Agnes Martins aproveitou as duas demissões seguidas para investir na confecção de bolsas
Agnes Martins aproveitou as duas demissões seguidas para investir na confecção de bolsas

Empreendedorismo por necessidade pode se transformar em uma oportunidade

Aumento do índice de desemprego no País deve estimular no futuro um conhecido tipo de empreendedorismo

Gisele Tamamar, Estadão PME,

25 de junho de 2015 | 07h13

Matéria atualizada às 10h

Se há dois anos a discussão era se o Brasil vivia uma situação de pleno emprego, hoje os indicadores de demissões preocupam. Em maio, a taxa de desocupação fechou em 6,7%, a maior para um mês de maio desde 2010, quando o desemprego foi de 7,5%, segundo o IBGE. Sem conseguir uma recolocação, parte desses trabalhadores tem no empreendedorismo uma alternativa.

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O que deve ocorrer no futuro, na visão dos especialistas, é um impacto dessa movimentação na taxa do empreendedorismo por necessidade, aquele buscado quando não existe melhor opção de trabalho ou renda. O risco está na tomada de decisões precipitadas e sem planejamento e o desafio é transformar necessidade em oportunidade.

Em 2014, a taxa de empreendedorismo por necessidade ficou em 29,1% ante 28,6% em 2013. Para a coordenadora da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), Simara Greco, é provável que o desemprego influencie essa participação, mas isso deve ser percebido, de fato, nos próximos anos.

Ainda mais no Brasil. Por aqui, 31% da população se enquadra em um perfil ‘situacionista’, segundo pesquisa da Endeavor. Isso quer dizer que apesar de muitos sonharem em ter o próprio negócio, na prática, eles só o fazem se de alguma forma forem levados a isso – pelo desemprego ou por uma oportunidade que ‘caiu no colo’.

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“Na nossa visão, não é necessariamente ruim o fato do mercado não estar aquecido e (haver) essa necessidade adicional de abrir um negócio. Tudo depende do que o empreendedor faz com isso. De forma geral, a necessidade pode se tornar uma grande oportunidade. Cabe ao empreendedor identificar o desafio”, destaca Pamella Gonçalves, diretora de Pesquisa e Mobilização da Endeavor.

Foi o que fez Jorge Alberto da Silva. Mas apenas na segunda tentativa e com a ajuda da mulher Lúcia. Em 1992, Silva, então diretor industrial de uma multinacional, se viu sem emprego e resolveu montar um pequeno mercado – desistiu devido aos assaltos constantes. Depois, ele apostou na ideia da mulher de investir nos bombons regionais. Ele chegou a desconfiar da ideia, afinal, a concorrência era alta na área, mas Lúcia o convenceu a ir em frente e aproveitar a experiência adquirida na multinacional para efetivamente empreender.

“Eu lembro que minha ideia era montar o negócio, deixar que ela trabalhasse para eu conseguir outro emprego. Mas a coisa começou a crescer de tal modo que não deu mais para sair”, lembra Silva, fundador da Bombons Finos da Amazônia, que hoje produz 12 toneladas por mês. Quando começou a empresa familiar, a média era de 300 quilos por ano. Como tinha um salário alto, Silva teve dificuldades de recolocação após a demissão. “Você fica sem rumo. Imagina trabalhar 13 anos em uma empresa. De repente você sai e acha que não sabe fazer mais nada.”

No caso de Agnes Martins, o negócio próprio começou após duas demissões, a última quando era auxiliar de faturamento. Após essa primeira experiência negativa, Agnes comprou uma máquina de costura, mas só começou a atuar após sair do emprego de analista de crédito. O dinheiro da rescisão foi utilizado para comprar linhas e tecidos para produzir bolsas. “Tudo começou como um hobby e uma fonte alternativa de renda. Era uma alternativa porque estava difícil de arrumar emprego”, conta Agnes, que depois se especializou, montou ateliê e hoje dá cursos.

Perigos. O risco de empreender após a perda do emprego está justamente em tomar decisões precipitadas. “O empreendedor tem um planejamento menor e toma decisões em um momento emocionalmente frágil, pressionado pela família e pelas pessoas que estão em volta dele”, pontua o professor de empreendedorismo do Insper, Marcelo Nakagawa.

Opinião. O presidente do Sebrae, Luiz Barretto, engrossa o coro dos que acreditam na transformação do empreendedorismo por necessidade em oportunidade. “Ficar desempregado pode fazer com que o empreendedor analise o mercado e perceba nichos que ainda não foram explorados ou ainda novos campos para expandir. Além disso, com capacitação e planejamento, é possível transformar a qualidade e o tipo do empreendedorismo”, afirma.

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