Anna Olímpia
Anna Olímpia

Design ajuda a dar identidade a produtos e alavanca empresas

Marcas veem alta nas vendas com produtos que ganham 'rebranding', com nova conceituação; para especialistas, identidade visual cria diálogo com cliente e reforça posicionamento no mercado

Bruna Klingspiegel, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2022 | 05h02

Seja andando pelos corredores do supermercado ou rolando o feed do Instagram, um dos primeiros pontos de contato de uma marca com o consumidor é o design do produto. Para além do lado funcional, a embalagem é uma declaração sobre quem você é como empresa - inovador, luxuoso ou sem muita personalidade - por exemplo.

Embalagens icônicas ficam na mente do consumidor e são lembretes constantes da importância de empreendedores investirem em design durante a construção de uma marca. Em um mercado cada vez mais saturado de produtos, pequenos e médios empreendimentos competem a atenção dos consumidores com grandes marcas e precisam aproveitar qualquer vantagem competitiva para se destacar. 

“Ou você tem uma história única ou você vai cair em um balaio de marcas, embalagens e produtos que não vão te diferenciar. E aí as consolidadas acabam saindo na frente. Então para pequenas e médias empresas, junto com simplicidade, eu adicionaria a palavra ousadia e coragem”, afirma Fernando Andreazi, cofundador do Rebu, estúdio de criação e desenvolvimento de marca.

Todo mundo quer agregar valor ao seu negócio, mas para conseguir potencializar a percepção de uma empresa na mente dos consumidores, as narrativas precisam ser claras e verdadeiras. Produto, embalagem, espaço físico, interação e experiência. Tudo isso deve se conectar a uma palavra mágica: marca.  

Segundo Andreazi, a embalagem acaba sendo uma grande parte do espaço que a marca ocupa na mente dos consumidores. "Em um exemplo prático, é como se a embalagem fosse a roupa e a marca fosse a identidade de uma pessoa. Você não se sente bem quando você está vestido com algo que não responde à sua própria essência", afirma.

O estúdio Rebu tem uma extensa lista de projetos inovadores para pequenas e médias empresas com design gráfico. A criação das embalagens da sorveteria Bacio di Latte, por exemplo, ganhou notoriedade e levou a medalha de prata na categoria Consumo de Massa na 11ª edição do Brasil Design Award 2021, premiação que reconhece e divulga os trabalhos desenvolvidos por designers de todo o Brasil.

Outro exemplo de destaque é a Nude, foodtech 100% plant based que desenvolve produtos a partir da aveia. Ao unir uma narrativa clara e uma boa dose de ousadia, a marca se destaca pela simplicidade e ganha fôlego no mercado, apesar de trabalhar com itens de nicho.

“A Nude fala de uma vida minimalista e quer que as pessoas despertem para o que realmente é necessário na vida, então a marca pedia uma embalagem com poucos elementos, extremamente neutra, nude, simples e elegante ”, completa.

A primeira impressão é a que fica

A embalagem está diretamente relacionada com a identificação de um produto e o reconhecimento de uma marca.  Segundo Erik Marchetti, cofundador do Holy Studio, estúdio de branding e design de embalagens especializado no mercado de bebidas, características exclusivas aproximam o consumidor e estabelecem uma sensação de familiaridade.

“A gente precisa dissecar e procurar qual é a característica daquele produto ou naquela marca que realmente é verdadeira. A gente fala internamente de buscar que ele seja sempre icônico e intrigante”, diz.

A agência premiada foi reconhecida internacionalmente pelo trabalho com o La Favola, azeite de oliva de posicionamento premium. Para reinventar o segmento, a equipe decidiu utilizar como referência perfumes e elementos de luxo.

Tudo começou com o cliente, conta o designer. Na região onde são plantadas as oliveiras existe uma raposa rara, que apareceu algumas vezes na plantação. Com ela, também vieram as raízes italianas da empreendedora e o desejo de utilizar as fábulas como inspiração para contar a verdade sobre o produto. 

“Uma identidade única eleva a percepção do consumidor sobre seu produto. Quando o empreendedor percebe que investir nisso é um negócio lucrativo, ele começa a agregar valor e criar uma vantagem competitiva.”, conclui Erik.

Rebranding impacta positivamente as marcas

O mercado consumidor está cada vez mais exigente e a qualidade dos produtos não é mais o único diferencial competitivo. Com isso, o design, antes visto como uma atividade de luxo, é uma ferramenta para promover o sucesso dos pequenos e médios negócios.

Esse é o caso da Herbo Aromas. A empresa familiar era especialista em farmácias de manipulação, mas passou por uma longa transformação quando Daniela Prando assumiu o negócio da família e direcionou seus esforços para o desenvolvimento de uma linha de produtos para casa como aromatizadores e velas. 

Nos primeiros anos de existência, a marca foi sendo desenvolvida pela própria farmacêutica. Ela pensava nas embalagens, rótulos e em toda a identidade visual dos produtos. O tempo foi passando e a necessidade de ter um projeto de design mais completo se tornou indispensável. Em 2020, a farmacêutica conheceu Juliana Zarattini e Marjorye Cavazotto, fundadoras da Melt Design, e decidiu investir na reformulação da sua marca.

"Depois do relançamento a gente começou a vender três vezes mais em comparação a oito meses antes. Isso faz muita diferença para o pequeno empreendedor", conta Daniela Prando, proprietária e fundadora da marca.

Também vencedor da medalha de prata no Brasil Design Awards 2021, o projeto desenvolvido pela Melt para a Atilatte, marca de laticínios conhecida pelos produtos com corantes e aromas naturais, trouxe embalagens divertidas e interativas em um stick de queijo mais saudável para as crianças. Quatro animais “compridinhos” se encaixam no formato do palito e ajudam a criar conexão com os pequenos.

“Eu tenho uma filha de dois anos e meio e ela não gosta de queijo, mas esse ela come. Então eu vejo isso como um um mérito muito grande da embalagem porque ela pede pelo bichinho. Ela é uma criança que precisa comer queijo por causa do cálcio e por conta da embalagem ela está consumindo esse produto que é bonito e de qualidade”, conta Marjorye.

Para a cofundadora, uma grande parte de seu trabalho é ajudar os clientes a dar um passo para trás e buscar entender o que o  produto tem de especial para poder exteriorizá-lo da melhor maneira possível.

“Antes o design era visto como algo direcionado apenas para as grandes empresas. Ao decorrer dos anos, a gente vem percebendo que a pessoa que trabalha sozinha, aquele pequeno ou médio empreendedor também precisa comunicar algo. Ele precisa entender o que ele faz diferente das outras empresas, qual é o público dele, o que ele pode prometer para os clientes e como entregar com excelência”, completa.

* Estagiária sob a supervisão da editora do Estadão Carreira e Empreendedorismo, Ana Paula Boni

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