Ricardo Perini
Ricardo Perini

Engenhocas nacionais invadem mercado do café, antes dominado por estrangeiras

Setor tomado por 'gadgets' de fora, de marcas como a japonesa Hario, agora é disputado por brasileiras como Pressca, Aram, Bravo e Woodskull

Ana Paula Boni, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2019 | 06h00

Há um par de anos o mundo dos coffee geeks, como são chamados os aficionados do café, rodopiava em torno de marcas estrangeiras como Hario, Bodum e Chemex. De 2016 para cá, a espiral de nomes passou a incluir Pressca, Bravo, Aram, Woodskull e Koar, marcas 100% brasileiras de utensílios para extrair café, moer grãos e fazer espuma de leite.

Esses pequenos empreendedores têm uma particularidade: são consumidores de cafés especiais e apaixonados pelas muitas formas de se preparar a bebida. Começaram a desenvolver produtos que eles mesmos queriam utilizar e viram a oportunidade de negócio. O setor de cafés especiais, ainda que um nicho pequeno, é crescente no País.

Hoje, o ramo representa cerca de 3% do total de 21 milhões de sacas de café produzidos no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Ainda assim, a produção do setor vem crescendo acima dos 20% nos últimos quatro anos, de acordo com pesquisa do Euromonitor encomendada pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA).

De olho nesse público, interessado em métodos manuais que realçam aromas e sabores da bebida, a Pressca foi lançada em 2016 como o primeiro método 100% criado e fabricado no Brasil. A engenhoca de material SAN (similar ao acrílico) e alta resistência térmica (até 130°C) foi desenvolvida pelo engenheiro Gerson Prates Amaro e é fabricada pela Naxos, de Santa Catarina.

Desde 2002 no ramo de utilidades domésticas, a Naxos passou a investir na Pressca como um braço da empresa e lançou outros produtos. No fim de 2017 veio o Dose Certa (colher medidora de café baseada em sistema de balança manual) e, no fim do ano passado, o espumador de leite manual, todo em material plástico.

“As pessoas querem ter uma experiência em casa como a da cafeteria, de forma prática. O espumador de leite é uma mostra clara disso, você não precisa de uma máquina ligada na tomada”, diz Ciro Pereira, presidente da Naxos, cujo faturamento anual gira em torno de R$ 11 milhões. Hoje, a Pressca representa 15% da empresa e deve chegar a 50% nos próximos cinco anos, conta Ciro, com o lançamento de novos produtos, como um moedor de café.

Foi a ideia de um moedor que motivou o engenheiro mecânico Gilberto dos Santos a quebrar a cabeça com a ajuda de aficionados em fóruns de café até lançar o Bravo, em 2016. Feito com mó italiana de aço carbono (importada) e estrutura que mistura alumínio e aço inox, o moedor de grãos é finalizado pelas mãos de um único funcionário, Gilberto, que dá o polimento final e monta o equipamento.

Versátil, serve para vários métodos de preparo do café de acordo com o número de voltas que se dá, manualmente, na manivela. Vendido em edições limitadas, o Bravo é disputado por coffee geeks apesar do preço (R$ 1.350). Até junho deve ser lançado o Bravito, mais leve e um pouco mais barato (R$ 1.000), para o qual já tem lista de cem interessados. Ainda que no ano passado Gilberto tenha vendido R$ 220 mil em produtos, ele mantém a administração de imóveis como primeira fonte de renda, mas a expectativa é que o Bravito dobre o seu faturamento.

Maycon Melo já vive da venda de sua engenhoca, a Aram, uma cafeteira de expresso totalmente manual (R$ 1.160). Designer de produto e colecionador de prêmios, Maycon decidiu ter a própria empresa em 2011, com a marca de óculos de haste de madeira Aram. Depois dos óculos, em 2016 lançou um financiamento coletivo para bancar a cafeteira manual e obteve mais de 700% da meta. 

Com sistema de pressão obtido a partir de uma rosca a manivela, que empurra a água contra um compartimento de café, a Aram é feita com peças de metal e madeira, com a ajuda de 20 pequenos fornecedores de Curitiba, onde Maycon vive. É em seu ateliê que as peças são todas testadas e finalizadas. No ano passado, foram mil máquinas vendidas e a marca expandiu revenda para países como Arábia Saudita e Alemanha. Para este ano, prepara o lançamento de acessórios, que podem ir de xícaras a compactadores.

Para o especialista em cafés e colunista do Paladar Ensei Neto, o lançamento de produtos como esses mostram que o mercado é receptivo à inovação brasileira. “O Brasil pode ser um celeiro. Nossos geeks estão tão antenados com o que acontece no mundo que suas inovações surpreendem gente lá fora.”

Com filtro de papel

Outros produtos recém-lançados buscam inspiração em métodos existentes, revelando que o café coado permite variadas nuances para extração. O Woodskull, criado por dois amigos curitibanos oriundos de agência de publicidade, é um coador cônico feito num bloco de madeira, onde se coloca filtro de papel, com espiral interior que ajuda o fluxo da água.

Inspirado no japonês Hario V60, suporte cônico que ficou bastante popular nos últimos anos em São Paulo, o coador representa 20% das vendas da marca, que faz outros produtos de madeira, diz o sócio Daniel Ferrarezi. Com fábrica em Curitiba com 10 funcionários, a Woodskull mantém desde agosto loja física em São Paulo.

A pernambucana Koar também se inspirou no formato cônico da Hario, combinado ao sanfonado da americana Kalita. Porta-filtro de cerâmica lançado em 2017, é produzido por ceramistas a partir de uma forma impressa em gesso em 3D.

Idealizada pelo publicitário Fernando Sá, pelo engenheiro mecatrônico Filipe Santiago e pela barista Lidiane Santos, a marca vendeu 2.500 peças (todas artesanais) no ano passado e agora prevê expansão. Deve lançar neste ano a versão do coador em porcelana e em acrílico, mais baratos, a serem fabricados em Santa Catarina.

Além disso, a marca também vai lançar o papel para coador cônico, diferente do modelo Melitta, e que poderá ser considerado o primeiro filtro de papel cônico 100% brasileiro, já devidamente patenteado.

Gigante do setor também mira nicho

As mudanças no mercado do café trouxeram novidades também para grandes marcas, cujo grosso da operação foca no commodity. A Melitta, que há dez anos lançou a linha de café Regiões Brasileiras para atingir o público mais exigente com a qualidade da bebida, passou a apostar desde o ano passado em outros produtos.

Lançou um e-commerce em agosto para comercializar também porta-filtro de porcelana, prensa francesa e chaleira de bico de ganso, vendida há anos pela Melitta lá fora. Como regula o fluxo de água para cafés filtrados, é sonho de consumo de dez entre dez coffee geeks.

Para o gerente de produto, João Domingos Michaliszyn, o site é o canal adequado para atingir esse público, já que os supermercados estão interessados em produtos de massa. “A gente está vendo esse modelo de negócio como startup. Temos um grupo pequeno de pessoas trabalhando só nisso.”

Novos lançamentos devem vir por aí, para, como diz João, aproveitar a atual fase mundial no café. “Depois de muitas tendências, estamos na fase do manual. É o chamado pour over. É crescente o controle da técnica.”

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