Daniel Gialluca
Daniel Gialluca

Empresas de bebidas apostam em ‘experiência’ para agregar valor à marca

Negócios de gim e cerveja, como Draco e Amázzoni, criam visitas à produção nas fábricas para fidelizar clientes e aumentar faturamento

Marina Dayrell, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2019 | 17h00

Ao criar uma fábrica própria para a produção de sua marca de gim, os sócios Rodrigo Marcuso e Paulo Moran se depararam com uma demanda de clientes querendo conhecer como as bebidas da Draco são criadas. Às pressas, montaram um plano de negócios para levar os primeiros interessados, em setembro, a passar um dia no local.

A estratégia, conhecida como economia de experiência, não é nova - há menções ao termo desde a década de 1980 -, mas a tecnologia e a sede por compartilhamento faz com que essa seja a aposta de negócios que querem se aproximar do cliente e aumentar o valor de suas marcas.

“As experiências hoje valem mais porque as outras coisas acabam se tornando corriqueiras. As pessoas buscam algo a mais, um entendimento melhor do que está por trás de um produto”, explica o coordenador do mestrado profissional em administração no Insper, Silvio Laban. 

Seguindo os moldes das vinícolas - já conhecidas por apresentar ao consumidor o processo de produção -, as visitas, que duram das 9h às 16h, em Engenheiro Coelho, no interior de São Paulo, alinham a vontade dos sócios de falar sobre a cultura do gim à experiência de criar um item personalizado.

“As pessoas confiam muito mais no produto que elas conhecem e na marca com que têm ligação. Queríamos mostrar o nosso processo de qualidade, mas fizemos um ambiente tão legal que vimos uma opção de turismo de experiência ligado à destilaria de gim”, conta Rodrigo. 

No tour (R$ 480 por pessoa), os clientes conhecem a unidade produtiva, participam de um processo de destilação e aprendem técnicas de drinques com um mixologista. Além de estarem inclusos o café da manhã e o almoço, quem participa da visita leva para casa o gim que ajudou a produzir, envasado com rótulos e lotes personalizados.

A marca aproveita dias e horários ociosos da produção com as visitas, sem ainda saber qual impacto essas experiências terão no faturamento. Para este ano, a expectativa de faturamento total do negócio é de R$ 3 milhões.

No fim da visita, comida e festa

Ainda no ramo do gim, a carioca Amázzoni oferece, desde 2017, a visita à fábrica - no Rio Paraíba, cerca de 130 quilômetros do Rio de Janeiro. “É a nossa ferramenta comercial mais poderosa e com a didática mais forte, pois é onde as pessoas conseguem ver como se faz o gim”, explica um dos sócios, o italiano Arturo Isola.

As visitas acontecem duas vezes por mês e custam, em média, R$ 500 por pessoa, com almoço, produção de gim e show com DJ. Em dois anos, a marca já recebeu cerca de 1.000 pessoas.

Motivados pela aposta de que o consumidor deseja entender de onde vem o produto que consome, os sócios Junia Falcão e Fabricio Almeida, da cervejaria ZalaZ, também passaram a oferecer a visita à fábrica neste ano. “Nós acreditamos que essa é uma forma de agregar valor a nossa marca. A proposta é apresentar experiência a quem vai à ZalaZ. Começamos como uma cervejaria, mas hoje buscamos ser mais do que só um copo de cerveja”, conta Junia. 

Nos sete meses desde que as visitas começaram, a fazenda que abriga a cervejaria na Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, já recebeu 200 pessoas para a visita. Por R$ 120, estão incluídos jantar (com produtos da fazenda e de produtores locais) e degustação de cervejas.

“A renda do jantar somada às compras que as pessoas fazem em nossa lojinha após a visita representam cerca de 15% do nosso faturamento total”, diz Fabricio.

Experiência como condição da marca

Donos da marca de azeite Oliq, criada em 2014 na Serra da Mantiqueira, Cristina Vicentin, Vera Masagão e Antônio Gomes encontraram na economia de experiência a chance de fazer o empreendimento prosperar.

Por ser artesanal, o produto chega com um preço elevado ao consumidor (R$ 44 a garrafa com 250ml), que, segundo Vera, ainda não conhece exatamente o que é um azeite extravirgem.

“Fomos descobrindo que o que faz o negócio girar é o contato direto com o público. A única possibilidade de conseguirmos trabalhar o azeite no mercado do jeito que fazemos é levando a pessoa para ver de perto a produção, conhecendo a história de quem fez e como fez”, diz. 

O tour pela fábrica custa R$ 15 por pessoa, valor praticamente simbólico, mas que cresce com o usual alto valor gasto pelos clientes na loja da fábrica ao final do passeio. Essas compras - incluindo azeite, geleia, doces e cafés - são responsáveis por metade do faturamento total da Oliq. Só em 2019, 3.600 pessoas fizeram a visita. “Para 2020, estamos construindo um restaurante e pensando no cardápio para completar o roteiro”, conta Vera.

SERVIÇO

Draco: visita + almoço (R$ 480 por pessoa). Próxima visita no dia 12 de outubro. Demais edições em outubro e novembro podem ser agendadas. Reservas: (11) 97247-7707 ou (19) 99979-2345.

Amázzoni: visita + almoço (cerca de R$ 500 por pessoa). Visitas suspensas em outubro devido a uma obra. Previsão é que voltem, duas vezes por mês, em novembro. Reservas: contato@amazzonigin.com.

ZalaZ: visita + jantar (R$ 120 por pessoa). Até o fim do ano: 4 e 11 de outubro, 1º e 14 de novembro, e 13 de dezembro. Reservas: (11) 98404-7855.

Oliq: visita guiada + degustação (R$ 15 por pessoa). De quinta a segunda: às 10h30, às 12h, às 13h30 e às 15h. Reservas: (11) 99115-9525 ou (35) 9998-9926.

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