Sergio Castro/Estadão-16/1/2015
Sergio Castro/Estadão-16/1/2015

‘Empreender é um ato de rebeldia; e queremos continuar rebeldes'

Após vender o Pastifício Primo para a família Di Cunto, Ivan Bornes fala sobre a premiada rede que criou em São Paulo, os desafios de empreender e novos planos para o futuro

Daniel Fernandes, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 15h12

A atriz Fernanda Montenegro, em uma passagem de sua autobiografia, descreve as andanças de seus antepassados imigrantes pelo Brasil como uma jornada sem rumo. Seguia-se de lá para cá em busca da prosperidade. Em busca de sobrevivência. A jornada da família de Ivan Bornes até o Brasil, partindo do Uruguai na década de 1970, foi diferente em muitos aspectos da trajetória da família de Arlete algumas décadas antes. Mas foi igual em algo primordial: havia nos dois casos o desejo pela aventura, por aventurar-se rumo ao desconhecido.

Esse desejo fez com que Ivan fosse para a Europa com apenas 17 anos. Aos 21, morou nas montanhas argentinas de Mendoza. De aventura em aventura, abriu uma agência de turismo em Porto Alegre. Pouco depois, um pastifício na capital gaúcha e, novamente, vendeu tudo para partir rumo a São Paulo, cidade que deixou recentemente rumo ao Canadá.

Fora do País, recebeu a proposta de vender o negócio premiado que criou - o Pastifício Primo - para os irmãos Vicente e Andrea Di Cunto, sobrenome de peso da culinária paulista. Vendeu! E a decisão pode até ser considerada uma pequena loucura.

Mais uma? Que nada, Ivan agora vive a experiência da cozinha de alta performance. E anda procurando, meio na brincadeira, meio a sério, um novo negócio, um novo pastifício. "No final, empreender é um exercício de rebeldia, de autonomia, de liberdade e aventura, e queremos continuar rebeldes", diz ele, antigo colaborador do Blog do Empreendedor, deste Estadão PME. Confira abaixo trechos da entrevista concedida. 

Como surgiu o interesse da família Di Cunto no Pastifício Primo?

Algumas das melhores coisas da vida são assim mesmo, aparecem na hora certa. A venda do Primo não estava nos planos, pelo menos não no início, e foi uma ideia que surgiu de repente e foi se mostrando cada vez mais interessante, já que eu estava de mudança para o exterior. Tudo começou numa reunião com o meu contador, poucos dias antes de minha viagem [em 2019]. Ele me falou que um amigo dele estaria interessado em saber se o Primo estaria à venda, pois ele seria nosso vizinho da loja Pinheiros, e admirava nosso conceito de marca e nossos produtos. Naquele momento eu ainda não sabia que o Vicente era da famosa família Di Cunto, da Mooca.

Tivemos um par de reuniões rápidas para nos conhecer, e a empatia foi imediata. Desde o começo a conversa foi franca, aberta e transparente. O Vicente estava procurando um investimento no setor de gastronomia, um retorno às origens da família. Fui conhecer as instalações da Di Cunto e convidei o Vicente a conhecer nossas instalações. Visitamos todas as lojas. Para mim, ficou claro desde o primeiro momento que o Vicente Di Cunto é um empreendedor “de raiz”, preparado, mão na massa, e tem aquele brilho no olho que faz a diferença. E, acima de tudo, adora a gastronomia e a filosofia do Primo. Isso me convenceu de que ele seria a pessoa ideal para que o Primo continuasse a prosperar; a equipe ganhou um líder carismático para guiar a empresa ao próximo estágio de crescimento.

Vender a marca para uma família tradicional da gastronomia de São Paulo pesou?

Sim, sem dúvida, esse foi o fator mais importante de todos. A gastronomia é um segmento com muitas peculiaridades, não é para amadores. Além de expertise, é preciso ter muita paixão. O Vicente juntou um time dos sonhos para assumir o Primo, que inclui a irmã Andrea, talentosa cozinheira que trabalhou muitos anos na Itália, e o nosso contador Sandro Toledo também se juntou na empreitada. Isso me deu tranquilidade de que a equipe, os clientes e a empresa estão em boas mãos.

Você já tinha se mudado para o Canadá com a família. Como foi administrar o negócio à distância?

