Tiago Queiroz/Estadao
Tiago Queiroz/Estadao

Famoso por correr de terno, professor tenta lucrar com sua mania

Roberto Pratti, pioneiro na ultramaratona e figura conhecida no bairro do Ipiranga, em SP, usa leis de incentivo federais para oferecer provas gratuitas

Alessandro Lucchetti, Especial para O Estado de S. Paulo

09 de março de 2017 | 05h00

Roberto Losada Pratti, um dos primeiros ultramaratonistas do Brasil, corre desde a década de 70 por prazer e pelos benefícios à saúde. Agora, o ex-bancário e professor de matemática da Faculdade de São Paulo prepara-se para faturar com seu hobby, um mercado que cresce ano a ano, apesar da crise, há pelo menos dez anos.

Figura conhecida no bairro do Ipiranga, onde corre de terno e gravata indo e voltando do trabalho, Pratti quer aproveitar a oportunidade oferecida pelas leis federais de incentivo ao esporte para organizar eventos populares, sem a cobrança da taxa de inscrição.

Aos 61 anos, ele lançou uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) e estima que a verba federal solicitada, de R$ 10 mil, cobrirá os custos, orçados em R$ 9 mil. Pratti espera que a burocracia do Ministério do Esporte se movimente para que realize a Caminhada e Corrida Benéfica na Terceira Idade ainda neste semestre.

A intenção é reunir 200 participantes, que receberão um livro com dicas de treino e ouvirão uma palestra, no auditório do Clube Atlético Ypiranga, do médico Ruggero Bernardo Guidugli, que abordará os benefícios proporcionados à saúde por essa atividade física. O corredor não descarta efetivar outras parcerias e garimpar patrocínios para tornar mais rentável o evento.

Essa não vai ser a primeira experiência de Roberto Pratti como organizador de corridas de rua. Em 1995, ele montou a prova Vinicio Stancatti, nos arredores do Parque do Ipiranga. Recebeu contribuições do triatleta Dejair Brichesi, que é de uma família ligada à metalúrgica Deluma, voluntária no fornecimento de medalhas. O bolso do matemático cobriu outras despesas, como o suprimento de água aos mil inscritos.

O sucesso da empreitada chamou a atenção da Corpore (Corredores Paulistas Reunidos), que costumava, à época, realizar eventos com 200 participantes. Entusiasmado, Pratti se empenhou na divulgação do calendário de corridas, assinando colunas no jornal de bairro "O Patriota" e mantendo seu próprio tabloide, "O Pé 2". "Tirei muita gente do fumo e da droga, estimulando-os a correr", orgulha-se. "Sou de um tempo em que não existia corredor de rua. Quando eu passava correndo em frente aos bares, nos anos 80, era confundido como louco ou vagabundo.”

De graça. Captar recursos do governo vai ser uma estratégia fundamental para o corredor/empresário, que não quer cobrar pela inscrição de suas provas. Hoje, um evento como a Maratona de São Paulo, organizado pela Yescom, de Thadeus Kassabian, cobra mais de R$ 120 de inscrição e atrai dez mil participantes.

“Temos um milhão de corredores inscritos na nossa base”, diz Kassabian, que também participa da produção da São Silvestre e atua na organização da Meia Maratona do Rio e da Volta da Pampulha, em Belo Horizonte, entre outros."Quero trazer a corrida para toda a população. Uma inscrição em corrida custa caro. Vou oferecer provas bem organizadas e gratuitas", anuncia o educador. “Sou o Forrest Gump da vida real.”

Negócio caro. Apesar da boa vontade e do conhecimento na área, Pratti pode encontrar dificuldades para obter lucro com a empreitada. Segundo o dono da Yescom, a receita com as inscrições pode impressionar, mas a margem de lucro líquido flutua numa faixa de 8% a 12%. A complexidade de autorizações e alvarás requeridos demanda também muito trabalho. “Precisamos de 25 autorizações para realizar um evento”, diz Kassabian, referindo-se a um emaranhado burocrático que compreende prefeitura, órgãos de engenharia de tráfego e a federação de atletismo estadual, entre outros.

Diferenciação. Como o calendário de corridas em grandes centros urbanos está repleto, algumas empresas apostam na oferta de experiências mais amplas nos eventos para se diferenciar. É o caso da Iguana Sports, que organiza a WRun, específica para o público feminino. “Oferecemos tatuagem, serviço de cabeleireiros, degustação de produtos saudáveis. Temos menos eventos em relação à concorrência, com mais participantes”, diz Eliane Verderio, presidente da empresa.

A Norte Marketing, que realiza 200 eventos ao longo do ano, está expandindo suas fronteiras. “É um mercado bem duro. Encontramos dificuldades para crescer”, diz Gustavo Resende, diretor da área comercial da empresa, que se estruturou a partir da edição da revista O2. A empresa licenciou alguns de seus eventos, como seu carro-chefe, o Circuito das Estações, para realização de provas em Buenos Aires, Cidade do México, Santiago e Lima.

Kassabian acredita que haja um universo de dez milhões de corredores no Brasil. Em agosto do ano passado, o Diagnóstico Nacional do Esporte apontou que  45,9% dos brasileiros não praticam nenhuma atividade física. “Acreditamos na visão de que a necessidade de ter uma vida mais saudável vai reduzir o percentual de sedentários”, aposta Resende, de olho no crescimento do universo de praticantes de corrida.

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