Luciana Silva
Luciana Silva

Empresas de mães que apoiam mães ganham força com home office

Creches parentais e startup de saúde veem demanda alta de suporte a mães na pandemia; fuga de mulheres do mercado de trabalho leva a maior disparidade de gênero

Luana Harumi, Especial para o Estadão

29 de maio de 2021 | 14h00

Em um amplo quintal verde, com estímulos à brincadeira, crianças interagem umas com as outras sob o olhar atento de mães, pais e cuidadoras. Essa é a proposta da recém-inaugurada creche parental Casa Benjamina, uma das iniciativas de apoio a famílias – especialmente mães – que têm ganhado força na pandemia, funcionando como uma rede de suporte para profissionais que se viram angustiadas em meio às demandas do trabalho no home office e do cuidado com os filhos.

Creches parentais, em que mães e pais se unem e se revezam para cuidar dos filhos uns dos outros, são inspiradas nos modelos que floresceram na França na década de 1960 e vêm crescendo no Brasil nos últimos anos. Na Casa Benjamina, o espaço de coworking permite que famílias possam continuar focando em suas carreiras.

Mariana Moraes, comunicadora na plataforma Verdes Marias e uma das fundadoras da Casa Benjamina, já havia tido uma experiência com creche parental em 2017, quando teve a primeira filha, e planejava resgatar o modelo quando a covid-19 se agravou no Brasil. O isolamento inicial pausou o projeto, mas sem um fim da pandemia em vista e cada vez mais exausta entre trabalho e cuidado com os filhos, ela retomou a ideia. 

“Eu senti um impacto muito grande no horário de trabalho. Não tinha uma reunião em que minha filha não pedia para fazer xixi”, ela conta, antes de ser interrompida pelo filho mais novo, de 2 anos.

Com mais sete famílias, Mariana alugou uma casa na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo, e estruturou o local com sistema baseado em separação de funções para cada pai e mãe. Por causa da pandemia, o cuidado é redobrado e a orientação é que as famílias não saiam muito daquele círculo de convivência, para que não tragam maiores riscos ao grupo.

“Foi muito importante a gente ter conseguido construir essa bolha, que ajuda muito no lado emocional das famílias”, diz ela. Não demorou para que a creche atraísse a curiosidade de outras mães, e agora o grupo se prepara para criar uma rede de creches parentais em outras regiões da cidade.

A ideia é “vender” a estrutura de planejamento para pais que têm o desejo de experimentar algo do tipo mas que não sabem por onde começar. A próxima unidade deve ser inaugurada em julho, também na Vila Madalena – e a lista de interessados no molde já conta com pelo menos 30 mães e pais.

Pioneira no mercado

A ideia de um espaço de trabalho amigável para mães e filhos não é novidade, mas tem ganhado ainda mais importância na pandemia. No Brasil, a aceleradora de negócios de mães empreendedoras B2Mamy opera, desde 2019, a Casa B2Mamy, espaço de coworking em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, onde mulheres podem trabalhar enquanto seus filhos são atendidos por monitores.

Com a crise da covid-19, a empresa buscou fortalecer ainda mais o apoio às mães no espaço virtual, com o lançamento da B2Mamy e-Place, plataforma digital gratuita de cursos de capacitação para mulheres. O site já conta com mais de 4 mil usuárias, segundo a cofundadora e CEO da B2Mamy, Dani Junco.

Ela conta que seu negócio cresceu quase três vezes desde o ano passado, mas destaca que grande parte das mulheres que começaram a empreender nesse período fez isso mais por necessidade do que por desejo. “Ainda não é uma decisão fácil. Foram muitas mulheres demitidas. E quando você recorta em camada social, você vê que as camadas mais altas têm uma flexibilidade maior”, diz.

A participação feminina no mercado ficou em 46,3% no segundo trimestre de 2020. Desde 1991, o número não caía abaixo dos 50% e desde 1990 não atingia valor tão baixo, quando ficou em 44,2%, segundo dados do IBGE. É o número mais baixo em 30 anos.

