Lucas Terribili
Lucas Terribili

Embalagens compostáveis ganham espaço no delivery de restaurantes

Casas de São Paulo entregam pedidos em embalagens que podem ser descartadas como lixo orgânico, para reduzir impacto ambiental; fabricantes veem nicho crescer

Bianca Zanatta, Especial para o Estadão

29 de agosto de 2021 | 05h00

Um levantamento da Statista, empresa especializada em dados de mercado e consumo, apontou que o Brasil foi responsável por quase metade do crescimento do delivery na América Latina em 2020. Do total de pedidos, 48,77% foram feitos por aqui, seguidos pelo México, com 27,07%. A previsão é que, até o final de 2021, os aplicativos de entrega movimentem globalmente US$ 6,3 trilhões.

Cientes de que somente 4% das quase 80 toneladas de resíduos produzidas por ano no Brasil são recicladas, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), alguns restaurantes estão buscando soluções que minimizem o impacto ambiental causado pelo descarte das embalagens do delivery - entre elas, as biodegradáveis e compostáveis, que podem ser compostadas domesticamente ou descartadas como lixo orgânico

Um deles é o Portinhola, da chef Ana Soares. Criado em 2020 como braço de delivery do grupo Mesa III, o restaurante já nasceu pautado na preocupação com o ambiente e entrega seus pratos em embalagens feitas com bagaço de cana. 

“Por ser um produto de consumo imediato (a comida), a embalagem do delivery possibilita trabalhar com materiais menos duráveis”, afirma a chef. “A embalagem compostável também é menos agressiva, tanto no processo de obtenção da matéria-prima quanto na volta dela ao meio ambiente.”

O Ototo, delivery de bentôs do grupo Tan Tan, também optou pelos biodegradáveis. Segundo Thiago Bañares, somente as tampas são feitas de PET reciclável. “Fizemos essa escolha para diminuir a produção de resíduos não recicláveis pelo restaurante, reduzindo o consumo de plástico ou alumínio”, diz o chef. “Além das embalagens, promovemos a reciclagem do nosso lixo e tentamos substituir plástico por outros materiais compostáveis, como papel, nos canudos e porta-hashis, por exemplo.”

Com um menu de receitas autorais e rotativas feitas 80% a partir de vegetais e ingredientes garimpados de produtores locais e orgânicos, o 31 Restaurante se dedica desde a inauguração a ser ambientalmente responsável. Além de adotar o locavorismo e evitar ao máximo o desperdício de alimentos, eles também usam embalagens compostáveis, apesar de o custo ser mais elevado. 

“Diante de tudo no que acreditamos, não fazia sentido trabalhar com algum outro tipo de embalagem que não fosse possivelmente compostável ou biodegradável”, diz o chef Raphael Vieira. “Infelizmente, pelo menos aqui em São Paulo, ainda é muito mais difícil encontrar pessoas que reciclem do que apostar em objetos biodegradáveis”, ele observa.

O restaurante coreano Komah ainda não conseguiu substituir todas as embalagens do delivery, mas 30% de seus pratos já viajam em materiais compostáveis feitos com fibra de cana ou bambu. “Para não precisar fazer nenhuma mudança nas receitas, a gente casou os pratos com o catálogo dos fornecedores e escolheu os que se adaptam melhor”, explica o chef Paulo Shin. 

Entre as pedidas que chegam nesse formato estão algumas das estrelas do restaurante, como o kimchi bokumbap (arroz salteado com kimchi e omelete cremoso), o bibimbap (arroz de alga, ovo cozido a 63 graus, legumes sortidos, cogumelos, molho gochujang – uma pasta de pimenta fermentada – e beef jerky) e o arroz de costela com ovo estalado.

Ele conta que a casa sempre teve essa pegada sustentável. “Nunca tivemos canudo, nem para criança, mesmo antes de a lei começar. No começo a gente falava muito ‘não’ para os clientes”, conta o chef, que também busca reduzir fortemente o desperdício de alimentos e ter um aproveitamento máximo de cada prato. 

