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E agora, o que se deve fazer?

Diante de uma economia deteriorada, só cresce o número de MEIs, o que é ruim para o ambiente empreendedor no País

Vivian Codogno, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2016 | 06h00

O crédito secou. O emprego retraiu. A receita caiu. E o caixa esvaziou. A relação do pequeno empresário brasileiro com o poema ‘E agora, José?’ de Carlos Drummond de Andrade fica cada vez mais estreita. Para esse segmento, a luz ainda não apagou, mas os índices de retração mostram que, por hora, a festa está suspensa. 

As micro e pequenas empresas nunca amargaram tantas perdas como em 2016. Em termos de receita, o faturamento das MPEs paulistas voltou a patamares de 2009, período em que o Brasil enfrentava os reflexos de uma crise financeira global. No total, as MPEs acumularam em abril R$ 6,4 bilhões a menos no caixa, montante 12,4% menor em relação ao mesmo mês do ano passado. A receita total, em abril, foi de R$ 45,3 bilhões. É a 16ª queda mensal consecutiva, segundo pesquisa do Sebrae-SP. 

Além delas, os microempreendedores individuais (MEIs) também tiveram queda acentuada no faturamento mensal. Quando descontada a inflação do período, os MEIs deixaram de acumular 19,9% na receita de abril se levado em consideração o mesmo período do ano passado. No acumulado do ano (janeiro a abril), a categoria amargou queda de 24% na receita real sobre o mesmo período de 2015.

Com déficit no caixa, o emprego nos pequenos empreendimentos também entrou em um terreno de risco, principalmente no varejo. As micro e pequenas empresas tiveram, ainda no mês de abril, saldo negativo de geração de empregos de 10,5 mil vagas. Apesar de ser quatro vezes menor do que o registrado no mês de março, quando apresentaram saldo negativo de 46,9 mil oportunidades, apenas as empresas dos setores de serviço e agropecuário ainda criaram postos de trabalho. 

O desemprego, conforme analisa o professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), Francisco Guglielme Júnior, impede que o pequeno e médio empresário volte a prosperar, uma vez que configura um entrave para a circulação de capital na economia. O especialista se mantém pessimista em relação à reversão desse cenário e aposta em uma retomada do crescimento – apenas – a partir de 2018. “Por mais que haja esforços governamentais, não é possível empregar 12 milhões de pessoas do dia para a noite”, comenta. 

Necessidade. Além de comprometer o poder de consumo das famílias, principais focos de atuação do pequeno negócio, a taxa de desemprego fomenta a abertura de novos registros de Microempreendedores Individuais (MEIs). Apenas no primeiro quadrimestre de 2016, a abertura de empresas dessa natureza totalizou 540,7 mil, alta de 10,4% sobre o mesmo período de 2015. 

A facilidade em obter o registro, porém, somada ao alto índice de desemprego do País, fez com que o empreendedorismo por necessidade, decorrente da impossibilidade da pessoa voltar ao mercado de trabalho, seja o principal fator por trás desse crescimento. Em outras palavras: não há o que comemorar. Pelo contrário, pois empresas assim deterioram o ambiente empreendedor. 

“Em época de crise, não é hora de abrir uma empresa”, crava o economista e responsável pelo levantamento realizado pela Serasa Experian, Luiz Rabi. “As oportunidades de negócios diminuem em períodos de recessão. Desde 2013, as outras naturezas jurídicas não crescem. O MEI é uma questão de sobrevivência da própria família”, comenta Rabi.

Assim, a equação da crise para o empresário de pequeno porte retorna ao fator inicial, conforme analisa o especialista da FGV. “O faturamento cai porque, por mais que existam mais empresas sendo criadas, o bloco de consumo continua o mesmo”, avalia Francisco Guglielme Júnior.

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