Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Eu quero criar um e-atendimento e não um e-commerce', revela CEO da Multicoisas

Inovação é a palavra de ordem de Lindolfo Martin, CEO da Multicoisas e um eterno entusiasta pelas novidades no empreendedorismo

Letícia Ginak, Especial para, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2017 | 09h57

Aos 23 anos, o destino profissional de Lindolfo Martin já estava traçado: ajudar e dar continuidade aos negócios da família. Mas a rigidez com que o pai geria a empresa e o pouco espaço para criar novos modelos fez com que Lindolfo deixasse não apenas sua posição na empresa familiar, mas também a cidade onde vivia - Maringá, no interior do Paraná - para inovar e empreender. Foi em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, que nasceu a Multicasa, embrião da Multicoisas, uma das maiores marcas especializadas em autosserviço com mais de 200 lojas espalhadas pelo País. Em entrevista ao Estadão, Lindolfo Martin, um dos palestrantes da Semana PRÓ-PME, fala um pouco sobre o início da Multicoisas e o interesse constante pela inovação da marca. 

:. Confira a programação completa do evento.: 



Como foi empreender nos anos de 1970 e 1980 e como a Multicasa se tornou a Multicoisas?

Cheguei em Campo Grande, uma capital nova onde vi oportunidade para empreender, apenas com a minha esposa. Aluguei um prédio de 100 m² e ao lado uma casa, onde iríamos viver. Constitui uma empresa individual, porque nessa época não existia empresa jurídica. Comecei como uma loja de hidráulica e elétrica, que tinha foco em empresas de construção e profissionais do meio, a Multicasa. Aos poucos, fui percebendo que a vizinhança procurava e precisava de algumas coisas para o dia a dia, para pequenos reparos em casa, como conserto de chuveiro e artigos para casa. Então decidi, em 1984, investir apenas nisso e criei a Multicoisas. Mas eu não vendia apenas produtos, eu também orientava e ajudava o cliente a consertar o que precisava com informação.


Você escolheu um modelo de expansão pouco conhecido na época, o franchising. Por que optou pelo modelo de franquias?

Eu não queria arriscar todos os meus recursos para fazer a expansão. Por isso, comecei a estudar um modelo em que eu pudesse encontrar pessoas que acreditassem na gente para investir capital. Fui para São Paulo e pesquisei muito sobre o formato de franquias e só em 1990 implantamos o modelo, sendo uma das primeiras redes de franquia do Brasil. Tive que mudar meu mindset, que era de produto, para o de conceito e tecnologia. O modelo deu certo porque em 2008, 18 anos depois, tivemos um crescimento orgânico de 60 lojas. Depois, com uma estratégia de expansão aplicada, conseguimos alcançar mais de 200 lojas em 2017.


O conhecimento é a base da Multicoisas. Explique sobre a Universidade que vocês criaram para a marca.

Compartilhar o conhecimento foi a forma que iniciamos a Mutlticoisas. A gente nunca vendeu só o produto, mas ajudávamos o cliente a utilizar, o conceito era a solução de problemas. Por isso, todas as lojas deveriam seguir esse padrão de atendimento, humano. Então criamos a Universidade Multicoisas, que capacita o franqueado para esse atendimento diferenciado. Temos cursos presenciais e a distância e, além disso, fazemos anualmente convenções com todos os franqueados, profissionalizando essa rede e também a gestão. Já estamos chegando na 30ª convenção.


O Sr. é um entusiasta da inovação e sempre buscou novidades para aperfeiçoar a marca. Por que ainda não investiu em um e-commerce para a Multicoisas?

Estamos estudando esse processo e aperfeiçoando como será isso, porque eu sei que não tem como fugir dessa realidade digital. Mas eu não quero entrar nisso de qualquer jeito. Não quero um e-commerce eu quero um e-atendimento. Até porque a Multicoisas não vende um produto que é uma necessidade que surge todo mês, como comprar comida, por exemplo. O cliente precisa de algum produto para um reparo e depois ele não vai comprar mais isso por muito tempo. E eu gosto da comunicação de gente com gente. Gente com máquina facilita e deixa a comunicação rápida para determinados casos, mas eu sempre acho que uma hora você precisa falar com alguém.


Apesar de ainda não ter um e-commerce, a Multicoisas tem presença digital, principalmente com o canal da marca no Youtube. Como surgiu essa ideia de criar conteúdo nas redes sociais?

Eu confesso que quando recebi um cheque do YouTube em casa eu não entendi nada. Tivemos um vídeo com muitos acessos e por isso recebemos um valor deles. Começamos a fazer esses vídeos de maneira muito simples e é assim até hoje, mas claro que o conteúdo é bem feito. Essa é mais uma demanda do universo digital, as empresas hoje têm que produzir conteúdo.


Você quis construir sua própria história, longe dos negócios da família. Como é a sua realidade hoje? Os sucessores são da família?

Você não pode obrigar um filho a ser o que ele não quer. Eu respeito a vocação. O que eu acho importante é que eles sejam bons acionistas. E a visão do acionista é diferente da visão do gestor. Eu já tenho um sucessor, que é o Fabian Magalhães. Construímos um relacionamento de 30 anos. Quando ele tinha 15 anos, vendi um dos primeiros computadores da loja para ele e perguntei se ele sabia programação, porque na época não adiantava ter um computador se não soubesse programar. Ele disse que sabia e então pedi para que ele prestasse serviços de programação para mim. Ele fez isso até os 18 anos, depois passou na universidade e seguiu seu caminho, mas nunca perdemos contato e ano passado eu o chamei para ser meu sucessor, o novo CEO.


Qual é o maior desafio de empreender no Brasil?

Estamos vivendo um momento de ruptura dos negócios no Brasil. E hoje, cada estado regulamenta o tipo de empresa que você terá. O empreendedor gasta muito mais com gestão fiscal do que com produtos. A regulamentação é absurda de todos os lados.



 

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