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Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Empreendedores dão exemplo de criatividade em setores mais impactados

Segmentos como cinema, restaurantes e eventos sofrem com falta de contato social, mas donos de negócios mostram resiliência para inovar e até expandir na pandemia

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

20 de março de 2021 | 17h00

Depois da retomada gradual no faturamento ao longo do segundo semestre de 2020, as pequenas e médias empresas voltaram a ser atingidas pela nova onda da pandemia do coronavírus, registrada no início de 2021. De acordo com a 10ª edição da pesquisa “O Impacto da Pandemia do Coronavírus nos Pequenos Negócios”, do Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), a recuperação vinha estável desde abril - momento mais agudo da crise, quando o faturamento dos negócios despencou em 70%. 

Agora, com nova alta nas restrições de circulação, os resultados voltaram ao patamar de agosto do ano passado, em que a perda média foi de 40%, mostra a pesquisa. Entre os entrevistados, 57% afirmam que estão com muita dificuldade para manter seus negócios.

A economia como um todo sofreu o baque, mas empresas de setores mais afetados, como o comércio não essencial (que inclui bares e restaurantes) e os segmentos de audiovisual e de eventos, abalados pela falta de contato social, tiveram que se reinventar por completo para sobreviver ao abre-e-fecha. 

Se na primeira onda o desespero predominou, no entanto, agora a experiência fala mais alto. “Quando a pandemia estourou eu tomei a decisão de não abrir o restaurante antes mesmo do decreto e fiquei uma semana quebrando a cabeça sozinho, pensando em como nos manter em pé”, relata o chef Luiz Filipe Souza, que comanda o restaurante italiano Evvai e a hamburgueria Fat Cow, em São Paulo.

Para ele, o maior desafio era transferir o alto nível técnico da cozinha do Evvai para uma caixinha de delivery. “Parecia impossível”, lembra. Mas a “bugada”, segundo o chef, foi rápida. A primeira iniciativa foi deixar o menu-degustação de lado por um tempo e eleger pratos com perfil mais afetivo e que viajassem bem. 

Souza descobriu que vinha vivendo sob regras muito rígidas na casa. “Foi possível a gente se permitir fazer coisas novas e até se livrar de alguns pesos desnecessários”, explica o chef, que chegou a incluir no delivery um paillard da infância e o estrogonofe que cozinhava para os funcionários. 

Depois de alguns meses, já amadurecidos e movidos pelo desafio, ele e a equipe decidiram encarar de novo a ideia do menu-degustação na caixa. O resultado foi o Expresso Oriundi, que leva à casa dos clientes uma linha do tempo com sete ícones do Evvai. 

A reinvenção não parou por aí. Souza aproveitou a expertise recém-adquirida no delivery para inaugurar, em plena pandemia, a pizzaria Evv.ita e o Fast Cow - espécie de irmão caçula da hamburgueria Fat Cow, com menu mais enxuto e acessível. Ele abriu ainda o Mercato Evvai, e-commerce de rotisseria, vinhos e itens de pequenos produtores que abastecem o restaurante.

“Foi uma forma de manter vivos os fornecedores que precisavam escoar a produção e não tinham contato com o cliente final ”, afirma o chef, que também armou uma linha de frente para reforçar a renda dos funcionários. A loja online Blue Cookie, com biscoitos que ele preparou despretensiosamente em uma tarde da pandemia, tem todo o lucro revertido para os funcionários, como forma de substituir a gorjeta que deixaram de receber.

“É um pessoal que arregaçou as mangas e se expôs a riscos para ajudar”, diz o empreendedor, que viu a relação mudar com a iniciativa. “Eles se sentiram incluídos e mais motivados.”

Luz, câmera e muita ação

Quase um ano antes da chegada da pandemia, o cineasta André Sturm, que dirige o Petra Belas Artes, já tinha passado por um momento difícil. Ao perder o patrocínio da Caixa Econômica Federal, o cinema - um dos mais antigos de São Paulo - teria que fechar as portas. Foi a entrada da cerveja Petra como patrocinadora que mudou a situação. 

