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Dono de hotel de 1,3 mil anos luta para formar um sucessor

Após morte do filho, homem que representa a 46º geração passa por cima da tradição e tenta convencer a filha a assumir o comando do negócio

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2016 | 05h00

Ativa há absurdos 1.300 anos, uma das empresas mais velhas do mundo luta para manter as portas abertas. O problema não é o dinheiro, já que o hotel Houshi Ryokan, funcionando de forma contínua desde 718 é uma das grandes atrações turísticas do Japão. Seu desafio é, por incrível que possa parecer, exatamente o mesmo pelo qual passa todas as empresas familiares que se tem notícia: a transição de gerações.

Não que o pessoal no comando do hotel Houshi desconheça como encaminhar esse processo. Na verdade, a mesma família vem fazendo esse movimento de entra e sai de chefes há 46 gerações. Mas aconteceu que uma fatalidade assolou o lar nos últimos tempos, deixando a vida de Zengoro Houshi, o atual presidente, no dilema entre a tradição e a sobrevivência.

Tirando o fundador, o mestre budista Taicho Daishi, todos os demais líderes do Houshi foram homens chamados Zengoro, filhos mais velhos da casa. E tudo vinha funcionando perfeitamente bem dentro desse típico reino de uma casa só até que, dois anos e meio atrás, o jovem Zengoro, que estava sendo preparado para suceder o pai em breve, morreu subitamente.

Dono de um autêntico fatalismo oriental, restou a Zengoro se conformar com a situação e transmitir a Hisae Houshi, sua filha, a responsabilidade de encaminhar o manutenção do local. O patriarca já se conformava em não ter um Zengoro como próximo comandante, e, desde então, vem trabalhando a cabeça e os ombros da filha para a tarefa. Uma missão que ainda não está totalmente realizada.

Em um documentário produzido por Fritz Schumann no ano passado, o patriarca Zengoro, sua esposa Chizuko e a filha Hisae falam sobre o problema com uma sinceridade surpreendente. "Tem horas que eu desejo não ter nascido como um membro da família Houshi", desabafa Hisae. "Miha filha é uma garota obediente, responsável e ativa", afirma a mãe. "Ela é a única pessoa que pode falar ao seu pai o que fazer. Nossa prioridade é manter um hotel de 1.300 anos e para isso, as vezes, temos de sacrificar a família", finaliza o pai.

Em um certo momento, Hisae relata quais eram seu planos, fáceis de se supor para alguém que, como ela, foi criada em uma mesma casa, em uma cidade de interior. "Queria encontrar um parceiro e me mudar do hotel", afirma. "As vezes eu choro. Tenho uma quantidade inimaginável de responsabilidades agora e isso é um fardo pesado dentro de minha cabeça", conta Hissae.

O filme de doze minutos termina com a imagem dos três juntos, filha, mãe e pai, na frente do hotel. Como autêntico patriarca, a última palavra do filme é de Zengoro: "nós estaremos esperando por ela".

O hotel. O mundo era um lugar muito diferente quando o Hoshi Ryokan abriu suas portas pela primeira vez. Naquele ano de 718, para se ter uma ideia, a influência do império romano ainda dominava a cultura mundial, a invasão árabe pela Europa e Índia estava em seu ápice. 

Claro que o hotel passou por algumas reformas ao longo dessa história toda. Mas os detalhes da arquitetura original estão todos lá, preservados para o visitante, que desembolsa US$ 580 por uma pernoite em cama dupla e com direito a café da manhã e jantar.

O hotel hoje em dia tem 100 suítes. Tem também duas piscinas termais mistas e duas outras, uma apenas para homens e a outra para mulheres. Os hospedes também recebem um quimono especial para entrarem no clima milenar durante a estadia. Há também diversos jardins tradicionais e uma bela paisagem ao redor.

Quem quiser saber mais, saiba que o hotel é antigo, mas vive como um negócio de seu tempo. No site do empreendimento (em inglês), há detalhes sobre a história e os contatos para reservas.

 

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