Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Empresários brasileiros estão prontos para a crise, afirmam especialistas

Participantes do 1º Encontro Estadão PME debateram o futuro da economia

renato jakitas, estadão pme,

15 de novembro de 2011 | 07h06

Ainda é cedo para estimar o impacto que a crise na Europa - decorrente do descontrole de gastos públicos na zona do euro - causará na economia brasileira nos próximos meses. Mas, seja qual for a repercussão, o País está mais preparado do que há três anos, quando eclodiu a última recessão internacional.

Em geral, essa é a opinião dos analistas convidados para o 1º Encontro Estadão PME, que aconteceu na semana passada em São Paulo. Para eles, além de calejado com os sobressaltos do passado, o empreendedor fez bem seu dever de casa ao não ceder ao otimismo exacerbado dos últimos meses. E agora, na opinião dos especialistas, é preciso ter ainda mais cautela.

“Há uma incerteza enorme no mercado e a crise já chegou com força na Itália”, analisa Caio Megale, integrante da equipe econômica do banco Itaú. “Reviver 2008 não é o cenário mais provável, mas algo bastante plausível.” Mesmo preocupado, Megale adota um tom otimista por conta do desempenho dos empreendedores brasileiros, que reduziram os índices de endividamento e mantiveram uma curva ascendente de bons resultados.

“O empresário está menos alavancado. É como se estivéssemos dentro de um carro. Em 2008, batemos de frente com o muro a uma velocidade de 120 quilômetros por hora. Agora, se colidirmos, será a 70 (quilômetros por hora). Vamos nos machucar menos.”

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Por isso, apesar da preocupação com a crise europeia, o clima é de otimismo entre os pequenos empreendedores.

É isso o que constata o professor José Luiz Rossi Júnior, do Insper. “Estamos acostumados com freadas bruscas. O brasileiro pensa: ‘ok, vai diminuir o dinheiro e até afetar o meu negócio, mas é uma situação passageira’”, analisa. E também é o que aponta monitoramento realizado pelo Sebrae em São Paulo.

Mensalmente, a entidade aplica um questionário para três mil micro e pequenos empreendedores paulistas com o objetivo de avaliar, entre outros pontos, as expectativas do setor. Nas últimas edições do levantamento, a maior parte dos entrevistados demonstrou conhecimento sobre a ameaça de bancarrota grega, os reflexos disso no Brasil e, mesmo assim, está confiante no bom desempenho individual de seus negócios.

“Esse resultado indica que o brasileiro acredita em sua capacidade de gestão. Temos bons empreendedores. Aqui, se convive com as mais altas taxas de juros entre os países emergentes, câmbio desfavorável, a internet mais cara do mundo, alta carga tributária, 90 dias para abrir uma empresa e, mesmo assim, existem muitos novos negócios”, diz o superintendente do Sebrae-SP, Bruno Caetano, que também participou do evento.

CONSUMO LOCAL

Uma parte desse otimismo repousa, segundo os analistas, na crença de que o mercado interno continuará como alavanca do crescimento brasileiro. E a espera é que o consumo continue em alta na medida que permaneça o crescimento da oferta de empregos no País.

Dados coletados pelo Ministério do Trabalho indicam que o ritmo de carteiras assinadas mais que triplicou entre os anos de 2003 e 2010. E vale lembrar que a maioria das pequenas e médias empresas brasileiras (84%) se beneficia diretamente desse consumo propiciado pelo emprego. “A situação deve se manter inalterada enquanto os índices de geração de emprego continuarem dentro do patamar atual. Nosso setor ainda é muito sensível ao nível de emprego”, conta o superintendente do Sebrae.

COPA DO MUNDO

Outro ponto discutido durante o encontro, e que deve trazer alento à economia brasileira, é a proximidade da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, dois eventos que serão organizados pelo Brasil. Juntos, eles devem injetar R$ 142 bilhões no mercado interno até 2016, principalmente em obras de infraestrutura nas cidades que receberão as competições.

Uma parte equivalente a 20% desse montante, identifica o Sebrae, vai parar nas mãos de pequenos empresários.

“É uma oportunidade para o empreendedor conseguir entrar em negócios que ainda não tinha conseguido. Temos uma expectativa de que a Copa do Mundo possa aumentar em 30% a internacionalização das empresas”, estima Caio Megale, economista do banco Itaú.

Mas mesmo diante de sinais positivos na economia, será preciso estruturar cada vez mais o País, organizando e melhorando políticas de desenvolvimento de longo prazo, como defende o professor José Luiz.

“O Brasil não pode aproveitar a boa fase para sacrificar todo o avanço dessas décadas pensando unicamente no curto prazo. É preciso manter a mentalidade de combater a inflação e a corrupção sempre”, finaliza o professor do Insper.

:: O que pode afetar a economia brasileira ::

Eventos

A proximidade da Copa do Mundo e também das Olímpiadas deve ampliar os investimentos no Brasil. Estima-se uma injeção de R$ 142 bilhões até 2016.

Indústria

O recuo de 2% na produção industrial de São Paulo, na comparação entre agosto e setembro, é sinal da desaceleração da economia brasileira.

Europa

Nos próximos anos, é bom observar tudo o que acontece na economia de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, o bloco que hoje ameaça a Europa.

Inflação

O crescimento brasileiro renovou as preocupações com o avanço da inflação. A meta era de 4,5% em 2010, mas já está em 6,5% neste ano.

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