Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Em tempos de crise, brasileiros se apegam à fé para 'abrir caminhos'

Comerciantes de artigos religiosos em São Paulo relatam aumento na busca por produtos associados à prosperidade, enquanto desemprego cresce

Elisa Calmon, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2019 | 06h03

ESPECIAL PARA O ESTADO

No primeiro trimestre de 2019, o Brasil registrou 13 milhões de desempregados. No mesmo período, o número de desalentados bateu recorde: 4,9 milhões de pessoas perderam a esperança de conseguir um trabalho no País, segundo o IBGE. Além desses índices, a expectativa pela aprovação da Reforma da Previdência também contribui para o clima de incerteza. Diante desse cenário, a fé tem sido aliada de brasileiros que buscam por conforto ou oportunidades por meio da religião.

A comerciante de artigos religiosos católicos e afro brasileiros Kátia Miorin conta que, com o agravamento da crise econômica, cresceu a busca por produtos associados à prosperidade em seu negócio, o Box 10 do Mercado da Lapa. “Muitas pessoas chegam aqui querendo 'abrir caminhos'. Com isso, vendemos mais velas douradas ou em formato de chave, por exemplo, e oferendas para entidades que atuam em questões financeiras, como ciganos”, afirma ela, cuja loja também é conhecida como Rei das Velas.

Sua clientela é formada por devotos e simpatizantes, mas ela destaca que os religiosos são um público mais constante, mesmo em tempos instáveis. “No atual cenário, os fiéis podem até adiar cerimônias mais caras, que exigem mais produtos, mas não deixam de cumprir suas obrigações rotineiras para atender aos orixás e santos”, diz Kátia.

O economista da Fecomércio, Guilherme Dietze, explica esse fenômeno. “A aquisição de artigos religiosos está associada a um consumo comportamental. São bens sensíveis, que estão acima da razão e fazem parte da forte cultura nacional de fé”, diz.

De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, 92% dos brasileiros, cerca de 175 milhões de pessoas, praticam alguma religião. As maiores crenças são a católica, a protestante e a espírita, nesta ordem. Por causa do grande número de fiéis, Dietze ressalta que o setor tem um alto potencial de crescimento diante de uma demanda crescente no País.

Como Kátia Miorin comercializa para todo o Brasil por meio de vendas online do seu Box 10, ela também percebe como tendência nacional o impulso nas vendas com o atual cenário político e econômico.

Primeira necessidade

A mesma retração econômica levou a loja Obatalá Axé, em Pinheiros, a ver seu faturamento crescer cerca de 15% por mês desde fevereiro do ano passado. Em 2019, os números são ainda mais positivos, com um aumento mensal próximo de 20%, comemora o comerciante Gabriel Sena.

Na avaliação dele, isso acontece porque as mercadorias são um reflexo da devoção e da fé, sendo um ponto de referência para os fiéis, independentemente do contexto. “Os produtos religiosos não são supérfluos. O orçamento dedicado a esse tipo de consumo não diminui em momentos mais difíceis. As pessoas não deixam de comprá-los, porque os veem como gasto de primeira necessidade”, avalia Sena, que vende artigos como imagens de orixás e entidades e roupas utilizadas nas cerimônias de umbanda e candomblé.

Fábio Aurélio Ferreira, dono da Ganesh Incensos, uma loja de produtos esotéricos na Rua 25 de Março, região central de São Paulo, tem visto na prática essa capacidade de expansão do comércio religioso com um aumento de cerca de 50% nas vendas nos últimos três anos.

A tendência positiva no estabelecimento de Fábio começou em 2016, quando o Brasil estava em recessão, apresentando uma retração de 3,6% na atividade econômica. A queda, divulgada pelo IBGE, foi somada ao índice de 3,8% registrado em 2015. Com uma diminuição significativa no consumo das famílias, 2016 foi a primeira vez em 20 anos em que todos os setores da economia brasileira registraram taxas negativas.

Desde então, a recuperação tem sido lenta. No início de junho, o Banco Central anunciou a 14ª queda seguida na previsão de alta do PIB para 2019. A estimativa de crescimento caiu de 1,23% para 1,13%, segundo o relatório Focus produzido pela instituição. Entretanto, o setor religioso pode continuar crescendo com a crise e apesar dela.

Fábio Aurélio acredita que esse contexto acaba impulsionando o mercado litúrgico, porque as pessoas ficam mais vulneráveis e dispostas a se apegar às questões espirituais para buscar soluções. “Quanto maior a crise, mais nós vendemos. É nessas horas que os clientes mais querem um porto seguro para se amparar e trazer sorte”, afirma o comerciante, que distribui incensos e imagens de religiões variadas, como budismo e umbanda para Estados de todas as regiões do Brasil.

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