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É ou não é pecado investir dinheiro em marcas de maconha nos EUA?

Após aposta de investidores de Facebook, donos de grandes fortunas questionam valor ético dessa aplicação

Andrew Ross Sorkin, The New York Times,

14 de janeiro de 2015 | 07h04

Na semana passada, a firma de capital de investimentos administrada por Peter Thiel - cofundador do PayPal e um dos primeiros a investir no Facebook, na SpaceX e no Spotify - investiu milhões de dólares numa empresa de maconha.

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O investimento, numa firma chamada Privateer Holdings - dona do Leafly, um banco de dados online com informações a respeito da maconha, e a marca de maconha Marley Natural, batizada com a inspiração de Bob Marley - foi anunciado como grande marco para a incipiente indústria da cannabis, acompanhado por manchetes positivas como a do Los Angeles Times: “Firma de investimentos injeta na indústria da maconha uma dose de credibilidade”. No Vale do Silício, o acordo foi tratado como o mais recente investimento do tipo mude-o-mundo, capaz de alterar os rumos da economia.

Mas a injeção de capital de investimento na indústria da maconha vai aumentar a pressão sobre as fissuras que começam a surgir.

Os fundos públicos de pensão e os fundos universitários buscam cada vez mais evitar que seu dinheiro seja investido nas chamadas indústrias pecaminosas, concentrando-se em vez disso em investimentos com mais “responsabilidade social”, mas não está claro onde a maconha se encaixa nesse espectro. A cannabis se aproxima mais da indústria da saúde, com os benefícios proporcionados para determinados males, ou deve ser incluída na categoria do tabaco, álcool, jogatina, armas e, em determinadas instâncias, dos combustíveis fósseis e dos refrigerantes?

O resultado terá profundas implicações para o futuro da indústria da maconha e o envolvimento das fontes tradicionais de capital: as firmas de investimento, de private equity e de Wall Street.

Grandes investidores como a família Rockefeller já estão moldando seus investimentos com base em sua visão de mundo, comprometendo-se com a ideia de tirar seu dinheiro de ativos que envolvam combustíveis fósseis, por exemplo. Na semana passada, 300 membros do corpo docente da Universidade Stanford - que estaria entre os investidores do Founder’s Fund, de Thiel - enviaram uma carta ao fundo da universidade pedindo que este retirasse seus recursos dos investimentos em combustíveis fósseis.

A firma de private equity Cerberus Capital Management tenta vender o Freedom Group, maior fabricante americano de armas de fogo e munição. A Cerberus começou a ser pressionada por alguns dos fundos de pensão que investem nela após o massacre na escola de Newtown, Connecticut, cometido com um rifle semiautomático Bushmaster, fabricado pelo Freedom.

De acordo com a Kiplinger, cerca de 490 fundos de capital aberto têm algum tipo de missão social - como o TIAA-CREF Social Choice Equity Fund -, representando mais de US$ 569 bilhões.

Então, a cannabis é um investimento socialmente responsável ou merece objeções éticas?

Por enquanto, os maiores bancos americanos - JPMorgan Chase e Bank of America - se recusam a permitir que empresas do ramo da cannabis abram contas. Mesmo os bancos menores se negam a oferecer serviços à indústria.

Geoff Lewis, sócio de Thiel e libertário de longa data, disse achar que a indústria é incompreendida. “Se eu a considerasse uma indústria pecaminosa, não teria investido nela.”

Mas, antes de investir, Lewis disse que precisou de algum tempo para “ficar em paz com a ideia”, algo que "envolveu investigar todas as pesquisas sobre os aspectos medicinais, sociais e viciantes da cannabis”. Ele disse ter concluído que “há benefícios bastante concretos para a saúde quando (a maconha) é usada da maneira correta, para as devidas indicações“, e que “a narrativa em torno da cannabis segundo a qua esta seria uma porta de entrada para substâncias mais perigosas é falsa, e a ciência não conseguiu me convencer da existência de um problema de vício em maconha - de acordo com muitos estudos, a substância é sem dúvida menos viciante que a cafeína”.

Ele também comentou a questão mais geral do possível impacto social do apoio à legalização da maconha. “A posse de maconha contribui significativamente para a superlotação nas prisões, algo que considero um dos maiores problemas da sociedade”, disse Lewis. Ele acrescentou, “Acho que a existência de empresas profissionais e marcas nas quais os consumidores possam confiar será um passo importante para acabar com a proibição, e isso influenciou a decisão de investir na Privateer”. Ainda assim, ele acrescentou: “Foi uma decisão pautada principalmente pelos negócios. O investimento parece bom, independentemente de outras iniciativas de ISR”, referindo-se aos investimentos socialmente responsáveis. “Não sei se podemos afirmar se este seria um ISR, mas é claro que não se trata de um investimento socialmente irresponsável.”

Lewis não está sozinho em sua tese de investimento. Empreendimentos de cannabis dentro da lei captaram US$ 104 milhões em 59 acordos no ano passado, de acordo com CB Insights, firma de pesquisas que monitora as negociações e acordos. A maioria deles foi relativamente pequena: a LeafLine Labs, que tem licença para cultivar e distribuir maconha medicinal em Minnesota, captou US$ 12 milhões, de acordo com a CB Insights. A produtora e distribuidora de maconha medicinal Aphria, com sede no Canadá, captou US$ 6 milhões.

Os investidores podem participar da indústria por meio do mercado público de ações, comprando sua participação em pequenas produtoras e empresas que fabricam artigos para o cultivo e distribuição. Há até um índice de ações da maconha, MJIC Marijuana Index, que acompanha as empresas envolvidas no ramo.

Mas Lewis teme que a indústria da maconha seja vulnerável aos mesmos males que afetam outros setores nascentes que ainda não foram aceitos pelo público em geral.

“Estou preocupado com a possibilidade de o público se envolver no curto-prazo e sair prejudicado - há muitas ações baratas nesse mercado, e a maioria das empresas tem antecedentes obscuros.“

Embora a indústria da maconha possa se converter num setor rentável e sustentável, a probabilidade de os investidores apostarem em peso na indústria “será mínima até que seja aprovada a legalização para uso recreativo nos Estados Unidos”, disse Lewis.

Enquanto isso não ocorre, as dúvidas a respeito dos pecados e virtudes da indústria continuarão a pairar sobre ela.(Tradução de Augusto Calil)

 

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