Shin fala ainda que o Komah oferece a opção de não entregar talheres nos pedidos do iFood. “Quanto aos nossos resíduos recicláveis, semanalmente uma cooperativa de coleta seletiva se encarrega de dar a destinação correta”, complementa. 

Escolha dos fornecedores e educação do cliente

Para atender à crescente demanda, algumas empresas já se dedicam exclusivamente à importação e distribuição desse tipo de embalagem. Um exemplo é a Qualifest, que há 8 anos comercializa embalagens feitas com diversos tipos de materiais naturais, biodegradáveis e compostáveis, como bagaço de cana, madeira e CPLA – todos eles isentos de plásticos derivados de petróleo e biodegradáveis.

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“A celulose do bagaço de cana, por exemplo, é obtida a partir do rejeito da indústria sucro-alcooleira”, explica a engenheira química Fernanda Dantas, gerente de negócios da empresa. Ela conta que esse material que seria queimado em caldeiras é reaproveitado, cozido, depurado e origina a celulose da cana, com fibra extremamente resistente e muito superior à da celulose de eucalipto para as aplicações alimentícias. 

“Outra vantagem enorme é a funcionalidade. Enquanto os demais descartáveis disponíveis no mercado têm limitação com uso em freezer, forno e microondas, a celulose do bagaço tem performance excelente, o que aumenta muito a praticidade e o aproveitamento do material.”

Já o CPLA, bastante utilizado para talheres, é um polímero sintetizado a partir de fontes renováveis (amidos provenientes de arroz, milho, mandioca ou beterraba), sem qualquer mistura com plásticos convencionais derivados de petróleo. “No descarte, além de bio, é inclusive compostável industrialmente”, diz a executiva.

Entre os fornecedores da Qualifest estão fabricantes localizadas na Alemanha, Itália e Ásia – todas com certificados BSCI (responsabilidade social), FSC para papel e madeira, biodegradabilidade (OK Compost e BPI) e de segurança para uso alimentício (BRC Packaging, FDA, NSF – Packaging, entre outros). 

“Nosso compromisso com a origem é muito sério e os certificados estão claramente divulgados no nosso site”, sublinha a engenheira. O site, aliás, também traz uma tabela de especificações sobre a forma de descarte de cada um dos materiais, com informações como tempo de decomposição e se o processo ocorre em compostagem doméstica ou descarte como lixo orgânico ou somente em compostagem industrial (caso do CPLA).

“Além dos certificados de biodegradação internacionais que temos para todos os materiais, a ‘compostabilidade’ já foi comprovada em um recente trabalho realizado junto à empresa Tera Ambiental”, ela acrescenta. “Testando nossos materiais em suas leiras, a empresa constatou a degradação de todos eles em até 50 dias.”

Estudos in loco

No caso da Soubio, que trabalha com embalagens de bagaço de cana, madeira, amido de milho e papel kraft, a maior preocupação dos consumidores com o ambiente foi o grande propulsor do negócio, segundo a diretora Fabiana Arruda. 

“A gente já vê esse interesse da população em geral com a conscientização de querer uma mudança significativa no uso da embalagem”, ela observa. “A embalagem de bagaço de cana, por exemplo, é 100% biodegradável e compostável. Você só usa a base da polpa do bagaço e água como componentes”, sublinha a executiva, que visitou as fábricas dos fornecedores na Ásia em 2019, logo antes de iniciar o projeto e estruturação da empresa.

Já a FNS, que tem uma linha de embalagens compostáveis feitas de fibra vegetal (milho, bambu ou bagaço de cana), apostou em marcas de tecnologia americana que mantêm suas fábricas na China para importar os materiais. “Hoje trabalhamos somente com papel de reflorestamento com selo FSC ou recursos renováveis como bambu”, afirma o gerente comercial, Marcelo Maluf Haddad. 

“Entendemos que a preocupação com o ambiente se concentra nas duas pontas – origem da matéria-prima e destino do enorme lixo descartado diariamente nos aterros sanitários. Como se recicla muito pouco no Brasil, sabemos muito bem onde vai parar todo esse lixo”, ele destaca. “Nossas embalagens de origem 100% vegetal se decompõem muito mais rápido e não descartam gases tóxicos no solo.”

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