, que chegou a ter 30 mil quebradores de pratos, deixou o país nos anos de ditadura, receosa da instabilidade. Após a Segunda Guerra Mundial, o país sofreu com uma violentíssima guerra civil (46 a 49), o que traumatizou gerações. "Boa parte dos gregos trocou o Brasil pela África do Sul, e outros voltaram à Grécia", diz Spyros, que aprendeu o português rapidamente batendo bola no bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, com jogadores das divisões de base e aspirantes do Atlético Mineiro. Um de seus companheiros de pelada foi Buglê, autor do primeiro gol da história do Mineirão. 

Quem se interessar pelo azeite de Spyros talvez tenha que se apressar. Os italianos estão invadindo a Grécia atrás da mercadoria, importando-a em barricas de 200 litros, o que pode torná-la mais rara nas prateleiras nacionais. "Por causa da crise, os gregos, que não têm capital de giro para atravessar o inverno, vendem para os italianos, que aproveitam a mercadoria para fazer azeites com outras composições. Cada garrafa grega, com a mistura, dá origem a três. Se a Grécia não colocar barreiras a essa venda indiscriminada, esta mercadoria estará com os dias contados", vaticina.

 

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