Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Economia prateada: estudo mapeia oportunidades de negócios entre 50+

Fundação Dom Cabral aponta tendências de mercado com startups no exterior e mapeia 343 negócios inovadores no Brasil; nicho ainda pouco explorado movimenta aqui R$ 1,8 trilhão

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2020 | 14h00

Especial para o Estado

O envelhecimento populacional, indicado pela ONU como uma das quatro megatendências para o século 21, deixou há tempos de ser realidade exclusiva dos países desenvolvidos. As projeções mostram que o Brasil será, em 2050, o sexto país do mundo com maior número de pessoas acima de 60 anos. Chamada de Revolução Prateada (uma alusão aos cabelos platinados), essa crescente longevidade não impacta apenas setores como previdência, crédito consignado ou instituições para idosos, mas toda a economia. 

Segundo a Harvard Business Review, o mercado da longevidade movimentou US$ 15 trilhões globalmente só em 2020. No Brasil, o montante estimado no mesmo período é de R$ 1,8 trilhão, de acordo com o Instituto Locomotiva.

Para desenvolver um olhar mais aprofundado sobre o tema, a Fundação Dom Cabral lançou o trend book Negócios, segundo volume do projeto FDC Longevidade, que mapeou os desafios e as oportunidades que marcas, empresas e empreendedores podem explorar para atender às demandas do público sênior.

Uma das primeiras observações do estudo, aliás, é que o mercado sequer começou a enxergar a diversidade e a complexidade dessa fatia da população, que contempla desde pessoas que permanecem economicamente ativas e produtivas até as que são dependentes dos cuidados de familiares, por exemplo.

Algumas marcas ao redor do mundo já apostam na força da economia prateada – e estão colhendo frutos bilionários com ela. Segundo o estudo, muitas soluções para os problemas enfrentados pelos 60+ estão vindo de startups e empresas jovens, com foco em tecnologia de ponta e design, que quebram o padrão dos produtos e serviços pensados para essa faixa etária. 

Entre elas, o trend book destaca seis que já são classificadas como unicórnios (startups cuja avaliação no mercado supera US$ 1 bilhão). Só que, nesse caso, fala-se em unicórnios prateados. Uma delas é a japonesa Cyberdine, fundada em 2004 para resolver os desafios do envelhecimento com soluções focadas em medicina, bem-estar e no mercado de trabalho, combinando informações, pessoas e robôs.

Nos EUA, os holofotes vão para a Papa, plataforma que conecta estudantes universitários a idosos que necessitam de companhia e assistência nas tarefas diárias; a Pillo Health – um dispositivo ativado por voz que lembra os usuários de tomar seus comprimidos na hora certa; e a Farewill, startup que oferece uma nova perspectiva ao sensível tema dos testamentos e a finitude da vida.

O FDC Longevidade cita ainda a inglesa cera+, que desenvolveu uma solução de home care aliando tecnologia e atendimento de ponta para que os maduros vivam por mais tempo com independência em suas próprias casas, e o robô ElliQ, da israelense Intuition Robotics, que sugere atividades e facilita a conexão digital com amigos e familiares.

Startups prateadas no Brasil

Apesar de ainda pouco explorada, a economia prateada também entrou no radar de algumas empresas brasileiras – muitas delas bem novas, confirmando a tendência global. Até sua conclusão, o estudo conseguiu mapear 343 negócios inovadores no País que têm o universo sênior como target. São empresas jovens (44% têm apenas dois anos de vida) e com equipes enxutas (47% com até 4 membros e 46% com 5 a 19 colaboradores). 

O levantamento aponta ainda que as equipes são mistas em sua maioria (45%), com um equilíbrio entre homens e mulheres liderando os negócios (23% e 21%, respectivamente). Quanto aos resultados, 27% faturam até R$ 100 mil por ano, mas já há aquelas que chegam a mais de R$ 2 milhões. 

De acordo com a análise, são startups que desenvolvem soluções para os principais desafios da maturidade, entre produtos e serviços específicos, ferramentas e redes de apoio para familiares e cuidadores e oportunidades de trabalho que valorizam a experiência de quem quer continuar na ativa. 

Dos 343 exemplos, 40% destinam-se ao cuidado e 25% à gestão do cuidado, seguidos por engajamento e propósito (22%), estilo de vida (17%), mobilidade e movimento (9%), saúde mental (8%), saúde financeira (5%) e fim da vida (1%).

Tão diversas quanto as fases e perfis dos 60+, essas startups estão cobrindo um nicho imenso – o chamado oceano prateado de oportunidades. Alguns exemplos são o da terapeuta ocupacional e empreendedora social Cecília Xavier, que criou um programa de preparação de aposentadoria para mulheres maduras; a NExxT49 – um coworking para negócios da longevidade e empreendedores maduros; e a Digitalidade, plataforma de cursos e serviços tecnológicos para os mais velhos.

Na área de cuidado e gestão de cuidado, tem empresas como Home Angels (franquia especializada em cuidadores de idosos supervisionados), Gero360 (aplicativo para facilitar a troca de informações e solucionar questões como gestão de medicamentos, medições vitais e histórico de consultas) e GuiaLongevidade, que conecta as famílias às melhores soluções de cuidado.

Já no quesito engajamento e propósito, que resolve uma das maiores dores da população madura – a reinserção no mercado de trabalho –, há inovações como a WeAge, de Márcia Tavares, que desenvolve competências de gestão da longevidade e diversidade etária da força de trabalho, e a 50Mais Courier Sênior – startup de micrologística fundada pelo empresário Pedro Viana Leitão aos 69 anos, onde todos os entregadores (batizados de “couriers”) são da geração prateada.

Entender que o Brasil não é mais um país jovem é o principal ponto para que as estratégias do mercado sejam redirecionadas. “Hoje somos um país com mais avós do que netos”, afirma Mariana Fonseca, fundadora da Pipe.Social, coordenadora do estudo Tsunami60+ e coautora do FDC Longevidade. “A tendência agora é a maturidade ser a maior parte da nossa vida e isso muda bastante as relações com consumo, desejos e vontades.” 

A especialista diz que marcas e empresas precisam repensar toda uma cultura para atender às crescentes demandas e necessidades dos 60+. As maiores dores, segundo ela, estão ainda em questões básicas, como modelagem de roupa e usabilidade de aplicativos.

“Os maduros usam tecnologia, aplicativos de namoro, consomem mil serviços digitais”, conta. “O problema é que a tecnologia não é pensada para eles.” 

Ela também aponta um novo caminho para comunicação e marketing. “É todo um mercado que precisa aprender porque envolve mudança de design, escolha criteriosa de palavras e, principalmente, clichês e estereótipos que precisam ser evitados”, explica a estudiosa, lembrando que os prateados não são um público homogêneo.

“Você não vai pensar o mesmo produto para uma criança de 5 anos e um adolescente de 15”, compara. “Da mesma forma, a pessoa de 60 anos e a de 80 têm desejos e necessidades diferentes. É um público muito diversificado e não dá mais para colocar todos na mesma caixa, como se fosse aquela cena de Dona Benta.”

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