Alex Dantas
Em Salvador, a 2ª edição do programa da Vale do Dendê, voltada a bares e restaurantes, tem inscrições até 15 de julho. Alex Dantas

Empreendedores apontam barreiras a negócios negros além do dinheiro

Na área da capacitação, iniciativas buscam criar um ambiente de permanência sustentável dos profissionais negros no mercado de trabalho e diminuir a desigualdade racial

Julliana Martins e Pablo Santana, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 06h07

ESPECIAL PARA O ESTADO

A visibilidade do ecossistema negro ajuda na autoestima dos empreendedores negros e, a partir do momento em que eles começam a se ver como empresários, conseguem alavancar os resultados de maneira mais efetiva, analisa o cofundador da Diáspora.Black, Antonio Pita.

Foi esse empoderamento que fez com que a Diáspora.Black, plataforma de hospedagens para negros similar ao Airbnb, saísse da posição de acelerada e passasse a apoiar outros empreendimentos, como parte do Afrohub.

“Entendemos que o próximo passo da Diáspora é o fortalecimento do espírito financeiro dentro da comunidade e esse é o mote do black money, que traz diferentes iniciativas atuando para potencializar essa troca econômica”, diz Pita, segundo quem criar ambições nos empreendedores faz com que eles entendam a potência dos seus negócios e busquem novos mercados.

Fundadora e CEO da BlackRocks, Maitê Lourenço concorda que iniciativas como essas ajudam a quebrar uma barreira de desigualdade que vai além do dinheiro. “O acesso ao financiamento esbarra no racismo. Esse crédito está disponível, ele existe e é oferecido para qualquer pessoa, mas a população negra passa pelo crivo do racismo. Como consequência, sempre vão ver os nossos negócios como pequenos, sendo que a gente tem um potencial muito grande.”

Na área da capacitação, iniciativas buscam criar um ambiente de permanência sustentável dos profissionais negros no mercado de trabalho e diminuir a desigualdade racial. O Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) desenvolve o programa “Sim à Igualdade Racial” oferecendo bolsas de estudos de inglês em parceria com a Cultura Inglesa, no Rio de Janeiro, e com o CelLep, em São Paulo, e ainda bolsas de MBA e especialização em parceria com a Fundação Dom Cabral.

“A educação é peça-chave na transformação da sociedade, mas precisa estar conectada com o mercado de trabalho. Para tornar o sistema mais saudável e gerir melhor os recursos, a população negra precisa ser considerada enquanto potência de mercado”, afirma a diretora executiva, Luana Génot. “Não queremos deixar mais talentos negros no esquecimento porque todos saímos perdendo.”

Inscrições abertas

A BlackRocks realiza inscrições até 30 de junho para o IdeiAção Tech, workshop gratuito voltado a afroempreendedores que visa agregar valor aos negócios com o uso de tecnologias como chatbot e inteligência artificial. Será realizado nos dias 13 e 27 de julho, na sede da IBM em São Paulo.

Estão abertas também as inscrições para a primeira edição do “Afrolab para Elas” em Belo Horizonte (MG), realizado de 5 a 10 de julho pelo Instituto Feira Preta.

Em Salvador, a segunda edição do programa de aceleração da Vale do Dendê está com inscrições abertas até 15 de julho. Com foco no mercado de gastronomia, o edital é destinado a bares e restaurantes que atuam na capital baiana.

Já a Afrohub realiza até dezembro 20 workshops gratuitos voltados ao afroempreendedorismo, sendo quatro em São Paulo e 16 distribuídos entre Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Belém.

