DENNY CESARE/ESTADÃO
DENNY CESARE/ESTADÃO

Doces sem frescura como o de abóbora, batata e até a bananinha resistem ao gourmet

Empreendedores não reclamam de falta de demanda, mas buscam diversificar a produção

Marcelo Osakabe - O Estado de S. Paulo,

23 de setembro de 2014 | 19h30

 “Quando entrei no ramo, encontrei alguns produtos que não via desde criança, como a casquinha de sorvete com maria-mole em cima”, conta a empresária Claudineia Donella Moraco. A paulistana comandava uma padaria e decidiu comprar uma distribuidora de doces em 1997. Cinco anos depois, algumas indústrias que forneciam maria-mole, bananinha e doces de abóbora e batata (aqueles em formato de coração) quebraram. A empresária viu então uma segunda oportunidade e adquiriu a fábrica da marca Clamel. “Entrei no mercado porque percebi que esses produtos faltariam”, justifica.

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 A Clamel aumenta sua produção a cada ano e, entre janeiro e junho de 2014, produziu cerca de 91 mil caixas de doces por mês, com faturamento médio de R$ 554 mil. A empresária diz que só não vende mais porque não dá conta de aumentar a produção. “Comprar equipamento novo é um drama. Quase tudo o que tenho vem de outras fábricas que fecharam”, explica.

 O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de balas, doces e chocolates do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e Alemanha. No entanto, não há dados específicos sobre o consumo dessas guloseimas.  Mas segundo o consultor da Food Service Company, Adri Vicente Junior, boa parte desses doces concentrou suas vendas em segmentos de renda menor.

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“A maioria dos lugares onde esses produtos eram disponibilizados se transformou. As padarias, por exemplo, estão caminhando para se tornarem butiques de pães. As cantinas de escolas privadas deixaram de comprar esses produtos, algumas nem mesmo permitem doces”, explica. “Isso não quer dizer que eles não tenham mercado, pelo contrário. O que eles fizeram foi eleger um público e produzir para ele, e fazem isso muito bem”, afirma Junior

 Todos os produtores entrevistados pela reportagem estão cientes dessa transformação e procuram atualização. A fábrica da Gulosina, em Londrina, se prepara, por exemplo, para produzir uma nova linha, mais saudável e com menor teor de açúcar para o doce de amendoim, o doce de leite e a cocada.

A Gulosina surgiu em 1995 a partir da experiência do avô de Cibelle Sugayama, uma das sócias da empresa. Ele atuava na fabricação da geleia de mocotó de duas cores, um produto que ainda hoje é o segundo mais importante da marca. A empresária, no entanto, percebe que a idade dos seus consumidores está avançando e isso também é outro fator que acelera a atualização do negócio. “Nossa preocupação é com o longo prazo. Os nossos consumidores ainda são os mesmos que comiam o doce do meu avô”, analisa a empreendedora.

 Tática semelhante adota hoje em dia a fabricante da Bananinha Paraibuna, que existe no mercado, à disposição dos consumidores, desde 1975. O doce de banana é produzido desde meados de 1980 na versão sem açúcar polvilhado, um pedido feito pelos próprios clientes, segundo uma das proprietárias da empresa, Jane Maria Ruela, filha do fundador do negócio. 

 A marca patrocina eventos de atletismo e envolvidos com causas ecológicas para aproximar-se dos novos consumidores. Os produtos da Paraibuna, entretanto, não sofreram do mesmo mal da especialização em segmentos que contemplam clientes dotados de rendas mais baixas. 

 “Nós produzimos a bananinha da mesma forma artesanal e com a mesma qualidade que meu pai fazia. Hoje, ele não é um produto barato, um pacote custa de R$ 7 a R$ 12, mas a demanda nunca diminuiu, pelo contrário”, afirma Jane.

Segundo Junior, da Food Service, a qualidade é sem dúvida um requisito para atingir outras faixas de renda. Entretanto, outro fator importante é a apresentação, e muitos erram nesta parte. “Um restaurante transformado, por exemplo, deixa as pessoas achando que a comida melhorou muito, quando na verdade não aconteceu nada”, afirma. Para ele, a paçoca foi um dos poucos doces que fez essa transição. “Ela conseguiu atingir todas as classes mantendo a mesma qualidade, mas investindo em embalagens e outras formas de utilização.”

O exemplo da Paçoquita. Competir com a italiana Nutella, fabricante do creme de chocolate com avelã apreciado e reconhecido em todo o mundo, não é para qualquer empresa. Mas é o que a Santa Helena, fabricante da Paçoquita, está tentando, pelo menos nas redes sociais. O empreendimento lançou no começo de julho, e sem muito alarde, a Paçoquita Cremosa, versão ‘espalhável’ do doce. O produto, entretanto, logo ganhou a internet com vários usuários demonstrando vontade de experimentá-lo. “Nós queríamos entrar em um mercado diferente do nosso e sabíamos da qualidade do produto. Mas ficamos um pouco surpreendidos com esse engajamento”, afirmou a gestora da área de marketing da empresa, Luciana Persoli. Ela credita à força da marca o resultado nas redes sociais. “A Paçoquita já era tão reconhecida que as pessoas achavam o novo produto interessante mesmo antes de consumir.” Ainda segundo Luciana, o produto atingiu o volume de vendas esperado e chamou a atenção de países na América do Sul, além dos Estados Unidos e Japão.

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