Segundo sindicato, queda no movimento força empresas a reduzirem os preços
Segundo sindicato, queda no movimento força empresas a reduzirem os preços

Estacionamentos alteram preços para driblar a crise

Na Avenida Paulista, valor da primeira hora chega a cair 20%; empresas que aumentaram valores sentem diminuição no movimento

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo,

07 de novembro de 2015 | 16h00

Estacionar o carro na Avenida Paulista ficou, nas últimas semanas, mais barato em alguns trechos de um dos endereços mais emblemáticos de São Paulo. Como estratégia para sobreviver ao período de retração econômica que vem assustando o consumidor e provocando cortes de despesas consideradas supérfluas, alguns estacionamentos diminuíram os preços das diárias. Esperam, assim, atrair mais clientes.

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É o caso de uma unidade da rede Estapar, presente em vários pontos da avenida. Localizado em um prédio comercial, o estacionamento diminuiu, há pouco mais de uma semana, em 20% o valor da primeira hora, que foi de R$ 20 para R$ 15. O motivo é a queda do movimento, acentuada nos últimos seis meses.

"Há um ano, vivíamos lotados. Duas das cinco empresas do prédio fecharam e hoje o que temos é o movimento da universidade", conta Diones Ismael Marques, funcionário da unidade há quatro anos. "A queda começou  mesmo em março. Quem está empregado tem medo de gastar, e quem pode, economiza até o último centavo", reflete. Por enquanto, porém, Marques ainda não constatou uma retomada de clientes em busca do preço mais baixo.

Em nota, a rede Estapar afirma que os preços reduzidos são aplicados apenas à faixa de horário entre 18h e 23h30 e serve especialmente aos alunos da Fundação Getúlio Vargas, localizada no prédio. "Os preços dos estacionamentos são estabelecidos por diversas variáveis, como valor da locação do imóvel e despesas com mão de obra, além da oferta de demanda em  microrregiões determinadas", informa o comunicado.

Ao lado, o estacionamento Servi Park também precisou reduzir o preço cobrado pela primeira hora, de R$ 20 para R$ 17. O motivo é o mesmo alegado pelo vizinho: baixo movimento. Neste mesmo período do ano passado, conta Danilo Ambrósio de Oliveira, responsável pelo estabelecimento, o estacionamento chegava a guardar 1800 carros por dia. Hoje a média fica por volta de 800.

"O ano todo foi devagar e é em todos os ramos. A crise pegou geral", constata. Para Oliveira, os movimentos recentes de interdição da Avenida para carros não influenciam no movimento. "Quem para aqui são os endinheirados, que não deixam de usar o carro", reflete.

No estacionamento Zenitram, a gerente Rosineide Batista dos Santos é categórica ao afirmar que 2015 é o pior ano dos últimos 18 anos em que trabalha na operação. Em frente, uma faixa anuncia uma promoção em letras vermelhas. A primeira meia hora, que antes custava R$ 12, foi reduzida para R$ 10. A hora cheia de R$ 15 é hoje uma das mais baratas da região.

Mesmo assim, o estacionamento continua a ver o movimento despencar em 50%. "Ninguém tem procurado o serviço de mensalista. Tem dias que recebemos 30 carros avulsos. Fica tudo vazio. Tanto que os funcionários que saem não são mais repostos. Não há contratações desde o ano passado", lamenta. "Estacionamento já deu dinheiro, moça”, diz Rosineide à reportagem, “hoje não dá mais".

Os valores dos estacionamentos na cidade também são uma preocupação do Sindicato das Empresas de Garagens e Estacionamentos do Estado de São Paulo (Sindepark), que tem aconselhado os associados a renegociarem os preços dos aluguéis para evitar repassar uma tarifa mais alta para o consumidor.

"Em função da crise econômica, houve uma considerável redução do número de usuários,  e as empresas, para manterem a sobrevivência e evitarem demissões, reduziram  até 30% o valor das tarifas em alguns casos, principalmente para mensalistas", conta, em nota, o presidente do sindicado, Marcelo Gait. "Neste ano, o Sindepark tem orientado os associados a procurar os proprietários de terrenos, prédios comerciais e empresariais, em busca da redução do aluguel pago pelas empresas de estacionamento, umas vez que os valores de locação para estes estabelecimentos ainda estão muito elevados."

Preço alto. Na contramão da redução, alguns estacionamentos aumentaram o preço para tentar amenizar a queda das receitas. Como resultado, o faturamento foi ladeira abaixo.

O Almira Park já nota uma queda brusca no movimento depois que elevou o valor da primeira hora de R$ 15 para R$ 18, há três meses. O manobrista Jailton Silva de Souza analisa que o movimento hoje é mantido pela localização do estacionamento, que fica embaixo de um banco. "O cliente não quer correr o risco de sair e andar dois passos que seja com dinheiro nas mãos. Ele vai parar aqui."

O mesmo aconteceu no Progress Park que, após o aumento da diária de R$ 35 para R$ 40, viu o número de carros estacionados diminuir em 30%. De acordo com Sergio Vieira, que trabalha há seis anos no empreendimento, há uma oscilação natural durante o início do ano, porém, em 2015, o freio no consumo foi mais intenso que o habitual. "Aqui, a vantagem é que estamos muito próximos de comércios”, diz ele, esperançoso com a volta dos clientes. “Quando as pessoas absorverem o aumento, vão entender que precisam parar aqui", aposta.

Receio. Ao lado do Consulado Italiano no Brasil, o estacionamento Trevo sempre se beneficiou da movimentação de pessoas no local. Porém, hoje os funcionários temem o reajuste anual de preços de diárias, que acontece sempre em dezembro no estabelecimento.

"Nem viajar as pessoas estão viajando mais", constata Bruno Candido da Silva, há três anos no estacionamento. Ele conta que o fluxo de carros reduziu 40% nos últimos quatro meses. "As pessoas reclamam bastante do preço”. De 200 carros em um dia, hoje o pátio abriga, no máximo 80 veículos. Na busca por mais uma fatia de mercado, foi instalado um bicicletário no local, mas até agora não houve procura.

Inflação. Apesar de ainda não aparecer nos números, a inflação de serviços, que influencia nos preços dos estacionamentos, tende a arrefecer nos próximos meses, conforme aposta o professor do MBA em Finanças do Insper, Alexandre Chaia. "Nos últimos dez anos, a renda da população aumentou e a busca por serviços cresceu. Em uma época de retração, como esta, esses preços livres tendem a apresentar uma queda", explica.  

Chaia pontua que, como os valores dos serviços são formados por demanda e oferta, a atividade do consumidor determina as oscilações de preço nesses casos. "Em vez de consumir, as pessoas preferem poupar", crava o especialista.

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