Reprodução/Endeavor
Reprodução/Endeavor

Empreendedor faz submarino com apenas 15 anos e hoje conta com 8 mil funcionários

Bento Koike é sócio da Tecsis, empresa que fabrica pás para turbinas eólicas

gisele tamamar, estadão pme,

22 de novembro de 2013 | 06h48

 A paixão de Bento Koike por criar projetos e transformá-los em realidade começou cedo. Com 15 anos, ele resolveu construir um submarino para duas pessoas. Pensou em todos os detalhes e utilizou tambores de óleo para fazer a estrutura com a ajuda de um funileiro. O momento que Koike viu seu pai terminando a pintura do submarino foi o motor que impulsionou tudo o que o empreendedor queria fazer mais tarde. Koike participou do evento da Endeavor para contar seu Day1 – o ponto de virada que transformou sua forma de enxergar o mundo.

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O pai do empreendedor era pintor de painéis e estimulou o filho a crir logo cedo. “Ele era uma pessoa disciplinada, muito perfeccionista e criativa. Ele foi me ensinando aos poucos o gosto por aliar a paixão pela perfeição estética com a perfeição funcional”, contou.

Koike foi estudar engenharia aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e foi convidado pelo amigo Odilon Camargo para projetar uma turbina eólica para o trabalho de conclusão de curso. “Eu topei, mas não tinha ideia do que era. Ele mostrou umas turbinas russas, que pareciam coisas do Flash Gordon. A proposta era fazer uma coisa que tinha pouca informação e muito desafio”, lembrou.

Com diploma na mão, Koike tinha uma área que o atraía: materiais compostos avançados. A intenção era montar uma empresa, mas o empresário tinha consciência que precisaria se especializar antes. Por isso, aceitou o convite para trabalhar no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e, por coincidência, teve como primeira missão criar e chefiar o laboratório de materiais compostos avançados. E outra coincidência: foi firmada uma parceria com o instituto da Alemanha, que decidiu fazer um projeto de turbina eólica.

“Brasileiro é muito criativo. Uma coisa que eles ensinaram foi a importância do rigor na um rigor na organização, na documentação do trabalho para evoluir rápido. Muitos dos conceitos inovadores usados naquela época são aplicados até hoje”, disse.

Negócio próprio. Em 1986, Koike resolveu abrir a própria empresa com seis colegas. A ideia era aplicar a tecnologia para os trabalhos do programa espacial brasileiro. Tudo ia bem até a inflação começar a incomodar e o governo atrasar os pagamentos. Por outro lado, o mesmo governo não deixava de cobrar os impostos. A situação fez o grupo repensar a vida e Koike convidou dois amigos para criar a Tecsis, onde aplicou dois aprendizados da época anterior: não queria um empresa gerida por comitê e não queria mais o governo como principal cliente.

Na busca de oportunidades para a nova empresa, Koike conseguiu uma reunião na Dinamarca. “Eu lembro quando estava a caminho da reunião, no trem, sozinho, com minha pastinha, olhando pela janela e pensei: 'o que eu estou fazendo nesse fim de mundo?'”, conta.

A reunião não avançou, mas Koike resolveu passar pela Alemanha e visitar a Enercon, principal empresa do mercado. Conseguiu uma reunião com o fundador e presidente do grupo Aloys Wobben. Depois de três horas de conversa técnica, saiu de lá com um contrato de US$ 1 milhão para fazer pás para turbinas de energia eólica. “Eu não tinha dinheiro e não ia falar isso para ele. Pedi um adiantamento e ainda a matéria-prima. Ele topou. No dia seguinte, tinha um navio com matéria-prima rumo ao Brasil”, contou.

Koike voltou para o Brasil para procurar um local para iniciar a produção de pás que tinham até 19 metros. Encontrou um local em Sorocaba, a produção começou e a empresa conseguiu o objetivo de qualquer empreendedor: encantar o cliente e superar as expectativas.

Sobrevivência. Mas a produção foi apenas o primeiro passo. O transporte de pás enormes, preços competitivos e outros problemas iam surgindo. “Essas questões iam aparecendo e nossa sobrevivência dependia dessas soluções. A sobrevivência é um ótimo incentivo para a criatividade”, destacou.

Até que um dia o grupo decidiu comprar a Tecsis, o que gerou um conflito de interesse já que a ideia era ter uma empresa de longo prazo. A decisão foi romper o contrato com a Enercon, o que significou grandes perdas e uma redução no quadro de 600 para 100 funcionários.

Crise. A empresa enxergou o potencial do mercado norte-americano e conquistou grandes clientes como a GE. Com um crescimento de 70% ao ano durante seis anos seguidos, a Tecsis conseguiu um financiamento no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e voltou para o Brasil para fazer uma operação de proteção cambial.

Ao ouvir os conselhos dos bancos, os sócios acabaram optando por uma opção baseada em derivativos, que com a crise, em 2008, foi um desastre. “O dólar subiu muito e tivemos um prejuízo fenomenal. De uma empresa extremamente saudável, da noite para o dia, ficou com um patrimônio negativo”, lembrou.

Ofinanciamento não saiu, o crédito foi reduzido e o mercado eólico caiu para menos da metade. Resultado: a Tecsis entrou na pior crise da sua história. No entanto, o encolhimento do mercado fez com que a concorrência se acirrasse e o diferencial da Tecsis ficou ainda mais visível, o que fez os grandes fabricantes buscarem parcerias com a empresa. “Tivemos o privilégio de escolher com quem queríamos fechar contrato. Tivemos um engajamento dos funcionários e os fornecedores não pararam”, disse.

Para equilibrar o caixa, a empresa assinou com um grupo de investidores para retomar o caminho do crescimento. Hoje, a Tecsis tem mais de 8 mil funcionários e fabrica pás de até 60 metros. Para comparar: se juntar todas as turbinas que estão funcionando com as pás feitas pela Tecsis resultaria em uma capacidade de geração de energia equivalente a 1,5 Itaipu.

“Isso faz com que a gente sinta orgulho, de alguma maneira estamos contribuindo para um problema urgente, grave, que é o aquecimento global. Como recado eu digo: tenham convicção dos seus talentos e transformem seus planos em ação”, finalizou Koike.

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