Carlos Pendretti
Carlos Pendretti

Fabricantes de embalagens biodegradáveis furam bolha com produto nacional

Startups como Já Fui Mandioca e growPack desenvolvem tecnologia com rejeitos agrícolas; falta de estímulo do setor no País leva muitos negócios à importação, gerando pegadas de carbono

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

12 de setembro de 2021 | 05h02

Falta de fomento à pesquisa, ausência de estímulos fiscais e complexidade tributária estão no pacote que faz com que hoje o Brasil não tenha ainda uma produção consistente de embalagens biodegradáveis e recorra à importação de matéria-prima. Alguns pequenos negócios tecnológicos, porém, já apresentam soluções plant-based eficazes para atender à demanda crescente por materiais que, além de serem produzidos com rejeitos da produção agrícola ou matéria-prima imprópria para consumo humano, são biodegradáveis e compostáveis em condições domésticas.

É o caso da Já Fui Mandioca, de Diadema (SP), que criou uma tecnologia para fabricação limpa e com impacto positivo de bioembalagens biodegradáveis e compostáveis de fécula de mandioca, matéria-prima de fonte renovável.

Segundo o CEO Stelvio Mazza, eles procuraram, por meio da biomimética, copiar a função da casca de uma fruta. Baseada nos princípios da economia circular, a startup se guia pelo princípio “da terra para a terra”, em que os resíduos são de fato matéria-prima para um novo ciclo, em vez de virarem lixo. “A gente criou um material que não foi feito para durar porque não faz sentido tomar um sorvete que derrete em 30 segundos em um pote que vai durar 400 anos”, enfatiza.

Na produção, a fábrica usa o amido ou a fécula da mandioca brava. “Somos uma empresa 100% brasileira, da matéria-prima à tecnologia”, afirma o engenheiro, contando que o tubérculo foi escolhido porque o Brasil é o quarto maior produtor mundial de mandioca e por se tratar de um produto cultivado por pequenos produtores e agricultura familiar, praticantes de policulturas sustentáveis.

As embalagens possuem laudos de utilização com alimentos (inclusive em alta temperatura), biodegradação e compostagem, entre outros, usam 100 vezes menos água na produção, sequestram carbono da atmosfera e não há necessidade nem de compostagem doméstica para que a decomposição ocorra. Basta picar e jogar no jardim. 

O material se dissolve com a própria água da chuva em aproximadamente 20 dias e fertiliza o solo. De quebra, 1% de cada produto comercializado é destinado à ONG Mar Limpo, que atua no litoral norte de São Paulo.

Mazza diz que o desafio foi escalar a tecnologia para o comércio. “O Brasil não precisa ter só incentivos, mas deixar de ter desincentivos aos empreendedores”, ele destaca, revelando que foram necessárias 19 licenças para abrir a fábrica. “Faz sentido uma startup de pesquisa tecnológica disruptiva do tamanho da nossa ter que passar pelo mesmo processo de uma grande indústria?”, questiona.

“Quem fomenta o negócio acaba sendo o próprio cliente, que acredita no que fazemos e nos mantém vivos”, aponta o engenheiro, que fornece suas embalagens e copinhos a estabelecimentos como Da Mata Saladas, Purana, Le Botteghe di Leonardo, Frida e Mina e Walnuts.

Investimento da Ambev

Participante da segunda edição do programa Aceleradora 100+ da Ambev em 2020, a growPack é outra startup que desenvolveu uma tecnologia regenerativa para fabricar embalagens com compostos orgânicos. O projeto piloto será lançado em outubro para validar os materiais com os consumidores e a ideia é escalonar a produção já em 2022.

Com um ciclo de vida completamente sustentável, a embalagem da empresa é produzida com rejeitos agrícolas — basicamente a palha de milho — e de forma 100% mecânica, sem químicos e efluentes. 

Segundo a startup, a tecnologia é versátil e modular, podendo ser adaptada também para outras fontes alternativas de biomassa. O descarte acontece por compostagem ou reciclagem junto à cadeia do papel.

O material é semelhante ao papelão, mas tem maior funcionalidade, de acordo com a growPack. É adequado a microondas, forno, freezer e resiste até 36 horas em contato com líquidos. Além disso, a produção consome 80% menos água, reduz em 50% as emissões de gás carbônico e economiza 25% de energia elétrica em comparação com o papel cartão.

