Pedro Chiamulera, sócio fundador e CEO da ClearSale
Pedro Chiamulera, sócio fundador e CEO da ClearSale

É o momento de repensar o modelo conceitual de Estado, diz CEO da ClearSale

Pedro Chiamulera, sócio fundador da empresa de segurança para e-commerce, comenta expansão para os EUA

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo,

18 de janeiro de 2016 | 06h58

Chove forte quando Pedro Chiamulera chega à ClearSale. O mau tempo piorou o trânsito no caminho de táxi até a empresa e ele se desculpa, com sorrisos, pelo atraso de poucos minutos. Em dias de sol, o empresário arrisca fazer o caminho de bicicleta desde que decidiu dirigir seu carro apenas em situações específicas, como em viagens ou emergências.

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Com bom humor, o empreendedor, que se orgulha dos fios brancos que aparecem na sua barba aos 51 anos,  recebe o Estadão PME para falar sobre a empresa, líder nacional em autenticações de compras online. Liderada por Pedro, que foi atleta e disputou duas olimpíadas, a ClearSale verifica cerca de 80% das transações comerciais feitas via e-commerce no Brasil, e presta serviços para empresas como Magazine Luíza, Claro, Lojas Americanas. Em 2015, a empresa faturou R$ 78 milhões, melhor desempenho desde a fundação, em 2001.

Em uma sala envolvida por vidros rabiscados por canetas piloto, Chiamulera ressalta a importância da horizontalidade em uma empresa, conta sobre o plano de expansão do negócio para os Estados Unidos e analisa a retração econômica enfrentada pelo Brasil. “É o momento de repensar o modelo conceitual de Estado”, reflete. Confira a entrevista completa a seguir.

A ClearSale começou em 2015 um projeto de expansão para os Estados Unidos. Qual é a perspectiva para esse momento?

Ao possibilitar a internacionalização, consolidamos a nossa liderança interna. É um puta aprendizado. Nós precisamos nos abrir para o mercado externo. A chipagem de cartões está chegando aos Estados Unidos agora. Até então, eles não faziam autenticação, e por isso a clonagem está bombando. Mesmo assim, fomos audaciosos, pois o dólar está a R$ 4 e estamos lá com o nosso time. Já temos a filial, contatos, dois clientes.

Uma multinacional precisa de colaboradores com tesão. Imagina o que é chegar nos Estados Unidos e virar lider lá?! Tenho certeza de que vamos bombar.

O dólar alto é apenas um dos indicadores econômicos que têm tirado o sono do empresário brasileiro. Na sua opinião, qual é o caminho que a crise vai tomar em 2016?

Aprendemos aqui que não há espaço para relaxar quando pensamos que está tudo bem. E é isso que eu acho que vai acontecer no País. É na crise que você percebe que pode fazer a diferença. E essa crise, especificamente, vai ser muito boa porque vai simplificar o País. Vai ser lindo.

Precisa haver uma mudança de cultura e a crise vai ser um start. Nosso Estado é muito grande. Temos que fazer um Estado mais simples. As pessoas ainda não são protagonistas.

É preciso dar liberdade para o mercado. É como aqui na empresa. Eu não vou ficar monitorando as pessoas, elas têm que fazer certo e se não fizerem, vão reportar a mim, vão ser transparentes. A gente erra também, mas vamos correr atrás, estamos juntos.

Que tipo de mudança de Estado seria essa?

É preciso mudar a cultura de que o nosso Estado deve ser um provedor. Quem tem que se prover é você mesmo. Para você mudar a cultura, muitas vezes, tem que ser pela dor, pela ruptura.

É o momento de repensar o modelo conceitual de Estado e isso vai muito além da política. O modelo é ineficiente e as pessoas estão percebendo que não funciona. Eu não tenho que ficar discutindo com o Estado, ele precisa me deixar trabalhar. Essa coisa de ficar subsidiando um ou outro setor é um absurdo.

O Brasil é muito rico e tem uma cultura do cacete. O mundo não é mais segmentado, ele é holistico. Até pela internet, estamos todos conectados. E o brasileiro é holístico por natureza, ele vê o todo com mais facilidade. Agora, precisamos ter essa possibilidade para trabalhar, não ter um Estado querendo dizer o que você faz. Ele tem que colocar as regras e olhar apenas se der alguma coisa errada.

O empreendedor brasileiro é arrojado porque não tem que ver apenas a concorrência, ele tem que olhar para o Estado porque as leis são confusas. Aqui na empresa, não conseguimos dar liberdade para as pessoas. A pessoa ter hora para trabalhar não faz sentido na era da internet, os colaboradores precisam ficar livres. A era da internet é a era da confiança, da transparência, da liberdade, da responsabilidade, da disciplina. Não tem desculpa.

Em 2005, houve uma aumento da oferta de emprego no universo da internet, o que fez com que 25 dos então 27 funcionários da ClearSale debandassem e a sobrevivência da empresa ficasse ameaçada. Como é lutar pelo sucesso no Brasil, onde o fracasso não é bem aceito?

Acho que adquiri a resistência ao erro de quando eu era atleta. Quando você é atleta, você fracassa o tempo todo. Quer pior fracasso do que estar preparado e chegar na competição e fracassar porque o seu inconsciente te impediu? O esporte me deu um pouco disso. Eu errei. Quantas vezes a gente erra? É intrínseco.

As pessoas não fazem coisas erradas porque querem. O grande problema do erro é o medo do externo, de perguntar lá atrás, quando estava com uma dúvida.

É muito dificil, no Brasil, a pessoa se levantar quando ela erra. É muito complicado. Quando você leva uma ‘tungada’ grande, percebe que o dinheiro é tão caro e tão complexo, que não consegue se recuperar. Não pode mais fazer financiamento, fez uma dívida com um juro que não consegue pagar. A consequência é a perda da confiança porque o Estado a detonou. O empreendedor recebe a etiqueta do fracasso.

A ClearSale foi idealizada quando o e-commerce ainda era incipiente no Brasil. Com quais transformações na relação de consumo vocês se depararam ao longo desse caminho?

Lá atrás, o problema da fraude ficou muito voraz e tomamos conta disso. A gente se apropriou da segurança do e-commerce e hoje temos praticamente 80% do market share. O e-commerce é muito mais seguro hoje, no sentido de gerar confiança. Estamos, desde o começo, no lugar certo com a plataforma certa. Por isso crescemos quase 1000%, entre 2006 e 2010.

Existem riscos no e-commerce, como o da clonagem. Mas, para o cliente, o mais importante é comprar e receber. Se ele compra e a operação é negada, efeito comum no conceito restritivo das primeiras lojas online, você não está gerando confiança. Por isso, a nossa preocupação é de fazer uma coisa bem respeitosa para ter essa continuidade.

A internet facilita a fraude?

A fraude sempre existiu, sempre houve trambicagem. Mas agora ela está em outros meios. Para qualquer transação feita pela web, a pessoa precisa ter o mesmo padrão de cuidado do offline. E é uma questão de aprendizado. O grande desafio da internet é a fraude, em todos os contextos. Como é não presencial, as pessoas podem simular tudo. Tem um trajeto da informação que pode ser comprometido.

Não existe mais privacidade. Todos os seus dados estão na web. Alguém pode pegar seu CPF e ver suas transações. Não adianta se esconder. Se você se esconder, você vai ser o suspeito.

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