Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Aulas de programação para crianças são a nova 'escolinha de inglês'

Empresas focam em crianças e adolescentes e crescem em meio à demanda por profissionais de tecnologia no mercado de trabalho; modelos de negócio incluem parcerias com escolas regulares

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 05h00

A alta demanda por profissionais de tecnologia tem mostrado que o caminho é promissor e, para quem deseja, vale a pena investir em formação. E quanto antes, melhor. Há pelo menos seis anos, aulas de programação para crianças e adolescentes têm se tornado a nova escolinha de natação ou inglês no Brasil, uma oferta de empresas que aproveitam o momento para expandir o negócio.

Esse mercado de tecnologia tem propostas diversas e é disputado por empreendimentos como MadCode, Futura Code, SuperGeeks e Código Kid, que miram alunos entre 5 e 17 anos de idade. De forma lúdica, muitas delas usam jogos já existentes, como Minecraft, para ensinar e incentivam, inclusive, a criação de conteúdo para o YouTube.

Quem busca esse tipo de formação infanto-juvenil tem na mente a importância não só das habilidades técnicas, mas também comportamentais, as soft skills. “A Beatriz sempre mexeu com computadores e a ideia foi incentivá-la a ter mais contato com esse universo, entender se ela se desenvolveria na área. Com essa mudança do mundo, não dá para descartar a tecnologia em nenhum momento”, diz o engenheiro civil Fábio Caboclo, pai de Beatriz, de 16 anos, e Gabriel, de 10, alunos da escola de programação e robótica SuperGeeks.

Ele percebe que, além de ganharem autonomia com a máquina, “o que foi excelente na pandemia com aulas online”, os filhos desenvolveram um novo modo de pensar. “Eles têm uma percepção do trabalho que está por trás de tudo que fazem, têm questionamentos. O raciocínio lógico deles ficou mais afiado, requintado.”

Fundada em 2014 pelo casal Marco Giroto e Vanessa Ban, a SuperGeeks cresce junto com essa onda de buscas por educação tecnológica. O negócio foi pensado como franquia desde o início e as primeiras unidades foram vendidas no ano seguinte. Hoje, a rede conta com 45 escolas em todo o País e fatura anualmente de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões.

“A gente desbravou esse segmento no Brasil e começou a crescer por franquia. Tentamos ter unidades próprias e chegamos a cinco, mas, por questão de foco, acabamos repassando para franqueados”, diz o empresário que começou o empreendimento com uma dívida de R$ 300 mil, fruto de investimentos em negócios anteriores que não se sustentaram.

Ter foco foi um dos aprendizados que ele tirou das empresas anteriores. “Nos outros negócios, eu sempre acabava desfocando e criando outros. Isso fazia com que o negócio principal, que era meu ganha pão, começasse a decair. Com a SuperGeeks, foquei completamente e, agora que ela está andando sozinha, estou montando outro”, comenta ele, que agora é presidente do conselho da escola e, por isso, se envolve pouco no dia a dia.

Com a pandemia, algumas unidades da SuperGeeks fecharam (eram 50 em 2019), houve desistência de alunos que não puderam manter as aulas online e o faturamento encolheu 10%. Mas a rápida adaptação ao modelo virtual de ensino fez acelerar um projeto antigo de oferecer o conteúdo em regiões que não contam com pontos físicos.

A escola trabalha com três formatos de cursos: ensino a distância (com aulas assíncronas e sem instrutor), presencial e ao vivo no online (com instrutor). “Agora, estamos retomando e a procura aumentou de novo, as pessoas estão vendo a importância, muitos pais de alunos nos indicam para amigos, tem pais que abriram uma franquia”, celebra Giroto.

Novos negócios e parcerias

A Happy Code nasceu há seis anos e, com o passar do tempo e do crescimento, outras demandas surgiram e a companhia virou um hub educacional com novas propostas de ensino, atuando no Brasil com 49 unidades próprias, mais de 50 franquias e mais de 11 mil alunos.

“Durante quatro anos, a ênfase foi sempre no ensino de tecnologia. Depois, a gente começou a estudar e entender as necessidades do profissional do futuro e viu a forte necessidade, como uma grande dor principalmente dos pais, do ensino de educação financeira  e oratória”, explica William Matos, sócio e CEO da empresa que engloba a Happy Money e a Happy Speech, lançadas no ano passado.

As novas ramificações do negócio devem potencializar os resultados: o faturamento foi de R$ 11,5 milhões em 2021 e a projeção é de R$ 17 milhões para este ano. A empresa conta, ainda, com 20 operações em Portugal, dez na Espanha e planeja investir mais de R$ 7 milhões até 2024 na unidade conceito, inaugurada recentemente em Maringá, em novas tecnologias e no lançamento da nova marca.

“Tivemos crescimento exponencial nos três primeiros anos, de uma unidade piloto para 110. Na pandemia, houve retração do mercado educacional e foi o momento de repaginar a empresa. Estruturamos o novo modelo, investimos mais em tecnologias proprietárias e trouxemos os dois novos produtos”, diz Matos.

Tanto a Happy quanto a SuperGeeks incrementam o negócio por meio de parcerias com escolas regulares de ensino. Ainda que represente pouco no faturamento, esse modelo ajuda na visibilidade e expande as oportunidades para quem quer aprender. Os conteúdos são oferecidos como parte da grade curricular, como previsto na Base Nacional Comum Curricular, ou como atividade extracurricular.

Modelo totalmente online

Lançada há oito meses no Brasil, a edtech indiana Byju’s já se mostrou promissora na concorrência pelo ensino de programação e música. São 8 mil alunos em todo o País com expectativa de ultrapassar os 20 mil neste ano. Fernando Prado, diretor-geral da operação brasileira, diz que a adesão foi “surpreendentemente positiva”. “Até o fato dos alunos estarem acostumados com aulas online na pandemia facilitou a adesão”, comenta.

Fundada na Índia em 2011, a startup também expandiu para países como Austrália, Inglaterra e México ao atender um público de 6 a 15 anos de idade. As aulas são 100% online e ao vivo, sendo que a maioria é individual, com professora particular que acompanha o desenvolvimento do aluno por até 144 encontros. Outra modalidade é de grupos de quatro alunos para uma professora, o que permite troca de experiências. Em ambos, há flexibilidade de horários e dias.

No Brasil, a Byju’s seguiu com uma política que veio de fora: ter apenas mulheres como professoras. São mais de 650 programadoras brasileiras, muitas que atuam em outras empresas e, por vezes, não se viam lecionando. “Todo aprendizado é feito na prática, não tem aula teórica. Já na primeira aula, o aluno coda (cria códigos de programação) um jogo em Java, faz um projeto, aplicativo. Isso faz com que a criança se envolva muito”, diz Prado.

O executivo explica que a empresa atua tanto no modelo B2C (vendendo cursos diretamente aos consumidores) quanto no B2B. Neste último caso, escolas de ensino regular pode adquirir o serviço, e a startup busca parcerias com prefeituras e governos para expandir essa operação. “Tem escolas que já adotaram o curso como atividade extracurricular e tem outro produto que é entrar no currículo da escola.”

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