Andy Atkinson
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Empresas de inglês corporativo crescem com trabalho remoto e nomadismo digital

Startups de idiomas em nível empresarial aprimoram negócio e recebem investimentos de olho na alta demanda por proficiência em vagas de multinacionais; inteligência artificial é aliada

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

19 de maio de 2022 | 05h02

Uma pesquisa recente feita pela consultoria internacional de recrutamento Signium mostrou que as contratações de brasileiros em multinacionais aumentaram 50% em 2021 em relação ao ano anterior. Outro levantamento, da startup de recrutamento GeekHunter, apontou que o número de vagas no setor de tecnologia saltou 136% no ano passado no Brasil, sendo mais de 90% para home office. Com essa tendência da internacionalização do trabalho e do nomadismo digital, uma das maiores demandas é a de profissionais com domínio do inglês.

O Brasil, porém, está longe de ser referência nesse tema, ocupando o 60° lugar no ranking de proficiência em inglês de 2021, segundo a EF Education First. Na busca por qualificar seus talentos com a velocidade e a eficiência que o mercado exige, organizações estão investindo em cursos para seus colaboradores e fazendo com que as startups de educação (edtechs) especializadas em inglês corporativo cresçam a passos largos.

Um exemplo é a Slang, que cresceu 22 vezes em Receita Recorrente Anual entre janeiro de 2021 e janeiro de 2022, recebeu um aporte de US$ 14 milhões e triplicou o tamanho do time no final do ano passado. Presente no Brasil, no México, no Chile e na Colômbia, a startup tem entre seus fundadores o colombiano Diego Villegas, que teve a ideia de criá-la por necessidade própria. 

Quando vendeu sua antiga empresa e foi fazer um MBA no MIT (Massachusetts Institute of Technology), percebeu que ele e outros colegas tinham um problema em comum - a falta do inglês profissional, adaptado ao contexto do trabalho. Foi também no MIT que ele conheceu seu sócio na empreitada, o americano Kamran Khan. “Juntos decidimos atacar esse problema que assombra muitas empresas, que é o analfabetismo profissional.”

Com o que eles chamam de conteúdo hiperpersonalizado - criado para cada setor -, a Slang é adaptativa e orientada a dados. “Nós medimos o conhecimento dos alunos sobre os significados individuais de cada termo estudado, por meio de dimensões como as quatro habilidades linguísticas (leitura, escrita, escuta e conversação)”, explica. “A inteligência artificial utiliza esses dados para customizar o fluxo de atividades para cada aluno.”

Em relação ao conteúdo, o empreendedor fala que o time de especialistas da edtech tem um processo de desenvolvimento de curso que consiste em fazer uma pesquisa intensa para determinar o escopo (áreas a serem focadas, tópicos-chave), consultas com especialistas e análise de conteúdo - processo que transforma essa pesquisa em um curso da Slang, usando tecnologia de processamento de linguagem natural (NLP). 

Hoje a edtech oferece mais de 200 cursos para diferentes áreas e funções dentro de uma organização. Além das atividades online, os clientes têm acesso a sessões semanais ao vivo com professores para tirar dúvidas, aprender mais sobre a plataforma e fazer networking. 

“Nossa solução nos permite focar no que os alunos realmente precisam. Se uma pessoa demonstra dificuldade com determinado termo ou tópico, a plataforma encontra formas de manter o assunto ativo até que possa ser aprendido devidamente”, Villegas acrescenta. “Usamos tecnologia de ponta para oferecer um processo de aprendizagem modular e centrado no usuário, integrando-se ao trabalho diário.”

Tutor pedagógico

A Nulinga, plataforma com programas de inglês, espanhol e português, é outra startup de educação que também surfa a alta demanda e cresceu 4,2 vezes entre 2020 e 2021. De acordo com o CEO, Martin Perri, a chave da solução que eles implementaram para melhorar as habilidades linguísticas é o conteúdo interativo promovido em aulas virtuais.

“Acreditamos que em um processo como a educação para a aprendizagem de línguas, o papel do tutor pedagógico é fundamental. É por isso que as abordagens tradicionais são bem sucedidas, mas não se adaptaram às mudanças (após a pandemia).” Segundo ele, a ideia na Nulinga foi tentar diminuir as barreiras para o aprendizado constante. “Eles (alunos) escolhem seu idioma e sua modalidade, que pode ser grupo ou classe individual, fazem um teste on-line e escolhem sua disponibilidade.” No caso dos grupos, ele diz que não ultrapassam 4 pessoas, o que permite uma abordagem mais interativa e eficaz, com foco na conversação.

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Com clientes como Dafiti, Ambev, Kavak e Lalamove, no ano passado a edtech anunciou uma rodada de investimentos que arrecadou mais US$ 1 milhão, além de ter recebido investimentos do CEO da Gympass no valor de US$ 360 mil em 2020. Para 2022, o objetivo é expandir a presença no mercado brasileiro, ter mais clientes multinacionais e atingir a marca de mais de 150 clientes na carteira.

“Começamos o ano com mais de 2 mil alunos e pretendemos terminar com 4 mil. Nosso objetivo para o final do ano é arrecadar mais de R$ 25 milhões e continuar investindo na educação das companhias da América Latina.”

Curadoria de conteúdo e upskilling

Fundada em 2010 nos Estados Unidos, a Voxy é outra que conta com metodologia própria e inteligência artificial para inovar no treinamento do inglês. A empresa atua em 150 países e soma mais de 4 milhões de usuários espalhados pelo mundo, entre eles profissionais de empresas como Hershey, Colgate-Palmolive, Heineken e Eneva, entre outras. No Brasil desde 2013, a edtech registrou um crescimento de quase 60% em 2021. 

“Acompanhamos a crescente tendência de upskilling nas empresas. Além das soft skills, oferecemos conteúdos mais específicos como inglês para serviços financeiros, para engenharia de software, para a indústria automotiva, para vendas”, diz a VP de marketing e vendas da edtech, Eliane Iwasaki. Segundo ela, a plataforma disponibiliza mais de 55 mil horas de conteúdo em mais de 70 cursos.

A plataforma aplica inteligência artificial para criar currículos personalizados que se adaptam às necessidades, aos interesses pessoais e ao nível de proficiência de cada aluno. “Adaptando as lições em tempo real com base no desempenho do aluno, a inteligência artificial da Voxy busca reinventar a forma como as pessoas aprendem inglês, direcionando o ensino para os déficits de linguagem”, diz. No treinamento, que é 100% online, a plataforma também conta com professores que oferecem aulas remotas em tempo real, em grupo ou individuais. 

“O microlearning também é um formato essencial. Nos dias de hoje, as pessoas verificam seus celulares até nove vezes por hora e que a maioria não assiste a vídeos com mais de quatro minutos. É para responder a esse tipo de comportamento que o microlearning é utilizado, oferecendo lições curtas e que podem ser realizadas no próprio celular.”

A escola de negócios e formação Conquer viu crescer 50% as buscas pelo seu curso Conquer English nos últimos cinco meses. Dentre os profissionais que buscam proficiência no inglês, diz a empresa, 89% possuem curso superior completo e 70% disseram ter tido más experiências com o ensino tradicional do idioma, buscando novas formas de aprende

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