Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Febre anos atrás, food trucks perdem espaço em São Paulo

Cai 40% desde 2014 o número de permissões de uso para esse tipo de caminhão em ruas da capital paulista; negócios sobreviventes, como o Buzina, reforçam marca com eventos, delivery e até ponto fixo

Bárbara Stefanelli, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 06h01

Especial para o Estado

Febre iniciada em São Paulo há cerca de cinco anos, os negócios alimentícios instalados em food trucks viveram anos de retumbante sucesso, mas hoje estão em queda. Esse mercado é formado por caminhões adaptados para vender de hambúrguer a pratos italianos. Se ainda sobrevivem em espaços privados, é cada vez menor o número de TPUs (Termo de Permissão de Uso para veículo automotor) emitidos pela Prefeitura.

Em 2014, foram liberadas 153 licenças para funcionamento de food truck nas ruas. Em 2018, 89 pedidos fecharam o ano - uma queda de 41%. Em sites como Mercado Livre e OLX, caminhões usados estão à venda (em média R$ 30 mil; um novo custa em torno de R$ 200 mil).

Quem viveu de perto os anos intensos de trucks na capital foi Alex Caputo, do EATinerante - uma das primeiras cozinhas móveis a circular pela cidade, desde 2013. No auge, ele conta que chegou a ter três caminhões e a vender cerca de 2.500 hambúrgueres em um fim de semana.

“Teve um feriado prolongado que a gente faturou por volta de R$ 40 mil - R$ 11 mil em uma só noite. Eu lembro que estava na Bahia, de folga, e meu cunhado ligou, brincando que eu podia ficar lá o resto do ano”, lembra Caputo, que hoje não tem mais nenhum food truck, mas segue no ramo gastronômico. “Antes de regulamentarem a lei (da comida de rua, de 2013), o que a gente pediu era mobilidade, como é em Nova York. Aqui isso não aconteceu. As TPUs de São Paulo são fixas. É quase como abrir uma loja, só que sem a infra-estrutura (da loja)”, comenta. 

Para Caputo, pesaram contra o modelo de negócio os altos investimentos feitos por empreendedores do ramo, que cobravam caro por comida de rua. Assim, passada a excitação inicial, o público foi percebendo que “não havia glamour em comer embaixo do sol sentado em banquinho” e fez o caminho inverso, voltando para os restaurantes.

Negócios sem planejamento

Segundo a consultora do Sebrae-SP Juliana de Magalhães Berbert, a empolgação com o food truck também jogou contra o negócio, pois levou às ruas muitos empreendimentos que não fizeram planejamento adaptado a um negócio de rua e subestimaram custos operacionais. “Ocorreu uma gourmetização generalizada. A proposta de comida fácil, barata e acessível se viu deturpada, perdendo entusiastas e simpatizantes.”

Gustavo Lobo Geigner foi outro empreendedor que pulou fora do truck. Ele já tinha um restaurante de comida kosher quando comprou sua cozinha móvel, a Bulltruck, com a qual ficou por quatro anos. “Frequentava eventos, cervejarias e tinha um ponto fixo em um posto de gasolina. Mas, quando o público dos eventos caiu e os organizadores começaram a cobrar taxas abusivas, percebi que era a hora de vender o truck.”

Não se arrepende, no entanto, pois ficaram aprendizados, como saber montar uma logística de restauração para atender um grande número de gente em um espaço tão pequeno.

Sobreviventes multiplicam plataformas

Se para muitos o modelo não deu certo, alguns seguem na estrada e sem previsão de parada. É o caso do Buzina, que começou a funcionar em dezembro de 2013 e hoje tem até um restaurante em Pinheiros, na zona oeste de capital. Um dos dois trucks da marca roda de segunda a sábado, passando por pontos diferentes a cada dia da semana - o outro truck é destinado a eventos.

“Trabalhamos com um mix de pontos. Um deles é com TPU e há outros pontos de estacionamento privado com acesso público. Além disso, fazemos eventos e festas de aniversário, com ou sem o caminhão, e entregamos por delivery”, conta Jorge Gonzalez, sócio do Buzina ao lado de Márcio Silva. Segundo eles, um truck novo e equipado do Buzina custa R$ 145 mil.

Para Gonzalez, o sucesso da marca está na combinação de atendimento, ambiente (com mesas na calçada e música) e boa comida, com ingredientes de qualidade. “Não é só o hambúrguer que faz a pessoa voltar. Ele é só um pedacinho desta equação”, pondera Gonzalez. “Muitos clientes viraram amigos do Buzina. Acho que as pessoas não deram importância a isso. Muita gente olhou o truck apenas como business.”

Para quem já tem um food truck e quer se manter no mercado, a consultora do Sebrae indica a busca de parcerias com eventos em espaços privados, como condomínios, e a divulgação online. “Os chefs devem investir no marketing digital, conhecendo o perfil dos clientes e apostando na divulgação de seu itinerário”, diz Juliana.

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