Falta de incentivos à produção brasileira

Segundo Fabiana Arruda, diretora da Soubio, que comercializa linhas de embalagens biodegradáveis de bagaço de cana e amido de milho, entre outras, a empresa precisa importar os materiais porque os componentes e tecnologias para desenvolver esses produtos em território nacional não existem — ao menos não em escala — para atender à demanda do mercado.

“A embalagem de cana, por exemplo, é 100% biodegradável e compostável em condições domésticas. Por que o governo não consegue trazer vantagens para a indústria local poder produzir essas embalagens?”, questiona a executiva. “O relacionamento com o cliente e a distribuição são nosso grande potencial e estamos sempre em busca de parceiros locais, mas hoje a importação é a solução para atender à demanda que existe no território nacional porque a produção local ainda é insuficiente”, explica.

A FNS também buscou a alternativa da importação por não ter abastecimento local em escala. Segundo Marcelo Maluf Haddad, gerente comercial da empresa, eles chegaram a fazer um estudo a pedido de um parceiro comercial que tinha interesse em implantar uma fábrica aqui. “Eles ficaram muito confusos com a carga tributária e se assustaram com o custo da energia elétrica. Na análise, concluíram que não valia a pena fabricar no Brasil.” 

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Para Fernanda Dantas, gerente de negócios da Qualifest, que também distribui essas embalagens, as dificuldades encontradas pela indústria de biodegradáveis não são muito diferentes das que a indústria nacional em geral enfrenta. Além do alto custo de infraestrutura e da carga tributária, porém, ela fala que há pouco interesse e apoio a projetos em universidades, que poderiam trazer novos materiais e produtos.

“O custo de fabricação no Brasil é altíssimo e uma matéria-prima importante e abundante no mercado nacional como a celulose, por exemplo, é commodity e, portanto, dolarizada”, exemplifica a engenheira química.

Vilão ou alternativa de sustentabilidade?

De acordo com o estudo Atlas do Plástico, lançado em dezembro passado pela Fundação Heinrich Böll, o planeta poderá atingir mais de 600 milhões de toneladas de plástico produzidas por ano quando chegarmos em 2025 — 50% a mais do que é produzido agora. Apesar de o material ser reciclável e dos esforços educativos de entidades do setor, das 11,3 toneladas de lixo plástico produzidas no Brasil anualmente, 7,7 milhões ainda vão para aterros sanitários e 2,4 milhões vão para céu aberto, segundo o World Wildlife Fund (WWF). 

Se de um lado insistir na educação para maximizar a adesão à reciclagem é essencial, especialistas acreditam que soluções biodegradáveis são bem-vindas como alternativas, contanto que a cadeia produtiva seja ecologicamente correta. Assim, a questão é se o impacto de alguns desses biodegradáveis é positivo, já que, salvo exceções, são produtos importados — e importar implica emissão de carbono.

“Quando falamos de sustentabilidade, tem diversos fatores a serem considerados. Um deles é a proximidade da matéria-prima dos produtos que nós utilizamos”, afirma a bióloga Ingrid Furlan Öberg, mestre em Planejamento Ambiental. “Se faz sentido ou não comprar biodegradáveis que vêm do outro lado do mundo e envolvem todo um transporte, é uma conta que a gente precisa colocar no papel.”

Para a especialista, no entanto, usar uma embalagem biodegradável importada ainda é melhor do que optar por um isopor de difícil reciclagem ou um plástico que tem grandes chances de ir parar no aterro. “A biodegradável provavelmente vem em um navio gigantesco com outras cargas, então o impacto desse transporte vai ser dividido, não é um transporte exclusivo dessa embalagem”, ela pondera. “É claro que é necessário fazer o cálculo exato da pegada de carbono, mas eu acredito que ainda vale a pena usar a embalagem biodegradável que vem do outro lado do mundo.” 

A bióloga sublinha que é necessário considerar também como a embalagem é produzida, quanto de água e energia é usado, que tipo de regime de trabalho adota e se ele é remunerado adequadamente. Outra questão é se as embalagens feitas para compostagem doméstica serão de fato compostadas. “Alguns desses produtos vão super bem em uma composteira doméstica. Mas é claro que o cidadão que não tem vai pôr no lixo comum e isso vai para um aterro sanitário, então não resolve muito a questão”, observa.

Uma solução, segundo ela, é que os restaurantes que usam essas embalagens no delivery estimulem que elas também sejam retornáveis em troca de um desconto na próxima compra, por exemplo. “É importante que as empresas realmente olhem para seu ciclo de produção e entendam de onde vem sua matéria-prima e se estão sendo responsáveis com toda a cadeia logística das embalagens.” 

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