Felipe Rau/Estadão
DJ Bola no terraço de sua casa no Jardim Fujihara, na vizinhança do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo.  Felipe Rau/Estadão

DJ compartilha conhecimento para empoderar periferia e acelerar negócios

À frente de empresa que impacta empreendedores em bairros periféricos de todo o País, Marcelo Rocha, o DJ Bola, defende a ‘quebrada’ como protagonista

Ana Paula Boni, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 05h01

Na década de 1990, quando ainda não existiam smartphone, mp3 ou plataforma de streaming, os DJs escamoteavam informações sobre os artistas que tocavam nas festas. Arrancavam os selos do centro do LP, que indicavam o nome da banda, transformando o disco no que chamavam de “piratinha”. Marcelo Rocha, conhecido como DJ Bola, encarou muitos piratinhas em eventos, mas hoje, para combater a sonegação de informações, faz exatamente o contrário: divide o que sabe para empoderar a periferia e inspirar quem quer trilhar caminhos semelhantes ao dele.

“Compartilhar conhecimento é muito valioso. Isso apoia e empodera. A gente, aqui n’A Banca, abre os códigos, fala sobre como tudo funciona.” Nascido e criado na vizinhança do Jardim Ângela, no extremo sul de São Paulo, Bola usa a música para empreender, dar emprego na quebrada e empoderar novos negócios. Hoje com 40 anos, ele criou A Banca ainda adolescente ao lado de amigos para promover eventos de rap e hip hop. Em 2008, A Banca virou pessoa jurídica, como produtora cultural, e em 2018 deu mais um passo como protagonista e começou a acelerar e mentorar outros negócios.

Ao lado de parceiros como a Artemisia (organização que fomenta negócios de impacto social) e da Fundação Getúlio Vargas, por meio do seu Centro de Empreendedorismo e Negócios em São Paulo (FGVCenn), A Banca criou em 2018 um programa para ajudar outros pequenos empreendedores da periferia da zona sul, chamado Aceleradora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip).

Foram dez negócios acelerados em 2018, com capital-semente de R$ 20 mil para cada empreendedor; em 2019, o programa expandiu para outras regiões de São Paulo, também impactando dez negócios (R$ 20 mil para cada um); em 2020, já rebatizado como Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia (Anip), foram 30 pequenos empreendedores selecionados de todo o País; e neste ano, 60 negócios em formação, dos quais 48 receberam R$ 1.250 e seis ficaram com R$ 15 mil cada um.

“A gente sentia essa demanda da própria quebrada. Em 2017, fizemos um fórum de negócios de impacto para problematizar o que é ser empreendedor, como apoiar quem está na periferia”, diz o articulador de negócios de impacto social. “Antes, era muito louco até para mim pensar em ser empreendedor. Porque na minha cabeça empreender era coisa de homem branco da Faria Lima. Eu não me via nesse lugar.” 

Bola conversa com a reportagem de sua casa no Jardim Fujihara, no distrito do Jardim Ângela, região considerada na década de 1990 a mais violenta do mundo pela ONU, onde ele se criou. Nunca saiu dali. Cita festas e efemérides desde sua infância até a vida adulta apontando para ruas e ladeiras, a casa dos pais mais adiante, em cuja garagem surgiram vários projetos, a padaria onde viu um funcionário tirar com rodo sangue do chão de um homem assassinado, bairro onde tudo teve começo em sua vida e onde ele quer estar até o fim.

Negócios impactam outras periferias

“Aqui tem muita gente talentosa. A quebrada é vista como consumidora, cliente, usuária. Mas ela é muito mais do que isso. Ela pode ser protagonista, ela pode falar da gente para a gente”, diz ele, que inspirou e ajudou a acelerar empreendedores como Luis Coelho e Jennifer Rodrigues, da escola de negócios Empreende Aí; João Guedes, Márcio Cardoso e Fábio Borges, da Emperifa, que também atua na gestão para negócios periféricos; Alvimar da Silva, criador do aplicativo de transporte Jaubra; e Joyce de Jesus e Robert José, da Enjoy Orgânicos, delivery de orgânicos na periferia da zona sul.

Luis Coelho, que fundou a Empreende Aí com Jennifer em 2015, participou da Anip em 2018, quando a sua escola de negócios da periferia para a periferia já tinha uma trajetória. “A Anip foi muito interessante naquele período porque a gente precisava crescer e repassar nossa metodologia a facilitadores. Dali, começamos uma expansão do nosso negócio”, diz ele, que já impactou empreendedores em todas as regiões do País.