Os inscritos participarão de painéis voltados para a decodificação de ferramentas e estratégias para o crescimento dos negócios e networking.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Falta de incentivos a negócios negros vão na contramão da potência da comunidade

Em artigo, a fundadora do Movimento Black Money, Nina Silva, fala sobre como a sociedade pode subverter a lógica de barreiras ao empreendedorismo negro

Nina Silva, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 06h06

ESPECIAL PARA O ESTADO *

Negros, vocês estão por sua própria conta, já dizia o sulafricano Steve Biko em meados do século 20. É de conhecimento de todos que o Brasil é o segundo país no mundo em população afrodescendente (cerca de 54%, segundo o IBGE) e também tem entre os negros a maioria microempreendedora (56%). Negros são os que mais abrem negócios em um país que marginaliza há 400 anos essa parcela da população, que hoje corresponde a 66% dos desempregados e vê no empreendedorismo a única maneira de sustentabilidade. 

Mas como essa parcela majoritária conseguirá subverter a falta de acesso a crédito, educação financeira e ao mercado de investimentos? Como transgredir a barreira da subsistência e alavancar receita com melhor amparo para a gestão de seus negócios?

Precisaríamos de artistas e empresários como JayZ, que no último mês investiu US$ 1 milhão em uma empresa de biscoitos veganos de donos negros, a Partake Foods. Na lista dos atuais bilionários dos Estados Unidos, JayZ investe em negócios de grande potencialidade, fomentando o black money, ou seja, a circulação de riquezas dentro da comunidade negra de maneira autônoma.

No Brasil, negócios visam otimizar o ecossistema empreendedor negro, como a aceleradora do Vale do Dendê, que atua no eixo Salvador-São Paulo e é focada em aceleração de empreendimentos de impactos social e econômico, não sendo exclusiva para a população afrodescendente, mas atendendo uma maioria de negócios geridos por pessoas negras. 

Já a BlackRocks é uma pré-aceleradora que estimula empreendimentos em estágio inicial a se tornarem startups, concedendo acesso a ferramentas de mercado para a aceleração de seus processos. Com isso, vem trazendo empresas de tecnologia para o ecossistema. 

O Movimento Black Money, que eu presido, foi fundado com o objetivo de otimizar o desenvolvimento do ecossistema afroempreendedor a partir de comunicação, networking, educação e plataformas digitais. O objetivo são trocas comerciais e financeiras entre empresários e empreendedores afrodescendentes e consumidores negros e não negros.

Além disso, o hub produz conteúdos e cursos para a população negra nas áreas de marketing, vendas, gestão, finanças e tecnologia, com cerca de 100 mil pessoas impactadas direta e indiretamente em dois anos.

O que essas iniciativas têm em comum? Não possuem capital de investidor anjo e mantêm seus negócios a partir de propósito que permeia oportunidades. Negros movimentaram R$ 1,7 trilhão na economia em 2017 e 29% deles têm um empreendimento, mas na contramão desses números eles possuem o crédito três vezes mais negado que empreendimentos não negros. A maioria das startups no mundo que recebem aporte são de homens brancos ou asiáticos. 

Não é coincidência que empresas africanas sofrem hoje com a falta de investimentos a nível global. Epic Games, Juul Labs e Uber atraíram US$ 1,2 bilhão no ano passado e o que possuem em comum? Têm base nos Estados Unidos, são chefiadas por homens brancos e juntas atraíram mais do que o dobro do montante de capital de risco investido na África em 2017. 

Mesmo que as venture capital com sede ou foco na África tenham tido um crescimento substancial nos últimos três anos, estes fundos não chegam para startups locais, negócios em estágios menos maduros. Empreendimentos negros no Brasil e na África precisam de investidores anjos e de investimentos próprios da comunidade negra. 

Cada vez mais o consumo intencional intracomunidade e o equity crowdfunding, que oferece oportunidades inéditas de investimento online, são saídas para a autonomia desses novos negócios. Há uma demanda não suportada pelos mecanismos atuais de fomento à economia, que deixam à mercê do mercado a maioria da população empreendedora. Isso é prejudicial também para os consumidores que não se reconhecem no mercado tradicional, além de manter o sistema privilegiado para pessoas não negras fortalecendo as desigualdades que tanto atrasam a economia brasileira e a de outros países.

