Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Exportação de pet fatura com burocracia que vai de vacina a quarentena

Alta na migração de brasileiros para Portugal estimula negócios; viagem de animais envolve ainda passaporte e transporte como carga

Matheus Andrade, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2020 | 14h00

Especial para o Estado

Casais com menos filhos, casamentos tardios, pessoas morando sozinhas. As mudanças que levaram os pets a ocupar um lugar de destaque nas famílias são muitas, e a disposição para se gastar com os animais aumentou. Assim, um processo que não costuma ser barato nem simples, a viagem para o exterior, é visto como uma oportunidade de negócios, impulsionado com mais brasileiros indo morar no exterior.

A recente onda de migração brasileira para Portugal também ajudou a impulsionar o setor, dizem os empreendedores. Segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) daquele país, em 2019 houve um aumento de 43% no número de brasileiros vivendo em Portugal, recorde histórico.

A burocracia que envolve vacinas, documentos e o transporte do animal integram o pacote de preocupação dos donos de bichos, que contratam serviços de empresas como Pet Trip, Voe Pet e Pet Export. De acordo com dados da Euromonitor, a previsão de crescimento do mercado de pets, que incluem empresas desse tipo, é de 16% nos próximos cinco anos.

“No Brasil, 80% dos lares têm um pet, e 75% desses lares o consideram um membro da família. Quanto mais apreço pelo animal, mais dispostos estão a gastar”, avalia Maria Alice Narloch, analista de Pet Care da Euromonitor.

No caso da Pet Export, criada na capital paulista em 2016, o crescimento da empresa em 2019 foi de cerca de 25%, com uma média de 15 preparações veterinárias por mês. A empresa atua com serviços que vão de preparação do animal para uma viagem, passando pela emissão do Certificado Zoossanitário Internacional (CZI) até o despachante aduaneiro, que auxilia em aeroportos, estando presente no embarque em casos de ausência do dono.

Segundo o fundador da empresa, o veterinário Fillipi Copini, o processo de enviar animais para fora do Brasil ficou mais complicado nos últimos anos, por conta de regras de sorologia, por exemplo, o que impulsionou o serviço de consultoria especializada.

No caso dos exames de sorologia para raiva, ele afirma que atualmente nenhum laboratório no Brasil oferece a garantia aceita nos principais destinos. Assim, ele envia os procedimentos aos Estados Unidos, onde há laboratório certificado. Segundo ele, a sorologia para cães custa cerca de R$ 600.

Para Copini, parte do sucesso nesse tipo de negócio é o conforto oferecido aos donos de animais. “Tem alguns clientes que pensam que o animal pode morrer. O que fazemos é acalmar, mostrar fotos, dizer como é”, conta.

Quarentena e mudança definitiva de país

Os destinos possuem demandas diferentes em relação ao pet, assim como a aceitação de documentos. Desde 2016, o Brasil oferece um passaporte para os animais que saem daqui, no entanto o alcance é limitado aos membros do Mercosul e poucas outras nações. O porte do animal também influencia nesse setor, já que as companhias aéreas limitam o transporte de algumas raças.

Em geral, as aéreas autorizam embarques de animais de até 10 kg para viajar ao lado dos donos. Cães branquiocefálicos, como o bulldog, no entanto, podem sofrer mais de problemas respiratórios e são transportados como carga. Para tais casos, o espaço é climatizado e os animais são levados com monitoramento.

Em casos de animais transportados como carga, a viagem pode ficar cerca de cinco vezes mais cara, atingindo até US$ 2.000 (mais de R$ 8.000 na cotação atual).

Outros fatores influenciam no faturamento das empresas, como regras de outros países. A viagem para a Austrália, por exemplo, exige uma parada para quarentena em outro país, o que é uma preocupação para os donos. A Pet Export costuma enviar os animais para uma estada de dois meses no Chile e usam a tecnologia a seu favor.

“Criamos um grupo no Whatsapp com os proprietários, nós e o pessoal do canil no Chile. Mandamos ali informações, fotos”, explica Copini. Segundo entrevistados, esse tipo de processo pode ultrapassar os R$ 100 mil (em torno de US$ 25 mil) em alguns casos.

Seguindo o mesmo modelo de negócio, a médica veterinária Wendi Caetano criou a Voe Pet em Curitiba, em 2014, tendo como diferencial o serviço de courier (acompanhante). Na ocasião, um tutor viaja com o animal até o destino, trajeto acompanhado de informações e imagens.

Apesar de ser um serviço mais caro (já que inclui passagem de ida e volta de uma pessoa adulta para destino internacional), há demanda pela modalidade, garante Wendi, que já levou animais para os Estados Unidos e países da Europa. Cerca de 95% das viagens dos clientes que procuram a Voe Pet, diz ela, são para processos de mudança definitiva de país.

No caso da Pet Trip, fundada em São Paulo em 2015, cerca de 80% de seus procedimentos são relativos a mudanças definitivas de famílias brasileiras, dentre elas 70% para Portugal. No ano passado, a empresa registrou crescimento de quase 50% no faturamento.

O empreendedor Rodrigo Ascani vê no atendimento nas redes sociais um diferencial, levando em conta que boa parte dos processos burocráticos têm auxílio de documentos e conversas pelo Whatsapp. “Clientes já contaram que fecharam com a gente por respondermos mais rápido. Damos importância a essa agilidade.”

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