A Lurdete, minha esposa, jornalista, recebeu um convite para uma especialização em Montreal e avaliamos que o momento seria ideal para toda a família: as crianças estavam com 6 anos e já iniciando a escola primária, e nós fechando um ciclo de 10 anos de São Paulo. O chamado da aventura foi irresistível! Nos últimos dois anos eu já vinha passando alguns meses fora do Brasil, trabalhando “remoto”, e a grande maioria das pessoas nem percebia a diferença (risos). Essa experiência positiva foi muito importante e, na hora de tomar a decisão de mudar para o Canadá, foi fácil.

Desde o começo da empresa eu tive a preocupação de preparar o Primo para viver o dia a dia sem mim. Sempre investimos no desenvolvimento de lideranças fortes, com personalidade própria, eu sempre gostei de trabalhar com pessoas intensas e interessantes. Isso somado a que nos últimos anos a tecnologia ajudou a acelerar a autonomia operacional da empresa. Na minha experiência, o segredo para administrar a empresa à distância é a combinação de líderes com poder de decisão e tecnologia. Então, o desafio inicial era continuar administrando o pastifício à distância e vir ao Brasil a cada 2 ou 3 meses para questões burocráticas.

É claro que estar longe sempre tem riscos de médio e longo prazo, como a estagnação. E fica aquela sensação de que poderia ser melhor estando presente, dando suporte pessoalmente, visitando as lojas, falando com os clientes na linha de frente. Tudo isso foi considerado, os riscos avaliados, fizemos um planejamento com todos os líderes e trabalhamos para preparar bem o momento. No final, a empresa ficou mais forte e valorizada justamente por ser capaz de operar sem mim.

Queria voltar para o começo: como você chegou ao Brasil?

Sou nascido no vizinho Uruguai. Cheguei ao Brasil ainda criança, quando meus pais se mudaram de Montevideo para Porto Alegre no final dos anos 1970, um período político turbulento da história latino-americana. Sempre fui inquieto e curioso, e estimulado pelos meus pais, comecei a viajar e trabalhar muito cedo. Aos 17 anos meus pais me emanciparam e passei dois anos na Europa mochilando, aos 21 morei um ano nas montanhas argentinas de Mendoza. E assim fui de aventura em aventura até decidir me instalar em Porto Alegre, onde abri uma agência de turismo - o que me permitiu continuar viajando e ganhar algum dinheiro. Em 2005 decidi investir tudo na gastronomia e abri meu primeiro pastifício em Porto Alegre, que vendi para poder mudar para São Paulo e iniciar o Pastifício Primo em 2010.

Qual o legado que deixa em São Paulo?

Ninguém consegue fazer produto de qualidade todos os dias sem uma equipe de pessoas fodásticas. Esse é meu verdadeiro orgulho, o que eu pude ensinar a cada um e o que cada um me ensinou e que continua reverberando. É claro que eu tenho uma alegria enorme de ter fundado uma empresa inovadora na gastronomia, considerada por muitos a melhor do segmento. Começar do zero a partir de uma lojinha de Pinheiros até chegarmos a ser uma rede com franquias e fornecimento de massas a grandes empresas só foi possível graças às pessoas que acreditaram na ideia, no produto, na mensagem, que batalharam ao meu lado nas “trincheiras”. Tudo parece ser muito efêmero no mercado consumista de hoje, com tanta oferta de coisas. Mas é possível perceber nas lojas e nas mídias sociais do Primo como a empresa faz a diferença na vida das pessoas, como estamos presentes no dia a dia das famílias, e de como os clientes retribuem com tanto carinho e fidelidade. Tudo isso é muito emocionante.

Por que você decidiu empreender na gastronomia?

Minha família sempre valorizou o alimento, o ritual da comida, o pão, o vinho, o queijo, o leite, o azeite de oliva, a matéria prima. As reuniões de negócios de meus pais eram sempre na cozinha. Tudo acontecia na cozinha. E eu cresci preparando a comida em casa, ajudando meu pai a fazer vinho todos os anos, e desde criança já fui ensinado a cozinhar “pra me virar sozinho”. Tudo isso marcou a forma como eu me relaciono com o alimento até hoje, quando preparo a comida que meus filhos levam para a escola e quando ensino eles a cozinhar.

