Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Editoras independentes diversificam canais de vendas para desviar da crise

Foco em públicos segmentados e pouca dependência de grandes livrarias, que seguem em crise ao lado de grandes editoras, ajudam pequenas e médias editoras a sobreviver

Julliana Martins, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2019 | 17h01

ESPECIAL PARA O ESTADO

No momento de crise que vive o mercado editorial, sobrevivem editoras pequenas que apostam em um modelo de curadoria com publicações segmentadas para cada público. A alta do movimento artesanal - que atinge setores como alimentação e decoração - também favoreceu a consolidação desse modelo de negócios, baseado em equipes compactas e canais de venda alternativos às grandes livrarias, estrutura de editoras como Ubu, Chão, Pólen, Matrix e Clepsidra.

Série histórica da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) mostra que o número de livros vendidos de 2014 a 2018 encolheu 27% - são 74,7 milhões de exemplares a menos no mercado brasileiro, dando uma mostra da crise que assola o setor. Junto a isso, um movimento de migração levou ex-editores do mercado tradicional a empreenderem com editoras independentes. É o caso da Florencia Ferrari, que, após o fechamento em 2015 da Cosac Naify, onde trabalhou por 13 anos, abriu a Editora Ubu, em sociedade com a designer Elaine Ramos.

A produção é focada em “fundos de catálogo” - livros que sempre vendem, atemporais - e é escoada por meios alternativos, tirando a dependência quase total das livrarias. No caso de grandes editoras, em geral 80% do faturamento vêm das grandes lojas. Na Ubu, elas respondem por 60% do faturamento, enquanto 20% vêm do site próprio e 20%, de feiras e eventos.

Segundo Florencia, um dos segredos é evitar estrutura inchada e organizar a demanda. “O maior desafio é encontrar o equilíbrio mágico entre o volume de exemplares impressos e a quantidade vendida. O ideal é conseguir imprimir a tiragem máxima que seríamos capazes de vender em um ano. Nem mais, nem menos. E o segredo é não aumentar a estrutura interna, se desdobrar para produzir mais e melhor dentro dessa lógica”, afirma.

Canais de venda

A necessidade de diversificar os canais de venda para manter o negócio sustentável ficou ainda maior devido à situação da Livraria Cultura, que está em recuperação judicial, e da Saraiva, que apresentou na última segunda-feira, 26, o novo plano de recuperação judicial à Justiça. No caso da Ubu, quando a Cultura deixou de receber seus livros, a tiragem precisou ser reduzida de 3.000 exemplares para 2.000 exemplares ao ano.

Para o fundador da Editora Clepsidra, Cid Vale Ferreira, a crise está associada ao modelo das megastores e, no caso das pequenas editoras, isso pode ter funcionado como um impulso. “As grandes empresas quase nunca abriam suas portas para o setor independente. Quando começaram a quebrar, o que era uma desvantagem competitiva tornou-se uma vantagem. O fato de não ter quantias consideráveis a receber delas foi o que deu gás às pequenas e médias”, avalia.

Apesar de ter dois pontos de venda próprios na capital paulista - e um terceiro prestes a abrir em Bauru (SP) - a Clepsidra utiliza também marketplaces como Estante Virtual, Amazon e Mercado Livre, além de aproveitar feiras literárias para vender suas publicações.

“Quanto mais diversa for sua estratégia, melhor. Você nunca sabe qual compartilhamento pode trazer aquela faísca que vai incendiar sua publicação e fazê-la potencialmente viral.”

No caso da Editora Matrix, a queda dessas grandes redes foi um pontapé para aumentar os esforços no e-commerce. Criada há 20 anos pelo autor Paulo Tadeu, a editora caminha na contramão da crise, tendo aumentado o número de títulos publicados por ano de 50 no ano passado para 80 previstos até o fim deste ano. “A editora independente tem menos custo e mais flexibilidade. Isso me ajudou a passar por esse momento com menor dependência. Para mim, o pequeno editor é a guerrilha porque consegue se movimentar rapidamente e em mais espaços”, diz Paulo.

Publicações de nicho 

​Um outro diferencial do setor independente é o foco em publicações de nicho, sem a intenção de abranger um grande público. É por meio dessa estratégia que a Pólen Livros e a Chão Editora se posicionam no mercado. “É o público quem legitima. As pessoas desenvolvem uma identificação com o assunto, com as autoras e se interessam mais pelas editoras independentes”, afirma Lizandra Magon, jornalista e editora que criou a Pólen Livros em 2014.

A Pólen tem como linha editorial questões da mulher e, apesar de ter sido impactada com a crise em 2015, conseguiu se reerguer a partir de 2017. A retomada veio com a publicação do livro Heroínas Negras Brasileiras, da escritora Jarid Arraes, e depois com títulos de Djamila Ribeiro, que está na editora desde abril. Seu título Lugar de Fala vendeu, nesses meses, 10 mil exemplares. Neste ano, o faturamento da Pólen, que vende pelo site, em feiras e também em pequenas livrarias, deve ultrapassar R$ 1 milhão.

A iniciante Chão Editora, criada no fim do ano passado, também se debruça sobre um tema específico em suas publicações: o resgate da memória e da história brasileira por meio de documentos históricos, biografias e materiais de domínio público. Até agora são dois livros publicados, mas a ideia é de que não passem de cinco por ano, com tiragem média de 2.000 exemplares para cada título.

“A gente vende em livrarias, mas principalmente pela Amazon e pelo site da Editora 34, que é parceira. A nossa ideia é ir ganhando no miúdo, um trabalho de formiguinha. Estamos apostando na divulgação escolar e universitária, porque sabemos que o caráter desses livros não é tão comercial”, afirma Marta Garcia, editora que trabalhou por quase 25 anos na Companhia das Letras e por dois anos na Cosac Naify.

O grande desafio para a maioria desses empreendedores, aponta Marta, é sair da zona de conforto da edição e se preocupar com gestão, fluxo de caixa e estratégias de negócio. “Eu não era uma mulher de negócios, sempre fui só editora. E agora estou precisando olhar para toda essa parte estratégica e aprender na marra. Quando a Cosac fechou e eu comecei a atuar como freelancer, comecei a ver o mundo com outros olhos, saindo da carteira assinada para empreender”, conta Marta.

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