Eve Edelheit/TNYT
Eve Edelheit/TNYT

Destilarias correram para fazer álcool em gel; agora sobra no estoque

Com demanda flutuando na crise do coronavírus, fábricas de bebidas enfrentam gastos não previstos e excesso do produto; após meses de prejuízos, empresas querem voltar a vender seus uísques

Kellen Browning, The New York Times

13 de agosto de 2020 | 15h44

Em março, com a pandemia do novo coronavírus fechando bares e restaurantes, a destilaria de Phil McDaniel em St. Augustine, Flórida (EUA), deixou de fabricar seu bourbon ao ver que não havia um produto no mercado pelo qual as pessoas vinham clamando: desinfetante de mão.

Sua destilaria começou a produzir o desinfetante, chegando a dez mil galões do produto. Com o álcool em gel em falta em todo o país, ele rapidamente vendeu e doou quase todo o seu estoque para hospitais e prontos-socorros em toda a costa nordeste da Flórida. “No início foi algo inacreditável, uma demanda frenética. Foi muito gratificante fornecer o produto e ajudar”, disse McDaniel.

Mas com os casos de vírus aumentando novamente na Flórida e em outros Estados americanos, ele não tem planos para produzir mais álcool em gel. Isto porque a demanda inicial diminuiu em junho quando grandes marcas, como a Purell, colocaram mais do produto no mercado. O preço do desinfetante, que chegou a US$ 50 o galão, despencou para US$ 15 por galão. Hoje ele ainda tem 10 mil galões de álcool em gel e 50 galões de ingredientes para sua fabricação em seu depósito.

McDaniel é um dos mais de 800 donos de destilarias nos Estados Unidos que trabalharam para ajudar na primeira onda da pandemia, impulsionados pelas agências federais, mas agora vacilam em investir mais tempo e dinheiro nessa produção. Com a demanda flutuando, as destilarias enfrentam gastos não previstos e um excesso do produto do qual não conseguem se desfazer.

Ao mesmo tempo, os negócios do setor de cerveja, avaliado em US$ 3,2 bilhões, deterioraram. As cervejarias com frequência são empresas familiares, frágeis, com pouco mais de uma dezena de empregados e são as poupanças feitas pelos proprietários que são investidas na operação. Hoje, golpeados por meses de prejuízos nas vendas de bebidas, muitos não têm condição de gastar mais ou fabricar desinfetante, quando na realidade o que desejam é voltar a fabricar uísque para sobreviver.

O problema mostra como a vida ficou mais complicada com a persistência da pandemia. O que foi no início uma decisão óbvia, com o intuito de ajudar as comunidades locais e alimentar um novo negócio, converteu-se num cálculo financeiro conturbado à medida que os rigores da crise continuam a se acumular.

“Parece que nenhuma boa ação ficará impune no momento”, disse Spencer Whelan, diretor da Texas Whiskey Association, que representa as destilarias do Estado.

A indústria de desinfetantes de mão tem sido dominada pelas grandes empresas, como a Cloros e a Gojo Industries. Como são fabricantes registradas, estão sujeitas a inspeções rigorosas da Agência de Remédios e Alimentos que as autorizam a produzir o desinfetante.

Mas em março o mercado estava abalado, com a escassez de desinfetantes de mão, adquiridos em grande quantidade por hospitais, funcionários de prontos-socorros e aproveitadores. Naquele mês, a FDA e a agência que controla o comércio de álcool e tabaco expediram uma diretriz temporária permitindo às empresas começarem a produzir o produto sem se submeterem às inspeções e vigilância normais.

Para a destilaria, fabricá-lo era bem simples. Já possuía autorização para trabalhar com o etanol, álcool usado para bebidas e como ingrediente de desinfetante. E tinha os tanques e os equipamentos para fazer a mistura e envase do produto.

A perspectiva de substituir a receita das bebidas alcoólicas pelas vendas de desinfetantes despertou o interesse de Jonathan Eagan, coproprietário da Arizona Distilling Company, em Tempe, Arizona. Ele gastou US$ 50 mil em álcool para produzir o desinfetante e rapidamente vendeu sua produção compensando o prejuízo de dois meses na venda de bebidas.