Um dos principais motivos para essa queda é justamente o cuidado com os filhos: entre o segundo trimestre de 2019 e o mesmo período de 2020, houve recuo de 7,7% da atuação de mulheres com crianças de até 10 anos em casa. 

Globalmente, a pandemia recuou 36 anos no avanço para reduzir a disparidade econômica entre homens e mulheres. Segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial divulgado em março de 2021, a estimativa é que a igualdade entre os gêneros só seja alcançada em 135,6 anos.

Já uma pesquisa realizada pelo Sebrae e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) no ano passado apontou que 42% das mulheres que já empreendiam passaram a comercializar novos produtos e/ou serviços durante a pandemia, taxa 5% maior que a do grupo de homens.

Aplicativo dá assistência a funcionários de empresas

A covid-19 também fez com que corporações voltassem um olhar mais atento a funcionárias que são mães. A Bloom, healthtech que desde 2019 trabalha com empresas para oferecer uma assistência digital a funcionários que têm ou planejam ter filhos, relata um crescimento de mais de 300% na procura pela instalação do serviço.

A head de parcerias da Bloom, Nathalia Goulart, destaca que o home office mudou a visão das companhias sobre a relação de colaboradores com seus filhos. Se antes a família era de certa forma “invisibilizada” e separada do espaço do escritório, quando tudo se concentra no domicílio fica mais difícil os dois mundos não se encontrarem. 

“Com os pais e as mães dentro de casa, e os filhos aparecendo nas chamadas, isso ficou muito claro. E, claro, os desafios se acumularam: falta de escola, falta de rede de apoio. As empresas despertaram para esse desafio.”

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O serviço funciona por meio de um aplicativo, por onde os pais podem entrar em contato com uma rede de profissionais especializados, inclusive psicólogos. A Bloom também busca instruir empresas parceiras a se atentarem mais a questões e necessidades familiares, especialmente por parte das mulheres. 

Uma pesquisa da Catho de 2018 com mais de 2,3 mil participantes mostrou que cerca de 30% das mulheres deixam o mercado de trabalho para se dedicar ao cuidado dos filhos - com os homens, esse número é 7%.

“A gente não tem como falar em políticas de equidade de gênero se não cuidar dessa mulher que é mãe. Se a gente quer atrair e reter esses talentos, a gente tem que falar sobre maternidade no ambiente corporativo.”

Mesmo antes da quarentena, as mulheres dedicavam, em média, 10,4 horas por semana a mais do que os homens em afazeres domésticos. A pandemia agravou a situação: segundo levantamento de 2020 da Fundação Oswaldo Cruz, 26,4% das mulheres disseram que o trabalho doméstico aumentou muito, mais que o dobro dos homens.

Apoio no espaço virtual

Com o ambiente digital ainda mais fortalecido durante a pandemia, mães de diversas partes do Brasil têm usado o espaço para se conectar e trocar experiências. A MaterNews, newsletter voltada para mães de crianças em primeira infância, viu seu público saltar de cerca de 400 assinantes, no final de 2019, para mais de 12 mil.

 

“Ou ela se identifica com o problema do outro, ou ela tem a mesma questão, então acaba ajudando. Compartilhar a dor de outra mãe e essa mãe ver que ela não está sozinha, isso gera uma identificação grande”, diz Alecsandra Zapparoli, jornalista fundadora da Galápagos Newsmaking, grupo responsável pela newsletter.

A MaterNews é escrita pela mãe e redatora Lívia Piccolo e distribuída gratuitamente com patrocínio do Hospital Sabará. Em 2020, a newsletter lançou um e-book com orientações sobre coronavírus em crianças e bebês, baixado quase 10 mil vezes.

A B2Mamy também notou um crescimento de sua comunidade virtual, o que levou a uma diversidade maior, com mães de todo o Brasil participando e se interessando pelos serviços. O grupo da aceleradora no Facebook, B2Manas, que tinha aproximadamente mil membros antes da pandemia, hoje conta com mais de 7 mil.

Dani Junco destaca que os pilares fundamentais para o sucesso dessas mães são planejamento, a conexão com uma comunidade e a capacitação – mas que o essencial é identificar uma rede de apoio. “Quem está jogando com você?”, diz.

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