É preciso dar visibilidade e instrumentalizar essas empresas ou teremos que aguardar outros JayZs nascerem em toda a diáspora africana e na África para tentarmos mudar a regulação marginal do sistema. Não é por acaso que as aceleradoras que assistem negócios pretos são de donos pretos, e quem as apoiam? Precisamos quebrar o ciclo de escassez direcionando nossos próprios investimentos, por nossa própria conta! Ubuntu.

* Nina Silva é executiva de TI e CEO do Movimento Black Money. Foi eleita em 2018 um dos 100 afrodescendentes mais influentes do mundo com menos de 40 anos pelo Mipad (Most Influential People of African Descent) e reconhecida pela Forbes como uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil em 2019.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Aceleradoras ajudam empreendedores negros a driblar gargalo de investimentos

Além de canalizar dinheiro e dar capacitação, entidades como Afrohub e BlackRocks dão mais visibilidade a negócios e fazem a ponte com o mercado tradicional

Julliana Martins e Pablo Santana, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 06h08

ESPECIAL PARA O ESTADO

Na tentativa de alavancar os seus negócios, empreendedores negros têm esbarrado na burocracia para captar investimentos e ter acesso ao crédito pelo sistema financeiro tradicional. Para preencher essa lacuna, instituições voltadas ao chamado black business e a empreendimentos de impacto social – como Afrohub e Anip, fundadas no ano passado, além de BlackRocks, de 2017, e Vale do Dendê, de 2016 – têm programas de aceleração que fomentam o crescimento desses negócios.

A pesquisa Empreendedorismo Negro divulgada pelo Itaú Unibanco em fevereiro revela que a baixa familiaridade com finanças e o tempo escasso para a realização de cursos de formação são problemas comuns a micro e pequenos empreendedores em geral. No caso dos negros, alguns obstáculos são particulares, como dificuldades maiores para se conseguir linha de crédito. As desigualdades no País fazem com que o negro já largue em desvantagem: enquanto a renda média mensal da população negra é de R$ 1.686, brancos recebem R$ 2.982, de acordo com o IBGE.

O dono da produtora audiovisual Terra Preta Produções, Rodrigo Portela, é um retrato das portas fechadas ao nicho. Mesmo sendo cliente de uma instituição bancária há mais de cinco anos e comprovando um plano de negócios e o histórico de faturamento de sua empresa, ele diz ter tido pedido de crédito negado em outubro de 2018.

“A ideia era fazer um upgrade nos equipamentos, mas dos R$ 18 mil solicitados só liberaram R$ 3 mil. Assim, a gente não consegue acompanhar as atualizações dos equipamentos e isso atrapalha na hora de competir com as outras produtoras.”

Diante desse cenário, instituições criadas por empreendedores negros investem no fortalecimento do ambiente de negócios para os afroempreendedores. É o caso do Afrohub, uma aceleradora criada pelos empreendimentos Feira Preta, Diáspora.Black, PretaHub e Afro Business, com o apoio do Facebook, e que desde junho de 2018 oferece capacitação técnica e networking para a população negra que está empreendendo.

Em um ano, o programa já acelerou 10 negócios, entre eles Makeda Cosméticos, Levinho Fit e Conta Pra Ela, e capacitou mais de 1.200 afroempreendedores em cinco Estados. Em sua segunda edição, que teve início neste mês de junho, a expectativa é alcançar mais de 3.000 empresários em oito Estados, a quem serão destinados R$ 300 mil, investimento fruto da parceria com o Facebook.

“Muitas vezes os negócios são voltados para identidade e cultura, e o responsável por aprovar o crédito financeiro não consegue enxergar potencialidade. O pensamento é que o negócio pode não ter escala. Mas, na verdade, se a gente considerar a movimentação financeira da população negra, esse argumento cai por terra”, pontua a cofundadora e presidente da Afro Business, Fernanda Ribeiro.

