Arquivo pessoal
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'Enxergar valor onde ninguém vê': entenda como Ana criou e consolidou um brechó online

Desde 2014, Ana Mastrochirico vende peças garimpadas em bazares e brechós físicos; saiba, a partir da história da empreendedora, como criar o negócio

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 10h00

Antes relegado à visão negativa de um espaço cheio de roupas velhas e usadas, o brechó ganhou nova imagem e tornou-se alternativa para quem quer garimpar e empreender. No concorrido universo online de conteúdos e vendas, apostar em uma comunicação visual atraente e em embalagens personalizadas pode fazer o negócio ir mais longe. Afinal, a competição é feroz e, apenas no Instagram, uma busca pela hashtag #brecho resulta em quase 4 milhões de publicações.

Foi por meio dessa estratégia que a designer Ana Mastrochirico, do @_garimpo, viu seu brechó online dar um boom em 2016. Com materiais simples, como papel, linha, canetas e adesivos, ela dedica tempo para fazer pacotes que encantam os olhos. Uma boa produção de fotos dos looks, com atenção aos detalhes, também atrai clientes nas redes sociais. "Faço desde a parte de garimpar, fazer ajustes nas peças, lavar, passar, fotografar, venda, pacote, envio. Mas pacote e comunicação visual foram o mais importante", ela conta.

Por causa da pandemia, as vendas no O Garimpo Brechó foram paralisadas porque ficou inviável sair de casa em busca de roupas, mas Ana investiu em dar dicas sobre como vender mais na crise e fortaleceu as consultorias, que iniciou em 2019. O Projeto Mina já atendeu cerca de 50 pessoas e surgiu de uma demanda orgânica das leitoras do blog Garimpo, que queriam saber como empreender melhor no ramo de roupas usadas.

"A ideia é responder todas as perguntas, analisar o perfil do Instagram e indicar o que pode ser feito de diferente", explica a designer. Além do aconselhamento empresarial, ela oferece serviços de comunicação visual, oficinas, workshops e palestras. Tudo é baseado na experiência de mais de seis anos imersa nesse mundo somada à formação em Design Gráfico e especialização em Marketing e Comunicação de Moda. Atualmente, as vendas pelo brechó estão passando por uma reestruturação para seguir com um novo formato. Ana também tem focado na elaboração de um curso online que transmita tanto os conhecimentos práticos quanto os acadêmicos que adquiriu.

Para quem quer empreender na área, ela dá as dicas: "pensar que você pode e consegue, não ter medo de errar, se dispor a aprender e estudar parte financeira, ter organização - principalmente se empreender sozinho, estar ligado à moda, às tendências, mostrar que é possível se vestir bem de brechó e encarar o negócio como um negócio. Se encarar como brincadeira, como renda extra, não vai ter a mesma força, o mesmo potencial de crescimento".

Brechó 'era algo natural'

Desde criança, morando em Paraguaçu Paulista, interior de São Paulo, Ana acompanhava a mãe nos bazares da cidade. "Ela sempre gostou e eu também gosto de procurar algo de valor onde ninguém vê. No interior, as pessoas tinham vergonha, mas minha mãe conseguia coisas boas por um bom preço. Era algo natural." Quando tinha 17 anos, a família se mudou para Vitória, capital do Espírito Santo, onde ela começou a graduação.

"Na época, estágio pagando mal, comecei a ir em brechós e fazer looks para ir para a faculdade. As pessoas começaram a curtir e em 2014 comecei a vender para amigas, depois online pelo Instagram e foi indo assim, aos pouquinhos", relembra. Com esse contato, Ana começou a perceber que havia muitas dúvidas sobre onde achar peças, como saber se elas são de qualidade e tudo que pudesse envolver o consumo de segunda mão. Foi quando decidiu criar o blog para compartilhar a própria experiência, com temas que ela mesma não tinha encontrado antes.

Em 2016, ela se mudou para São Paulo a fim de participar de um programa de trainee que, posteriormente, rendeu freelas. Porém, sem conseguir se recolocar formalmente no mercado de trabalho, morando com o namorado na casa do padrastro dela, Ana precisava de um emprego para seguir com a própria vida.

"Pensei: 'o que eu sei fazer bem que envolve pouca grana?' Lembrei do brechó e foi aí que começou algo sério. Peguei os últimos R$ 100 que tinha e fui aos bazares garimpar várias peças que tinham certo apelo visual, de estilo. Comecei a fotografar e vender", conta. Uma vez que já tinha trabalhado como vendedora, ela aliou toda a expertise que tinha e investiu no negócio, começando com cerca de 25 itens.

No modelo em que trabalha, Ana investe mensalmente no negócio de acordo com o que faturou no mês anterior, pois tudo depende do valor das peças que encontra. "Tem mês que consigo colocar peças com preço mais alto, porque tem valor agregado mais interessante, então consigo faturar mais e, consequentemente, investir mais depois. Então, eu colocaria entre R$ 2 mil e R$ 4 mil mensais de faturamento."

Encarar o que estava fazendo como um empreendimento também fez a diferença para Ana. "Desde quando ia na feirinha em Vitória, sempre tentei manter essa visão de marca, negócio, não de estar fazendo um desapego qualquer. Se você não se dedica dessa forma, não tem muito futuro", diz. E assim como todo empreendedor, houve desafios e falhas.

"Quebrei a cabeça, tinha coisas que não consegui vender, tinha mês que o fluxo de grana era menor, outro maior." A parte financeira foi a qual teve de se dedicar um pouco mais. "Sou mais da criação do que do financeiro, então vi muitos vídeos, tentei me organizar, aprendi o básico sobre custo fixo, custo variável, valor agregado. Agora, sempre recomendo que todo mundo faça."

Falar sobre empreendedorismo veio de forma natural, pelas dúvidas que as seguidoras tinham, a maioria mulheres e mães que veem no brechó uma oportunidade de renda. Percebendo a oportunidade, Ana idealizou o Projeto Mina, que, além de consultorias, rendeu um workshop sobre vendas para brechós e pequenas marcas nas redes sociais por meio do Senac e palestra na Brasil Eco Fashion Week, evento de moda sustentável.

Ao longo do tempo, Ana viu o mercado de brechós de modificar, consolidando-se como um negócio de fato e com mais pessoas desmistificando o uso de roupas usadas. "Muitas pessoas falam que compram em brechós pelo preço, mas eu discordo, porque brechó sempre foi barato, bazares também", diz. Para ela, a internet foi muito responsável por alavancar a criação de novos brechós e fazer com que mais gente se interessasse pelas peças ali vendidas.

"Esse saber vender, comunicar diferente, entra na questão dos millennials, uma geração mais focada no propósito, no sustentável. Brechó tem, sim, valor mais acessível, mas tem exclusividade e discurso com propósito", avalia. E para tornar o assunto ainda mais próximo do consumidor que acha que roupas usadas precisam ser sempre baratas, Ana investe na apresentação dos bastidores. Por meio de vídeos curtos e animados, ela explica os custos por trás dos preços. "Hoje, existem vários tipos de brechó para todo tipo de público, com peças a R$ 10, R$ 150 e que vende grife a R$ 4 mil e a maioria das pessoas não entende isso."

 

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