Alex Silva/Estadão
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Empreendedores negros e indígenas de moda são foco de programa de capacitação

Iniciativa é realizada pela PretaHub em parceria com o Instituto C&A e destina-se a pessoas de 18 a 80 anos; Adriana Barbosa, CEO do hub, espera promover negócios mais competitivos e alinhados ao mercado. Inscrições vão até 3 de agosto

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 09h48

Empreendedores negros, indígenas e afroindígenas que comandam negócios de moda são o foco do programa de capacitação online Afrolab Moda, realizado pela PretaHub e Instituto C&A. A iniciativa vai selecionar 20 pessoas para um processo de desenvolvimento pessoal e da empresa com conteúdos teóricos e práticos. No final, elas ainda poderão ter seus produtos divulgados nas redes sociais da Feira Preta, que em maio lançou um marketplace para fortalecer empreendimentos de grupos minorizados.

Os interessados precisam ter entre 18 e 80 anos, ser de regiões descentralizadas do Brasil e possuir um empreendimento em qualquer segmento, como roupas, calçados e acessórios, por exemplo. As inscrições estão abertas até o dia 3 de agosto e são feitas por meio do preenchimento de um formulário (clique aqui para acessar).

A capacitação virtual é dividida em duas fases. Na primeira, entre os dias 20 e 28 de agosto, os selecionados farão uma imersão em temas de autoconhecimento, criatividade, negócio, marketing digital, prototipagem e planificação. As atividades ocorrem pelas plataformas Zoom, Google Classroom e WhatsApp, com conversas ao vivo no período da noite e tarefas para desenvolver em casa durante o dia.

Na segunda fase, os empreendedores vão trabalhar na criação do Catálogo Afrolab Moda by Instituto C&A, entre agosto e setembro, com produtos das próprias marcas. Os itens serão divulgados nas redes sociais da Feira Preta. Fundadora do evento e CEO do PretaHub, Adriana Barbosa será uma das facilitadoras do projeto e vai acompanhar toda a jornada dos participantes.

“A expectativa é que tenhamos negócios mais competitivos e alinhados com o mercado da moda. Ao final, que tenhamos empreendedores que possam fazer collabs com as grandes marcas como a C&A”, diz ela sobre o que se espera do projeto.

Adriana lembra que o empreendedorismo da população negra ocorre desde o processo de abolição da escravatura, há pelo menos 134 anos. “Prova disso são as mulheres dos tabuleiros, as mulheres das feiras e mercados de ganhos.” Porém, esse grupo ainda permanece atrelado ao perfil de microempreendimento.

“São nano e micronegócios, em sua maioria de base familiar, em que a rede de suporte são do núcleo familiar. São negócios que trazem um cunho de engajamento ativista, racial, atentos às especificidades de consumo das populações negras e indígenas”, ela descreve. “Mas, por conta da desigualdade racial e social, estão atreladas ao microempreendedorismo.”

Em 2014, haviam 12,8 milhões de empreendedores negros no Brasil, segundo pesquisa do Sebrae. Desses, quase 2% atuava na indústria com confecção de vestuário e 2,3% trabalhava com o segmento no setor de comércio. De lá para cá, estima-se que eles já sejam 14 milhões, mas não há levantamentos específicos sobre o ramo de atuação.

Já pesquisa Afroempreendedorismo Brasil, desenvolvida em parceria pela Inventivos, Movimento Black Money e RD Station, mostrou que, dos 701 donos de negócio respondentes, a maioria é mulher cis (61,5%), tem entre 25 e 44 anos (68,2%) e mais da metade vende diretamente para o consumidor.

Parceria impulsiona negócios e alia propósito da empresa

O investimento do Instituto C&A no projeto está alinhado com a nova fase da organização, mais preocupada em mitigar os impactos negativos da cadeia de produção da moda e promover o trabalho de grupos minorizados.

“No ano passado, a gente focou em estruturar um programa no qual pudesse investir em organizações de base que olhavam para grupos sociais como população negra, imigrantes, egressos do sistema prisional. São grupos com dificuldade de entrar no mercado de trabalho e que têm explorado a moda como forma de desenvolver o empreendedorismo, o potencial criativo”, diz Gustavo Narciso, gerente executivo do instituto.

Ao conhecer os resultados da primeira edição do Afrolab Moda, e tendo os mais de 20 anos de experiência da Adriana com afroempreendedorismo, a junção é promissora. "A gente traz possibilidade de conexão desses empreendedores com os voluntários da C&A para troca de conhecimentos, mentoria e suporte a partir do aprendizado que a C&A tem no sistema de varejo", completa Narciso. Colaboradores da loja que atuam na área de produto, RH, tecnologia, e-commerce, por exemplo, vão mentorear um participante de acordo com as necessidades dele.

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Adriana acrescenta que a parceria, além de dar continuidade ao que foi construído neste ano com educação, "terá ainda o fomento com recursos financeiros para o desenvolvimento de coleções, e escoamento dos produtos no marketplace da Feira Preta". O edital prevê ajuda financeira de R$ 4 mil por empreendedor, como forma de investimento no negócio e para suprir o tempo que a pessoa ficará longe da empresa enquanto se dedica à capacitação.

Diversidade na moda

O PretaHub também vai ajudar a expandir o projeto piloto Minha C&A, que já permite a qualquer pessoa física ter uma lojinha dentro do e-commerce da marca e ganhar uma comissão pela venda dos produtos escolhidos por ela. Agora, a iniciativa conta com consultoras do Garimpo da Preta, projeto do Instituto Feira Preta que também capacita afroempreendedores da moda.

 “Vimos que nossas consultoras eram, na maioria, brancas, de classe média, com muitos seguidores. Essa será uma oportunidade de tornar a plataforma mais democrática e diversa, com possibilidade de elas terem renda sem investir um real”, diz Narciso.

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