Foi na primeira turma do Afrohub que Rodrigo Portela viu a chance de alavancar seu negócio. “Eu fiz uma primeira tentativa de aceleração em 2016 no Sebrae e, das 18 pessoas que tinham lá, eu era o único negro. Os conflitos que eu tinha eles não tinham. Enquanto todos podiam se ausentar do empreendimento por uma semana, eu não podia porque, apesar de ser o dono, ainda sou mão de obra”, conta ele. “Quando você é negro e da periferia, você não começa do zero. Começa do negativo.”

Além do dinheiro da aceleração, fazer a ponte entre o empreendedor e potenciais clientes também está na agenda. Para Maitê Lourenço, fundadora e CEO da BlackRocks, as soluções das lideranças negras precisam ter mais visibilidade para ajudar a mudar o paradigma.

“Nós encaminhamos os empreendimentos tanto para serem fornecedores das grandes empresas como também para participar de alguma atividade. Já fizemos eventos na Oracle, na Microsoft e no Facebook. A ideia é trazer essa população para ocupar os espaços e começar a pertencer a eles também”, diz Maitê, que fundou a entidade em 2017 para ajudar a fomentar o ecossistema negro em torno dos temas de inovação e tecnologia. Agora, a empresa se prepara para criar um fundo de investimento, com dinheiro que deve vir de investidores e que deve ser lançado no próximo ano.

Além da cor da pele

Além das entidades focadas no afroempreendedorismo, iniciativas voltadas para negócios de impacto social e nas periferias também têm peso no ecossistema, caso da Vale do Dendê e da Artemisia.

A holding baiana Vale do Dendê foi criada em 2016 para impulsionar projetos de inovação com foco na economia criativa em Salvador - capital mais negra do País. Para fazer uma ponte com o capital financeiro, a aceleradora adaptou a metodologia aplicada por empresas do Vale do Silício (EUA).

“A cultura de investimento anjo ainda é incipiente no Brasil e, na comunidade negra, é inexistente. A gente tenta furar essa bolha e promover encontros entre pessoas que investem nesse ecossistema. Enquanto esse segmento for negligenciado no País, vamos permanecer estagnados porque só é possível crescer através da inclusão”, diz o cofundador Paulo Rogério.

O primeiro edital da Vale do Dendê, de 2017, beneficiou 30 startups que desenvolvem produtos e soluções tecnológicas de baixo custo e alto impacto socioeconômico. O projeto conta com o patrocínio da Fundação Itaú Social e da Fundação Alphaville e funciona oferecendo ferramentas para que os empreendedores reconheçam seu próprio potencial e possam crescer enquanto negócio.

Atuando nesse segmento há 15 anos, a Artemisia ajuda a criar ou impulsionar negócios que possam solucionar problemas sociais por meio de três programas de incentivo, entre eles a Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a produtora A Banca, fundada por Marcelo Rocha, morador do Capão Redondo.

Foi por meio da Anip que Michelle Fernandes, também moradora do Capão, conseguiu apoio para o seu negócio, a Boutique de Krioula. O negócio começou informalmente em 2012, quando Michelle começou a dar dicas para amigas sobre como usar turbantes no cabelo. Cinco anos depois, a Anip potencializou o negócio.

“A Anip foi a única a reconhecer que na periferia há empreendedores com potencial. A gente quer participar desses programas, mas às vezes não é possível se afastar do negócio porque cada minuto fora é um minuto que a gente deixa de ganhar dinheiro”, diz ela.

Segundo o gerente de seleção e apoio a negócios da Artemisia, Felipe Alves, o papel deles é identificar esses gargalos e apostar na criação de pontes. “Empreender nesse ecossistema de startups ainda é um privilégio, mas a gente tem criado iniciativas e buscado trazer cada vez mais a diversidade para os nossos programas, envolvendo lugares socialmente excluídos do universo de negócios.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.