Para Maure Pessanha, presidente do conselho da Artemisia e colaboradora do Estadão, o empoderamento desses empreendedores passa também pela lógica do retrovisor. “Ter uma pessoa que nasceu no mesmo lugar que você, frequentou a mesma escola e inspira algo bom cria uma motivação de ‘se ele pode, eu também posso’. E a partir do momento em que Bola também trabalha com a linguagem do hip hop, que tem muita conexão com o jovem, essa relação de motivação e inspiração fica ainda mais próxima.”

Até chegar a esse ponto, Bola primeiro teve de virar a chave de usar a música apenas como hobby. Começou por volta de 2002 em um projeto do Instituto Sou da Paz, cuja conclusão era ele dar uma oficina de DJ. Foi no Sou da Paz onde ele conheceu seu sócio e cofundador d’A Banca, Márcio Teixeira, conhecido como Macarrão. Ali, ele aprendeu a pesquisar e se inscrever em editais: passou por Qintessa, Simbiose, Anprotec e Sebrae até chegar à Artemisia, selecionado para o Expedição Jovens Empreendedores de 2007.

Naquele momento, sua renda vinha exclusivamente do trabalho como motoboy. Ao longo de um ano, participou do curso de formação da Artemisia, na mesma turma de nomes como Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta. Era um ano para fazer o plano de negócio d’A Banca e dois anos de acompanhamento, recebendo bolsa.

“É nesse momento em que eu deixo de ser motoboy e passo a ser empreendedor. A Artemisia veio com a narrativa do negócio social, dizendo que empreender era resiliência e brilho no olho. E isso eu já tinha fazia dez anos”, bate no peito. Nesse lugar de resiliência, ou melhor, resistência, Bola entende que a periferia tem de ser fornecedora de produtos e serviços, não apenas consumidora.

Educação para derrubar as barreiras

A partir dessa reflexão, ele posiciona A Banca para atuar em três áreas: a primeira é com cultura, música e educação, por meio da qual promove eventos, dá aulas de DJ e atua no ramo fonográfico; a segunda é com serviços de consultoria de impacto, principalmente em escolas privadas, para fomentar o rompimento das bolhas. A Banca participa, por exemplo, de um projeto de educação há cerca de seis anos no Colégio Equipe, do bairro Higienópolis, para falar sobre a periferia e o lugar de privilégio.

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Ali, são dois cursos temáticos, o “São Paulo: limites e possibilidades” e o “Juventude e identidade”, em que A Banca participa de aulas para alunos do Ensino Médio. Antes da pandemia, conta a diretora do colégio, Luciana Fevorini, havia também um intercâmbio presencial de jovens do bairro de elite que iam até a zona sul para uma vivência, e de moradores da periferia que eram recebidos pela escola. A parte presencial deve retornar em 2022.

“Não é só uma proposta cultural, mas reflexiva. É preciso cruzar as pontes”, diz Bola, em referência às pontes que separam o centro expandido das periferias de São Paulo. “É preciso tornar essas pessoas mais empáticas. Quando estamos em escola particular, falamos sobre ter abertura, para descontruir o que existe, haver diálogo e propor uma reconstrução”, diz ele, que hoje está no segundo mandato como conselheiro do Instituto Coca-Cola Brasil.

A terceira área de atuação d’A Banca, que hoje conta com oito funcionários, é a Anip, de articulação de outros negócios. Com a Anip, os alicerces são: 1) mobilização e inspiração; 2) formação de empreendedores; 3) geração de conhecimento (com artigos, podcasts); e 4) novos modelos financeiros, com acesso a crédito.

Foi pensando nesse quarto item que A Banca fez uma parceria com o Banco Pérola no ano passado e criou o fundo Volta por Cima, de empréstimo a juro zero a negócios já acelerados pela Anip. Foram 65 pessoas impactadas, com até três rodadas de empréstimo cada uma, somando cerca de R$ 1,5 milhão. “Na pandemia, o nosso objetivo era pensar em uma iniciativa que depois não fosse virar uma dor de cabeça. Não podemos endividar essas pessoas.”

Iniciativas como o Volta por Cima e as turmas de aceleração da Anip contam com doações e patrocínios de entidades como a Fundação Arymax e a Fundação Tide Setúbal. A quem está na quebrada e vê com desconfiança a ajuda vinda de fora, Bola segue argumentando que esse é o primeiro passo do empoderamento. “É preciso mostrar às pessoas que é possível ter seus sonhos, que pensar no dinheiro é se empoderar com a sua paixão.”

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