Por isso, não posso afirmar que empreender na gastronomia foi mero acaso, pois acredito que essa vontade já estava latente em mim. Sei que cada empreendedor tem sua própria jornada de descoberta para chegar no seu grande sonho, e para mim não foi um caminho fácil nem reto. No começo tive muitos negócios e fracassos que foram me polindo e educando. E finalmente, quando a visão de negócio do Pastifício se cristalizou, foi uma paixão imparável, quase irracional.

Quais foram as principais dificuldades que você enfrentou ao decidir iniciar um negócio? 

A vida do empreendedor é cheia de riscos, incertezas e sacrifícios, como a vida de todo mundo, acho eu. Mesmo depois de todos os perrengues, minhas lembranças são todas boas e divertidas. Acho que a principal dificuldade de todo empreendedor é enfrentar a dúvida – tanto dele próprio quanto dos outros – e correr atrás da visão de negócio. Me lembro que causou surpresa quando decidi vender meu negócio de turismo para investir no meu primeiro pastifício, ainda em Porto Alegre. Era o ano de 2005 e ainda não estava claro, como hoje em dia, o valor do produto artesanal, sem conservantes, sem química, a valorização da produção local. Naquela época, abrir um Pastifício todo de vidro, transparente, e dedicado unicamente a fazer massas foi visto como uma loucura. Depois, quando o Pastifício Italiano estava consagrado, fui visto novamente como louco quando vendi tudo para investir em São Paulo, começar de novo, no mercado mais concorrido, implacável e exigente do Brasil.

Existe um momento, aquele que te marcou para sempre, sobre empreender no Brasil?

Sim, há um momento especial, em 2012, quando ganhamos os primeiros prêmios de melhor Rotisseria de São Paulo (Revista Veja e Folha de São Paulo). Não foi pouca coisa: o mercado paulistano é a maior praça gastronômica da América Latina, uma das mais reconhecidas do mundo, tem muita gente boa fazendo comida boa. Ser eleito o melhor num ramo tão competitivo como o mundo das massas foi uma grande honra, e serviu para reafirmar nossa ética de trabalho e nosso caminho.

O que você está fazendo no Canadá?

Depois de algumas semanas que chegamos, eu já não estava sendo necessário no dia a dia do Primo no Brasil. Então comecei a ficar inquieto e ficava visitando pontos comerciais para – quem sabe? – abrir um Pastificio aqui (risos). Ficar olhando imóveis para abrir pastifícios é uma mania difícil de mudar, né? Mas antes de seguir nesse caminho recebi um convite irrecusável para trabalhar na implementação de um novo restaurante italiano em Montreal (onde mora), cuidado do setor de massas.

O restaurante TBSP pertence ao grupo de hotéis de luxo W Marriott, e é tudo o que eu poderia querer para fazer uma imersão na gastronomia de alta performance, me atualizar e ganhar experiência local, trabalhando junto com o premiado Chef Joris Larigaldie. Trabalho com produtos super frescos, uma tendência chamada “farm to table”, e claro que as massas são feitas todos os dias artesanalmente. Eu me sinto rejuvenescido e desafiado. E continuo olhando pontos para colocar um pastifício (risos). Me sinto muito sortudo de estar num dos lugares onde a alimentação do futuro já é praticada.

Há alguma ideia de retonar ao Brasil? Se voltar, pensa em empreender?

Para mim, empreender é respirar! Adoro criar e desenvolver um negócio desde a base, me adaptar ao mercado local, garimpando oportunidades. E a experiência acumulada é um valor que não quero perder. O Brasil, com todos os seus desafios e dificuldades, é uma escola de empreendedorismo fantástica – quando você sobrevive, claro! (risos). O Brasil sempre está nos planos, e às vezes também pensamos no Uruguai ou na Itália, lugares onde temos laços fortes. Como família, a gente pensa a nossa vida em ciclos de 5 anos em 5 anos - deve ser mania de empreendedor. No final, empreender é um exercício de rebeldia, de autonomia, de liberdade e aventura, e queremos continuar rebeldes.

Quais os conselhos que o Ivan de hoje daria para o Ivan que começou o Pastificio Primo?

Eu me aconselharia a não me deixar contaminar pelas dúvidas que, internamente ou de fora, apareceram nos momentos de maior dificuldade. Mas eu não sou uma pessoa que fica remoendo o passado, prefiro ficar atento ao presente e ao futuro, onde estão as oportunidades. Talvez por uma mania de empreendedor montanhista, estou sempre de olho no próximo cume.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.