Demissões e prejuízos no setor de bebidas

Esse dinheiro foi crucial, uma vez que bares, restaurantes e tours – principais fontes de receita – foram fechados. Numa pesquisa realizada em abril junto a 118 destilarias em 35 Estados, todas responderam ter demitido 43% dos seus funcionários e que as vendas despencaram 64%. Dois terços não esperavam abrir nos seis meses seguintes.

Mas mesmo com o aumento na procura de desinfetante, essa operação também começou a se esvair. Com as compras do desinfetante se normalizando e a produção nas grandes empresas se estabilizando, “os negócios secaram” nas últimas semanas, disse Eagan.

Agora, com o Arizona às voltas com novos casos de coronavírus, grande parte dos mil galões do produto está parada, conforme Eagan. Ele coloca a culpa pela redução da demanda na “hesitação” das autoridades quanto à gravidade da pandemia e quanto às empresas que podem reabrir e continuar abertas. “A maior frustração é o vai e vem. Muitos bares e restaurantes não sabem se abrem hoje e se estarão abertos amanhã”.

Alguns Estados, como a Califórnia e muitos da Nova Inglaterra, suspenderam temporariamente as leis que proíbem as destilarias de vender álcool para os consumidores. Em Estados onde essas normas não mudaram, algumas destilarias disseram que sua boa vontade para fabricar e doar o desinfetante de mão durante uma crise merece um adiamento temporário das restrições impostas às suas operações de venda.

As destilarias “cumpriram com seu dever cívico”, disse McDaniel, que é presidente do grupo Florida Distiller’s Group. “Agora elas estão nas últimas”. 

Barry Butler, proprietário da Tarpon Springs Distillery, na Flórida, se juntou com uma destilaria de rum vizinha para fornecer 15 mil galões de desinfetante e ganhou US$ 40 mil com a venda de dez mil galões. Mas quando a demanda despencou em junho, ele voltou a produzir aguardente e Uzo, uma bebida grega.

Butler disse ter enfrentado problemas com os equipamentos. As regras da FDA para fabricar desinfetante exigem que seja adicionado um agente amargo, como o componente Bitrix, para que as pessoas não tentem beber o produto acabado. O Bitrix é um produto tão forte, disse Bitrix, que os equipamentos usados para produzir o desinfetante ficaram arruinados.

Nem todas as destilarias desistiram de produzir o álcool para as mãos. Matt Allen, da Dark Door Spirits, em Tampa, na Flórida, disse que começou a fabricar o desinfetante em março e vendeu pelo menos 20.000 galões para oito cidades, 16 condados, para a agência federal de aviação e para o Serviço Postal. Quando a demanda diminuiu, passou a fechar contratos com hospitais locais para compra de um volume garantido do produto. “Nós apenas precisamos de algum tipo de compromisso de longo prazo”, disse ele.

A Augustine Distillery, de McDaniel, inaugurada em 2014, é conhecida por sua vodca de cana e uma variedade de uísques envelhecidos por três anos ou mais. Ela atrai dezenas de milhares de turistas anualmente que vão à sua sede onde outrora funcionava uma fábrica de sorvete.

A empresa, que teve prejuízo no início, passou a registrar lucro desde que seu uísque terminou o processo de envelhecimento, há quatro anos. Mas quando a pandemia se abateu sobre o país, a sala de degustação da bebida, repleta de pessoas, e os tours, hoje são apenas lembrança. Em abril, ele cortou toda a publicidade e demitiu 15 dos seus 45 empregados."É assustador”, afirmou.

McDaniel disse que o desinfetante fornece o suficiente para cobrir os custos do que ele doou e alguma coisa mais. Em junho, ele deixou de fabricar desinfetante. A St. Augustine Distillery agora vem produzindo novamente o seu Bourbon, mas está registrando somente a metade das vendas normais do produto.

“No fim, nossa principal atividade é produzir uma bebida realmente boa. Conseguir voltar a operar e ter uma demanda pelo nosso produto, vendê-lo e lucrar, é isto que estamos buscando no momento”. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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