Rafaela Duarte
Rafaela Duarte

Empresas de impacto combatem pobreza menstrual com educação e produto sustentável

Negócios de coletor ou absorvente lavável impactam comunidades com oficinas; quase 713 mil meninas vivem sem acesso a banheiros ou chuveiros em seus lares, diz Unicef

Jorge C. Carrasco, Especial para o Estadão

26 de dezembro de 2021 | 05h00

No início de dezembro, 20 mulheres detentas se juntaram em uma sala da Penitenciária Regional Dr. Agenor Martins Carvalho, em Ji-Paraná, no interior de Rondônia, para escutar duas jovens mulheres que visitam o local com o objetivo de ministrar uma oficina. Raíssa Kist, de 31 anos, e Victoria Castro, de 26, são recebidas com uma tímida cordialidade e olhares curiosos.

Elas já estão acostumadas. Cofundadoras da Herself — uma empresa de impacto que desenvolve absorventes laváveis de tecido — Raíssa e Victoria aliam o braço comercial da empresa à parte educacional, com oficinas sobre educação menstrual, empoderamento feminino e confecção de calcinhas especiais em institutos penais desde 2019, para contribuir na luta contra a pobreza menstrual no Brasil.

“As oficinas começam geralmente com um ambiente um pouco contraído”, diz Raíssa. “Eu começo perguntando: ‘O que vem na sua cabeça quando ouve a palavra menstruação?’. No início, as respostas variam entre termos como nojo, cólica ou ‘não estou grávida’, mas aos poucos elas passam a associar a menstruação com empoderamento, saúde da mulher ou liberdade.”

Desde o começo do projeto, a Herself já visitou seis presídios, cinco deles no Rio Grande do Sul. Para as sócias, as oficinas contribuem para a dignidade das mulheres e, uma vez que as participantes aprendem mais sobre seus corpos e desenvolvem habilidades técnicas, elas ganham a chance de se reinserir com mais sucesso na vida fora dos presídios. “A gente repassa o modelo para que elas possam aprender a confeccionar seus próprios absorventes.”

Os absorventes da Herself — costurados em tecido — são laváveis e reutilizáveis, produzidos por costureiras em Guaporé, Rio Grande do Sul, e vendidos principalmente pelo e-commerce da marca. A empresa, criada em 2017, diz ter crescido 157% no último ano com o aumento da demanda por produtos sustentáveis para a menstruação, mas não abre mão do lado educacional como um negócio de impacto. “Não fazia sentido apenas oferecer produtos menstruais sem primeiramente ajudar mais mulheres a entenderem melhor sua relação com a menstruação,” afirma Raíssa.

De acordo com a pesquisa Livre para Menstruar: pobreza menstrual e a educação de meninas, produzida em 2021 pela ONG Girl Up Brasil, com o apoio da Herself Educacional, 30% das brasileiras menstruam - ou seja, cerca de 60 milhões de mulheres e meninas. 

Para Victoria, que também é educadora sexual, mirar esse contingente com oficinas educativas é fundamental no negócio. “É uma ferramenta de autonomia para meninas, mulheres, e é essencial para a gente de fato combater a pobreza menstrual.”

Outra empresa que alia práticas empresariais com projetos educacionais para combater a pobreza menstrual é a Morada da Floresta. Fundada por Ana Paula Silva, especialista em ecologia feminina, educação perinatal e permacultura, a empresa entrou em julho de 2009 no mercado brasileiro com foco em composteiras domésticas e nos últimos anos vem desenvolvendo ações sociais em comunidades.

Em 2020, a Morada da Floresta desenvolveu o projeto Viva a Adolescência, com a colaboração de especialistas em ginecologia, utilizando a bagagem de menstruação sustentável da Ecoabs, marca de absorventes que faz parte da empresa.

Com o objetivo de dar suporte e orientação para pré-adolescentes, o projeto produziu o Diário Lunar Ecoabs, um livro que reúne dicas de alimentação, cuidados com o corpo, bem-estar e menstruação. A primeira escola a participar do projeto foi a EMEF Brigadeiro Faria Lima, na Aclimação, em São Paulo.

“O nosso projeto possibilita a participação delas em um programa para a orientação a respeito da menstruação, para tirar dúvidas e para ter um acompanhamento nessa fase tão importante, que costuma vir cheia de medos e inseguranças,” diz Ana Paula, segundo quem nos últimos três anos a empresa cresceu 50%.

Adolescentes privadas de condições sanitárias

Relatório publicado em maio pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e pela Unicef apontou que cerca de 713 mil meninas vivem sem acesso a banheiros ou chuveiros em seus lares e quase 200 mil alunas estão privadas de condições mínimas para cuidar da menstruação na escola.

A pesquisa, que vincula a dignidade menstrual aos direitos à água e saneamento, evidencia consequências da pobreza menstrual. “A pobreza menstrual é uma forma de pobreza multidimensional. É um fenômeno caracterizado pela falta de acesso a recursos, infraestrutura e conhecimento”, diz Anna Cunha, Oficial de Programa em Saúde Sexual e Reprodutiva do UNFPA. “O que a gente percebe é que situações de desigualdade de gênero, de extrema pobreza ou de crises humanitárias podem fazer com que a pobreza menstrual seja agravada, tanto por motivos de privação de direitos quanto por causa do estigma.”

As consequências, diz a especialistas, são ainda piores quando, por causa da vergonha, essas meninas acabam desistindo de frequentar as escolas. “Para mudar essa situação, são necessárias políticas públicas que consigam dialogar mais de perto com as mulheres no Brasil.”

No caso da Korui, fundada por Luisa Cardoso e que vende coletores menstruais laváveis e calcinhas absorventes, a empresa também tem um forte braço social. Em 2017, em parceria com a Raízes - Desenvolvimento Sustentável, a Korui fundou o projeto Dona do Meu Fluxo, com o qual assumiu o compromisso de promover educação menstrual em comunidades e doar, a cada 10 coletores vendidos, um para mulheres em situação de pobreza menstrual. 

“A gente não podia simplesmente dizer que ia doar uma certa quantidade de coletores, empacotar e mandar para algum lugar. As pessoas não iam usar, pois um produto tão diferente gera nas pessoas uma certa estranheza”, conta ela, segundo quem foram criados workshops que reúnem em torno de 50 mulheres por encontro.

Para Luisa, essas rodas são ambientes de troca e acolhimento. “Muita gente sente vergonha de falar sobre esse assunto, mas a gente conversa com tanta naturalidade e logo alguém levanta a mão para fazer uma pergunta, a gente interage, as pessoas falam sobre si, riem e a gente consegue criar um ambiente amigável.”

A equipe da Luisa coloca o pé na estrada todos os anos, visitando alguns dos lugares mais afastados do País, como o Território Indígena Xingu. Até hoje, a Korui já levou seus projetos a 21 comunidades. “Entender mais sobre seu corpo e sobre como se relacionar com a sua menstruação de forma saudável não apenas contribui com o bem-estar físico das meninas e mulheres, mas também dá segurança e dignidade.”

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