Quando a pandemia veio para fechar as portas de todos, porém, Sturm soube agir rápido. “O cinema tem dois custos principais, que são o aluguel e a mão de obra”, explica. “No médio prazo, não teríamos recursos para manter.”

A primeira iniciativa foi fazer o crowdfunding Belas Artes Meu Amor, que tinha meta de arrecadar R$ 10 mil e alcançou mais de R$ 60 mil em doações, dando fôlego para pagar a equipe, enquanto a Petra arcava com o aluguel do espaço. “Depois fui atrás do governo do Estado para conseguir montar um drive-in a céu aberto, que seria uma boa saída para o momento de distanciamento social”, conta. 

A ideia deu certo e um decreto liberou a modalidade. O Belas Artes Drive-in, que ocupou o Memorial da América Latina em junho e julho de 2020, exibiu 36 filmes em 65 sessões. “Foi o drive-in de maior público do Brasil”, diz Sturm. “Olhamos para trás para poder ir para a frente.”

E teve também um olhar para o presente. O streaming Petra Belas Artes À La Carte surgiu no final de 2019, mas era ainda uma versão beta, com lançamento programado para abril de 2020. “Foi a coisa boa dentro da coisa ruim”, fala o cineasta, que ofereceu gratuidade no primeiro mês de assinatura, quando todos estavam em casa, batendo 1,1 milhão de acessos. 

O streaming tem um custo alto e precisou de investimentos iniciais, mas hoje já é autossuficiente. “É também um jeito de manter o conceito do bom cinema vivo e proativo.”

No guarda-chuva do Belas Artes Grupo, que foi oficializado em julho, tem ainda a distribuidora Pandora Filmes e a Petra Belas Artes Digital, plataforma gratuita lançada esta semana no Youtube com conteúdo sobre os bastidores do audiovisual. 

“A lição que tirei é que não dá para ficar esperando ajuda, tem que ir atrás e resolver os problemas”, afirma Sturm, que também precisou aprender a hora de dizer “chega”. Primeiro cinema a reabrir as portas quando houve a flexibilização, o Petra Belas Artes, nessa nova onda de fechamento, só voltará a operar quando a vacinação estiver em estágio avançado. “É uma situação dialética porque posso garantir que meu cinema é 100% seguro, mas não posso falar o mesmo da porta para fora”, ele justifica.

Delivery de festa na caixa

Indo de vento em popa no começo de 2020, com agenda fixa de eventos corporativos e festas particulares fechadas, a empresária Adriana Malouf, que trabalha com decoração, cenografia e arquitetura de eventos, conta que ficou arrasada no começo da pandemia, com seu setor sendo um dos mais afetados

“A maioria preferiu não cancelar, mas quando teve que adiar pela segunda ou terceira vez acabou desistindo”, relata. Da média de três eventos por mês ela foi para o zero. “Fiquei em choque”, lembra a empresária. 

Foi quando a cunhada dela falou que a mãe ia completar 70 anos e pediu que fizesse uma caixa de presente, já que não poderiam comemorar a data juntas por conta do isolamento. “Era um jeito de aquecer o coração numa fase tão difícil”, afirma Malouf. E esse foi o pulo do gato para ressignificar o negócio. Além dos kits de presentes, que trazem itens como flores, chocolates e balões personalizados, a empresária também lançou a Festa na Caixa, em que cada “convidado virtual” recebe sua caixa personalizada e a festa acontece pelo Zoom. 

A demanda é variada, de festas infantis a comemorações corporativas. “Comecei a trabalhar como louca e até chamei a empresa de transportes dos tempos de eventos para fazer as entregas”, ela comemora. 

Os kits vão se tornar um braço definitivo da empresa, segundo a empresária. “Criei um networking importante e fiz muitos contatos novos, para quem divulgo inclusive meu trabalho anterior, que pretendo retomar quando tudo voltar”, fala. “Mas minha área foi a primeira a parar e com certeza vai ser a última a retomar. A criatividade está sendo fundamental, tanto na minha vida pessoal quanto profissional.”

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