Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Gestão da identidade de marca ajuda a manter coerência da empresa

Pequenos estúdios como Crudo, Allma e Nuvem Design desenvolvem projetos de identidade para ajudar empreendedores a manter coesão entre discurso e prática no mercado

Nathalia Molina, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 05h05

Especial para o Estado

“É só um logotipo, coisa simples, não vai dar muito trabalho.” A frase frequentemente ouvida por designers mostra que, muitas vezes, empresas não se preocupam ou não entendem o valor que tem uma sólida identidade de marca. Para ajudar negócios a montarem uma coerente apresentação, profissionais egressos do mercado de design e publicidade se lançaram em pequenos estúdios de criação para customizar serviços, incluindo entre clientes outras pequenas empresas.

Da concepção de uma companhia às plataformas em que ela atua, a identidade de marca atravessa todos os processos. “Estratégia é design, planejamento é design. A gente vê muitas empresas pequenas com bons produtos e serviços, mas que não transmitem segurança aos clientes porque não têm uma comunicação clara”, afirma Vitor de Castro Fernandes, professor de design de identidade visual e de design editorial no Centro Universitário Belas Artes.

Facilita a compreensão do negócio manter uma uniformidade verbal e visual em todos os pontos de contato com os consumidores, seja física ou virtualmente. “A ideia é que um cliente, um fornecedor ou um colaborador receba a mesma mensagem”, explica Julia Vidigal, à frente da Crudo, com Laura Andreotti. Há cinco anos elas trabalham com o segmento de alimentos, bebidas e hospitalidade. “A gente está em um momento em que as pessoas exigem coerência e querem ver isso nos conteúdos também”, afirma Laura.

Para garantir esse resultado, as duas dirigem pessoalmente as sessões de fotos para as redes sociais do Yabai, delivery de comida japonesa. “Não é só tirar fotos profissionais. Elas dialogam entre si?”, questiona Laura. “Cada marca vai ter um produto customizado para ela, de acordo com seu posicionamento.” A gestão de redes sociais está entre os serviços oferecidos pela Crudo.

Ana Paula Dugaich, proprietária da Allma Hub, também trabalhou o conteúdo digital da startup YVY, de produtos de limpeza naturais. “Eles procuraram a gente e eu disse ‘vocês são melhores do que se mostram’. Ajudamos a contar sobre a economia circular, que a empresa entrega em casa para emitir menos carbono e o mal que os produtos tradicionais fazem.”

Crudo e Allma desenvolvem projetos de identidade para negócios, do começo ao fim. “Fazemos brainstorming de nome, trabalhamos desde o conceito de entender por que a marca vai nascer. O que baliza nossa escolha de cliente é o propósito dele”, explica Ana Paula. Seu hub criativo, em dois anos de existência, já desenvolveu a identidade visual do chocolate Danke (que prega comércio justo com produtores e sem trabalho infantil) e do Vila da Terra, espaço multifuncional dentro do Natural da Terra, com iniciativas que privilegiam alimentos de boa procedência e respeito à natureza.

A empresária conta com a contribuição dos traços e do olhar atento de Renata Alcantara, da Nata Design. Ela conta que se sente valorizada quando trabalha com negócios menores. “Em uma gigante, ninguém tem apego ao projeto. Depois de passar pela cadeia inteira de aprovação, às vezes não reconhecia meu primeiro layout.”

De acordo com Renato Hayashi, professor do curso de Design Gráfico da Panamericana Escola de Arte e Design, todo designer anseia por ter um cliente grande. “Mas em 99% dos casos você tem a capilarização dos trabalhos entre os pequenos. Se você pode ter uma rotatividade, todos ganham e as empresas pequenas têm um projeto feito por quem entende do assunto.”

Rafaela e Estevan Ortega, há sete anos à frente da Nuvem Design, atendem majoritariamente pequenos negócios e profissionais liberais. “A gente entende esse cliente porque foi o mesmo caminho que a gente percorreu”, diz Rafaela. “O maior desafio é conscientizar essas empresas de que o design é um investimento”, completa o parceiro de vida e de trabalho.

Para o professor da Panamericana, um dos entraves é a falta de valorização no Brasil. “As pessoas pensam ‘por que vou gastar R$ 1 mil, R$ 2 mil em um logotipo’? Um design de qualidade é tão importante quanto o mobiliário de uma loja”, diz Hayashi.

Benchmarking e enxoval gráfico

“Algo bonito ou esteticamente agradável não é design. Design não é arte. Necessariamente tem de cumprir uma função, comunicar uma ideia”, afirma Rafaela. Para conseguir isso, ela e Estevan apostam em desenho com emoção. “A gente se aprofundou em neurociência e psicologia porque essas disciplinas respondem como o cérebro funciona”, diz Rafaela.

O processo de identidade de marca começa com uma pesquisa de mercado e dos concorrentes. “A gente tem um trabalho forte de benchmarking. Tudo o que sugerimos é sempre a partir de conceitos”, conta Julia, da Crudo. Laura completa: “Depois que a estratégia está desenhada, desdobramos no enxoval gráfico.” Essa expressão define o conjunto de peças criadas pelo designer, que podem ser virtuais ou físicas, de banner a cartão de visita.

“O empresário pensa ‘vou gastar R$ 5 mil, R$ 10 mil em uma embalagem’, mas ela ajuda a vender”, diz Fernandes, sobre o retorno financeiro que um bom design pode trazer. Para um pequeno negócio, ele ressalta que o preço acompanha o grau de desafio e a amplitude do projeto, que costumam ser menores. “É tudo uma questão de adaptar o orçamento ao que o cliente precisa e eliminar etapas”, diz o professor, que mantém o estúdio ConceitoAR.

Ana Paula, da Allma Hub, trabalha dessa forma. “É o investimento de pagar quem sentou ali para pensar.” E recomenda: “Esse pequeno empresário tem de encontrar quem saiba dar atenção para ele, na medida em que ele pode pagar. Tem hora em que a gente prefere fazer escambo do que cobrar muito pouco.” Ela cita a atualização de marca feita para a Fazenda Santa Adelaide, pela qual recebeu na forma de produtos orgânicos.

A pandemia, acredita a designer Renata, aumentou a chance de pequenos negócios competirem por clientes. “Antes quem tinha dinheiro podia vender no shopping. Na internet, todo mundo está no mesmo endereço.” Com isso, esses empresários passaram a buscar identidade visual, investindo em design para obter resultados adiante. “Quando as pessoas experimentam uma coisa bem feita, percebem o valor. É muito surpreendente”, diz Ana Paula.

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